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Já havia fumado seu ultimo cigarro, e agora só o gelo restava no copo de uísque. Era incrível como aquilo tinha se tornado um hábito. Tinha andado fora dos eixos desde que ela se fora, perder tudo que construiu de uma tacada só tinha feito seu mundo desmoronar. Ela tinha ido embora, e o pior levara seu cachorro consigo.

Caminhar pelo apartamento semivazio o enchia de lembranças, a cabeça vivia latejando. Ela fugiu, ela sumiu levando seu cão, seus vinis e até alguns maços de cigarros e trocados que ele largara dentro do bolso de um paletó. Pelo menos deixara sua velha poltrona e um bilhete que dizia que nada era pra sempre. Ela conseguiu estragar uma música que ele amava.

Duas semanas nessa agonia, trabalho, adega para reabastecer-se de cigarros e álcool, casa.  Era uma rotina perigosa, estava começando a ficar judiado, as garotas da empresa já estavam começando a ficar preocupadas. Ele não era mais o “boa praça” que sorria o tempo todo, não fazia mais piadas. Apenas cumpria o seu dever, a barba não estava tão bem aparada como antes. Era um zumbi em um terno bem cortado, alimentado de café.

Levantou da poltrona com a boca amarga, precisava arejar a cabeça, precisava comprar cigarros. Colocou uma camiseta com o símbolo do Batman gravado no peito, calçou o All star e forçou o corpo a sair do apartamento, iria para o pub, ou pra qualquer lugar, não tinha um plano, só queria sair. Entrou na primeira padaria que encontrou e comprou café e cigarros.

De volta à rua, com a cara amassada e sem vontade de nada caminhou até um velho bar de jazz, sentou-se na mesa mais escura e pediu uma garrafa de Uísque, o bar era aberto, então poderia destruir os pulmões com a doce fumaça e ouvir uma boa música. Sentia falta de seus discos, sentia falta do cachorro, e diabos como sentia falta daquela maluca que o destruíra.

Por algum motivo as garotas sentadas na mesa mais próxima estavam flertando com ele, mas ele estava ali pra beber, estava ali pra destruir o resto de lucidez que ainda lhe restava, e não importava o quão as garotas eram lindas. Ele não queria sorrir e inventar histórias para ter um corpo quente aquecendo o seu aquela noite, então o melhor era ignorar o flerte e voltar ao álcool.

Abandonou o bar por volta das quatro da madrugada, mais bêbado que um gambá em um canavial. Refez o caminho para casa, parou na padaria, comprou mais três maços de cigarro e rumou sentido ao seu prédio. O porteiro lhe disse algo sobre volta, não conseguiu entender então só acenou com a cabeça e entrou no elevador. Só com muito esforço achou a fechadura, o apartamento estava cheirando bem, será que estava no seu apartamento?

Olhou para baixo e se surpreendeu ao ver o seu cachorro  brincando com seus cadarços . Ouviu ao longe a voz dela dizendo que ele ficava fora da linha longe dela. Por isso ela voltou, porque ela descobriu que o amava, porque ele precisava dela. Ela disse que ele deveria ter várias perguntas e que estava ali para responder a todas.

Realmente ele tinha perguntas, e ele começaria com a mais importante delas: Onde estão os meus discos?

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Biólogo com especialidade em toxicologia alucinógena por formação, toca contra-baixo por teimosia, escreve por necessidade, mas a sua real vocação é almoçar. Escreve no seu blog acamadepregos mas nem sempre.

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