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O ministério Público de São Paulo reivindica seriedade filosófica, ao solicitar a prisão de Lula, com citações de grandes pensadores ocidentais. Na onda da fanfarronice midiática, acabam cometendo uma gafe monumental, embalados pela disputa dos holofotes, mostram que faltaram em algumas aulas. Não contentes em citar os autores de forma totalmente descontextualizada, mostram que a ignorância pode simplesmente não ter limites, trocam Engels por Hegel e se atrapalham na grafia do nome de Nietzsche, que, convenhamos, é complicada para doutores que estão habituados à leitura dos clássicos.

Pode-se, evidentemente, utilizar estes pensadores para analisar a atual crise política? Obviamente que sim, a filosofia, pau para toda obra, mostra que, afinal, pensar é grátis.

Sob a ótica de Karl Heinrich Marx, a crise pode ser explicada com o viés do materialismo histórico e da luta de classes. Eleito em 2002, Lula começa uma política de conciliação de classes, muito bem desenvolvida por sinal. Colocava de uma só vez o pobre dentro das universidades, o direito de três alimentações diárias, para quem não tinha quase nenhuma, e, ao mesmo tempo. proporcionava ganhos exorbitantes para rentistas, banqueiros e outros rapineiros.

O não enfrentamento sairia caro ao PT, a política de conciliação começava a dar sinais de suas limitações na crise econômica de 2008. Para manter o mínimo de acesso ao consumo para os descamisados, a presidente Dilma teria uma grade desafio: como garantir que os programas sociais não fossem abalados e, ao mesmo tempo, assegurar a parte que enche a já inchada pança dos vampiros de sempre?

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Nietzsche e Marx

A saída foi o corte de verbas e de investimentos, ajuste fiscal e outras medidas “impopulares”. O vermelho, cor histórica das lutas dos trabalhadores de todo o mundo, começa a tomar uma conotação rósea e fosca, daquilo que foi a grande esperança dos que viram no PT a saída de sua condição sub-humana.

Inconformado com mais uma derrota do voto popular em 2014, o PSDB resolve apelar para os sentimentos mais sombrios dos brasileiros saudosistas da época em que empregada doméstica não tinha o mínimo de direito trabalhista. Em sua conta no twitter, o ex-presidente do partido – José Aníbal – escreve: “Se tomar posse, não pode governar”. Como o terceiro turno não veio, restou a segunda alternativa.

Personificados na medonha face de Eduardo Cunha, os brasileiros vestem a camisa de um dos órgãos mais sujos do país, CBF, liderados por Lobão. O vexame é inevitável. Cunha disputa com a CBF o páreo da hipocrisia moral e deixa desconcertado até o mais ridículo dos cartazes que pedem a “intervenção constitucional” dos militares.

Guiada pela grande imprensa, Globo, Folha e Veja, uma parcela da população vai às ruas pedir impeachment. Até então, pouca novidade, uma vez que este setor da imprensa sempre teve uma relação promíscua com os militares de outrora que, a ferro e fogo, mantinham os ricos e os pobres em seu devido lugar.

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A carência de líder traz à baila o juiz Sergio Moro, paladino da moralidade nacional, nosso herói veste capa preta como Batman e usa martelo, como Thor. No frio curitibano, o juiz gosta do calor dos holofotes, afinal receber flores em restaurantes e aplausos em filas de supermercado é bem mais interessante do que a solidão do gabinete onde combate duramente a corrupção, mesmo que às vezes “sem querer” faça vista grossa para alguns. Convém deixar de lado nosso herói, antes que um mandato de prisão seja expedido por falar mal do judiciário, ou atentar contra a ordem pública, que é uma maneira mais pomposa de dizer isso. Mas, como a edição da Veja desta semana já está pronta não há o que se preocupar, uma vez que é lá que são publicados anteriormente os mandatos que serão expedidos.

A notícia de que Lula assumiria como ministro da Casa Civil faz com que o herói esqueça da máscara e revele grampos telefônicos, revele à Globo obviamente, que com um trabalho amador de edição tenta descontextualizar uma conversa entre Dilma e Lula.

Com esta lambança judiciária/midiática, a direita consegue um fato incomum na história do país, a unificação da esquerda, que novamente começa a ocupar as ruas, lugar onde, por sinal, foram conquistados os direitos de muitos que agora pedem o golpe. Em outras palavras, o embate que não foi feito em 1964 ou 2002 chega no ponto de culminância em 2016, só que desta vez a elite não está disposta a ceder, afinal de contas, onde já se viu trabalhador doméstico ter direito a INSS e pobre fazer faculdade?

Sob a ótica de Friedrich Wilhelm Nietzsche, não precisamos buscar muito. O pensador alemão nos diz “que os ídolos aprendam de uma vez por todas o quanto custa ter os pés de argila” quais seriam os pés de argila de Moro? Ou do PSDB?

Nenhum ídolo se sustenta em pé quando estes são de argila. O que estaria por detrás dos discursos contra a corrupção?  Na história recente do país, Carlos Lacerda dá a receita para seus seguidores de verde e amarelo, 1954, 1964 nos mostram que a luta contra a corrupção são meros discursos que buscam o golpe simplesmente, mas qual a intenção de um golpe? Seria meramente o jogo político? O desmanche de esquemas milionários como Furnas? Seria só não tolerar que pobres estudem ou trabalhadores tenham direitos? Ou algo maior está se passando por detrás dos belos discursos?

Talvez tudo isso junto e a questão do pré-sal formam a receita para a “crise” conduzida por uma mídia que mostra o problema e a solução para o país.

Os pensadores citados pelo MP de São Paulo podem nos ajudar a ver coisas que os relatores não queriam expressar, e, ao citá-los de maneira pouco astuciosa, mostram que seguir uma agenda é fácil, difícil é conseguir esconder o que se está por trás das cortinas, mas se esquecem que a plateia não olha só o palco.

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Rafael Pires de Mello

Rafael Pires de Mello é formado em filosofia pela UFPR, gosta de inutensílios como cinema,literatura,música e é claro o maior de todos, filosofia. Tem a tendência de chorar com música romântica quando bebe demais.

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