Bandeira Rubro-Negra, referência ao anarquismo.

Bandeira Rubro-Negra, referência ao anarquismo.

Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesias 

Sexta-feira. Era uma tarde ensolarada em São Paulo. Daquelas em que parece que o tempo parou, dia de calor, dia de preguiça. Um clima tenso se propagava entre as pessoas com quem converso. Estamos todos nervosos com o momento político atual. Negros, homossexuais, mulheres, comunistas, socialistas, anarquistas entre tantos outros trabalhadores comuns tem medo de sair hoje às ruas. Há notícias de que grupos de extrema direita e skinheads estão se organizando para agredir pessoas pelas ruas. Saímos em grupo para minimizar as chances de confusão. Tudo parece bastante caótico, e não compreendemos o porquê de as coisas terem chegado a este ponto. Tudo vem se desenrolando muito mais rápido do que a nossa capacidade de oferecer respostas aos acontecimentos.

Amigos, parentes, e alguns militantes com quem converso deixam transparecer medo em todas as suas falas. Outros planejam, a depender do desenrolar dos fatos, a fuga do país. Uns tantos, adotam estratégias para se esconder; a os que ainda se organizam para dar respostas aos fatos. Outros, ainda, não sabem o que fazer, e de fato não fazem nada. Não falo sobre um passado distante para muitos, próximo demais daqueles tempos autoritários das décadas de 1960 e 1970. Esta São Paulo que retrato é a de 18 de março de 2016.

Grupo grita palavras de ordem na estação Butantã do Metrô.

Grupo grita palavras de ordem na estação Butantã do Metrô.

Nos reunimos na FFLCH, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na Universidade de São Paulo, em um grupo relativamente grande de estudantes e militantes de diversas tendências ideológicas, desde as mais moderadas as mais radicais, para caminharmos juntos até o Metrô Butantã e rumarmos ao ato que foi convocado em nome da “Defesa da democracia”. Muitos de nós nos questionamos – Que democracia é essa? Um dia antes, a presidente da República Dilma Roussef sanciona o PL 728/2011, intitulado a lei “Anti Terrorismo”, que tem como relator o senador Aloysio Nunes do PSDB. Esta lei determina que “qualquer ato que provoque terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoas ou o patrimônio público ou privado, por motivações de xenofobia, discriminação ou qualquer tipo de preconceito, pode ser enquadrado como terrorismo. As penas para o crime variam de 12 a 30 anos de prisão. ” [Fonte: BBC em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151020_lei_terrorismo_ms_cc].

Estudantes secundaristas da E.E. Diadema.

Estudantes secundaristas da E.E. Diadema.

Tal lei, que teve sua votação acelerada após os protestos de 2013, é temida em especial pelos movimentos sociais pois, a depender da interpretação que se dê ao trecho citado, pode implicar em um mecanismo de criminalização de manifestações populares. Por isso e por ser o nosso um governo de conciliação de classes que possibilitou, apesar de alguns progressos, a intensificação do massacre indígena, a retração da reforma agrária, que priorizou processos de desenvolvimento em grande escala em detrimento da expropriação de comunidades inteiras, entre vários outros processos sociais – vamos a este ato com um nó na garganta, meio silenciosos, como quem faz algo a contragosto.

Estudantes reunidos no prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Estudantes reunidos no prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Conforme avançamos as estações de Metrô, outras pessoas se incorporam a nós, nos diluindo em meio à multidão que se formava. Gritávamos “Não vai ter Golpe! ”, “A Rede Globo apoiou a ditadura”, e muitas outras palavras de ordem, mas evitávamos aquelas que explicitamente defendiam o Governo Federal. Se estávamos ali é por que compreendemos que algo muito sinistro se aproximava, e não era conveniente pregar a neutralidade.

Militantes do Movimento dos Sem Terra durante o ato pela Democracia

Militantes do Movimento dos Sem Terra durante o ato pela Democracia

Chegamos à Avenida Paulista, que estava tomada de gente. O movimento negro, feminista, LGBT, os Sem Terra, os Sem Teto, professores, industriais, alunos de escolas públicas e particulares, malabaristas, torcidas organizadas, petistas, comunistas, socialistas, anarquistas, periféricos liberais… enfim, a diversidade humana ali era praticamente infinita. Nem todos defendiam o governo, conforme foi noticiado nos grandes meios de comunicação, mas todos eram contra o golpe de Estado que se aproxima. Entendemos que aqueles tempos de boca fechada que liamos nos livros de história se aproximam novamente. Por isso estávamos ali.

Dois tanques Israelenses monitoram o ato, em cima de cada um deles, um policial portando uma arma que parecia ser um fuzil. Era grande o número de policiais. Nem por isso nos intimidávamos. Festejávamos, protestávamos, cantávamos e dançávamos, como se aquela fosse a última vez em que pudéssemos fazer aquilo. O fim da liberdade de manifestação e a clandestinidade de muita gente nos parece, agora, muito próximo.

Roda de capoeira

Roda de capoeira

Por isso mesmo era importante nossa presença. Porque queremos transformar a nossa sociedade historicamente excludente, reacionária, racista, machista e classista, e que para alcançar nossas utopias não podemos admitir nem um recuo, nenhum passo atrás. Não temos tempo, de retroceder, pois temos carência de alimentação, de moradia, de mobilidade, de educação, de saúde, de cultura, de tempo, de vida e essas carências exigem pressa. Àqueles que não querem certo tipo de povo nas ruas, nem perto de si, aos que odeiam o pobre, o negro, o gay; odeiam e todo aquele que não se enquadra em seu padrão branco e heteronormativo não podem avançar nem um milímetro, à custa da pouca liberdade que ainda temos.

Faixa da torcida organizada Gaviões da Fiel.

Faixa da torcida organizada Gaviões da Fiel.

Nos despedimos da Paulista diante de incômodos e incertezas, projetando um futuro de utopias, em clima de festa. Festejamos por aqueles que lutam, por aqueles que lutaram e conquistaram, antes de nós, os direitos precários que ainda temos. Em tempos como estes, em que precisamos defender o mínimo, só nos resta uma alternativa: vamos às ruas!

A Marcha Fúnebre Prossegue.

A Marcha Fúnebre Prossegue.

Cartazes nas ruas.

Cartazes nas ruas.

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About The Author

Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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