the-caveEm sua obra Mínima Moralia, de 1951, Theodor Adorno discorre acerca dos reflexos da dominação e da opressão dos seres humanos pelas estruturas da sociedade em que vivem através da ideologia e que, segundo o filósofo, é propagada por bens culturais de consumo massivo. Desta forma, ideologias dominantes são internalizadas por seus receptores e permitem que tenham como verdadeiros e inquestionáveis os valores que recebem de maneira passiva e inconsciente sem sequer perceberem que estão fazendo parte de uma estrutura psicossocial ardilosamente criada para mantê-los em estado tal de submissão.

Há então de se questionar quais os interesses dos senhores detentores e propagadores da informação em produzir autômatos sociais assujeitados (sujeito nulo, incapaz de pensamento crítico e subjetivo). É certo que a dominação ideológica é muito mais eficaz que a dominação violenta, por exemplo. O domínio social por meio da força é eficaz a curto prazo, uma vez que a violência gera revolta e mártires entre os oprimidos. Já o domínio ideológico estabelece o controle ao colocar o oprimido como pseudo ser-social operante por meio de uma alienação gerada pelas meias-verdades ou não-verdades estrategicamente divulgadas e pela reprodução massiva de discursos que o oprimido pensa ter gerido por si mesmo.

O esvaziamento da subjetividade humana já havia sido questionado por Platão ao reproduzir uma conversa entre Sócrates e Glauco. A Alegoria da Caverna (ou o livro VII de A República) descreve as diferentes etapas da ascensão de um filósofo para a sabedoria suprema – a ciência do Bem (termo muito perigoso e mal usado nos dias atuais) – com o único propósito de torna-lo apto a governar a Cidade ideal.

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De maneira alegórica, Sócrates convida Glauco a figurar o seguinte quadro: um grupo de prisioneiros é acorrentado no interior de uma caverna desde a infância, estão presos pelas pernas e pescoço de maneira que fiquem imóveis e possam olhar tão-somente para a frente, neste caso, uma parede no fundo da caverna. Atrás deles arde um fogo a certa distância e que por eles não pode ser visto, entre o fogo e os prisioneiros há um pequeno muro e, por cima dele e com a ajuda do fogo, pessoas utilizam marionetes para projetar imagens na parede da caverna.

A imobilização dos indivíduos diante das projeções, e a reprodução constante de sombras faz os prisioneiros tomarem as imagens como reais, já eles não possuem recordação de nenhuma outra realidade além dessa. Um dia, um dos prisioneiros é libertado e conduzido a enxergar o artifício da farsa das projeções e logo depois, é conduzido ao exterior da caverna para que possa ver a realidade com seus próprios olhos. Seu primeiro instinto é o de retornar às sombras da caverna pelo fato de a luz do sol ferir seus olhos, mas aos poucos ele se habitua e a curiosidade que é natural de sua humanidade o instiga a explorar o mundo por si e dele tirar conclusões próprias.

O homem decide então voltar à caverna por lamentar a situação de seus companheiros, neste momento, Sócrates abre a possibilidade da descrença de seus companheiros uma vez que, ainda não habituado às trevas, é tomado por eles como cego. Concluem portanto, que a saída da caverna é perigosa e não valeria a pena e que matariam, se assim pudessem, qualquer um que lhes tentasse libertar.

Neste momento, é possível fazer uma analogia direta entre a tese de Adorno e a alegoria da caverna. Quando Adorno aponta a respeito da alienação ideológica do sujeito a partir de falsas ou meias-verdades, estamos falando de nada menos que as projeções no interior da caverna de Platão. Há um intuito de iludir os prisioneiros para que tomem as sombras por entidades reais, fazendo com que reproduzam e tomem para si uma realidade utópica e cômoda. É um processo de coisificação do sujeito enquanto persona plena.

cabecas-de-latrina1Há uma manipulação nefasta entre aqueles que aprisionam, aqueles que projetam as sombras e aqueles que definem quais sombras devem ser projetadas. A anulação da subjetividade gere seres incapazes de reflexão crítica e produz perigosos idiotas úteis dispostos a lutar contra si mesmos pela manutenção de poderes hegemônicos e de morrer e matar por isso. É essa ordem hierárquica que Adorno chama de ‘mundo administrado’, que é a vida colocada como mera mercadoria.

A anulação gradual do sujeito e sua substituição pela fabulação maliciosa da objetividade mantém uma imagem do sujeito pré-capitalista para ofuscar a descoberta de que a subjetividade não mais existe, deixando apenas um espaço vazio daquele que ainda é para si, mas não em si, permitindo distinguir o quão absurdo é o fundamento de uma sociedade que quantifica o valor humano não a partir do que ele é, mas a partir do que ele produz.

Já Sócrates critica também a impossibilidade de seus prisioneiros de discutir com propriedade com o prisioneiro liberto acerca das sombras uma vez que por elas são dominados:

Sócrates – Seria de se surpreender que, passando das contemplações divinas às miseráveis visões humanas, o homem se sinta pouco à vontade e pareça completamente ridículo quando, a visão ainda turva, não habituada à escuridão circundante, se veja forçado a discutir, nos tribunais ou alhures, a respeito das sombras de justiça ou das imagens que tais sombras projetam e a esforçar-se por combater com vigor as interpretações daqueles que jamais souberam o que é a própria justiça?
Glauco – Não é de se surpreender, absolutamente.” (PLATÃO, A República: Livro VII. 1981, p. 51)

Para Sócrates, o homem sensato reflete acerca da própria condição e lembrará que o ofuscamento de sua visão se deve à passagem da obscuridade para a luz e da luz para a obscuridade. Essa consciência do ‘eu’ é nula quando o sujeito se mostra incapaz de discernir o que é luz e o que é escuridão. Neste contexto, ao reproduzirmos discursos hegemônicos de massa nos tornamos embriões dentro de uma caverna cujos artífices não se mostram interessados em se revelar. Não somos um experimento ou uma alegoria, somos produtos do controle.

Fonte:
ADORNO, Theodor W. Minima Moralia. São Paulo: Ática, 1992.
______. Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
PLATÃO. A República. Tradução Politeia. Ed. Ática, São Paulo. 1981.

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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