Olimar em uma das muitas palestras que confere todos os anos - foto site pessoal

Olimar em uma das muitas palestras que profere todos os anos – foto: site pessoal

No centro de São Paulo o rapaz pede informação à moça que passa:

– Por favor, onde fica o Largo da Batata?

– Não sei moço – ela diz.

– E o metrô?

– Fica ali pra cima.

– Você poderia, por gentiliza, me dar seus óculos? Isso, agora me dá também seu celular.

E a moça segue, meio confusa, mas sem vacilar e sem saber porque deu seus óculos e seu celular a um estranho.

A cena inusitada compôs uma reportagem do programa CQC da Band. E, apesar da descrição, não se trata de um assalto ou um golpe, mas sim de um estado de consciência induzido, ou seja, a boa e velha hipnose.

São 17 h de uma sexta feira quente. No apartamento no Alto da XV, perto do Centro de Curitiba, um ventilador se esforça para refrescar a sala de estar. De bermuda e camisa polo, Olimar Tesser mexe o corpo devagar procurando a melhor posição ao se sentar no sofá. O cuidado é por causa de uma inflamação na coluna, responsável por deixar ele e a esposa 20 dias na capital paranaense como hóspedes no apartamento de um casal de amigos. As intensas dores vieram depois de um curso realizado em uma empresa. Foram tão fortes que foi necessário o uso de morfina durante os nove dias em que ficou hospitalizado. Agora, as expressões de dor ainda são evidentes, mas, aos poucos, sua saúde melhora e os dias do cateter introduzido no braço esquerdo, estão contados.

O paulista Olimar Tesser é considerado hoje o maior hipnologo do país. Realiza cursos e treinamentos em empresas nos quatro cantos do Brasil. Acredita no uso da hipnose para transformar a vida das pessoas e, afirma, que seu trabalho faz parte de uma grande missão.

Quando jovem, em meados da década de 1980 na capital paulista, escolheu o gol para jogar. A altura, inclusive, lhe facilitou a escolha. O Palmeiras foi o primeiro clube a perceber seu talento. Assim, aos 14 anos, começou sua trajetória no futebol. Se profissionalizou no Bota Fogo de Ribeirão Preto. Passou por diversos times da primeira de da segunda divisão. Jogou 12 anos como profissional e se aposentou em 1999.

Quando era arqueiro ainda não conhecia a hipnose, mas uma questão lhe incomodava. “A carreira de jogador é curta e quando eu me aposentar, como vou sustentar a mim e minha família? ”, indagava. O salário de jogador, ao contrário do que acontece agora, não era lá essas coisas e uma nova fonte de renda se fazia necessária. Assim Tesser começou a “limpar” o nome das pessoas que tinham restrições no SPC ou no Serasa. “Nos intervalos dos treinos eu trabalhava no meu escritório e assim consegui uma nova renda e me aposentei do futebol aos 31 anos”, conta.

A hipnose

Em 2004 Olimar participou de um treinamento no qual eram aplicadas técnicas de hipnose. Ficou impressionado. Demorou dois anos para achar um curso sobre o tema. Quando começou a cursar, já nos primeiros dias, chegou em casa e foi questionado pelos filhos sobre o que já tinha aprendido no treinamento. Resolveu mostrar, mesmo tendo visto apenas teoria, e acabou, meio que sem querer, hipnotizando sua sogra, fato que até hoje rende algumas anedotas. Isso aconteceu em um 1° de abril e no dia 27 do mesmo mês Tesser proferia seu primeiro show sobre hipnose para um auditório lotado. Em outubro do mesmo ano (2006) fez sua primeira participação em um programa de TV. A apresentação, que era para durar apenas alguns minutos, acabou se estendendo por todo o programa. “Depois que o programa terminou levei mais de uma hora para conseguir sair da emissora porque os funcionários me cercaram, e precisei hipnotizar mais um monte de gente”, lembra. Aquele momento foi um divisor de águas e Tesser tinha certeza de que a hipnose o acompanharia por toda a vida.

"É tudo uma questão de sugestão", diz Tesser- foto: site pessoal

“É tudo uma questão de sugestão”, diz Tesser- foto: site pessoal

O próximo passo foi se especializar. Hoje o currículo é extenso e Olimar é Hipnoterapeuta e palestrante, formado em Hipnose Clínica pela Associação de Exercício Clínico e Experimental da Hipnose e tem Pós em Neurociência e Hipnose Clínica. É também especializado na Prática de Técnicas Motivacionais e Vivenciais. Utiliza o Rapport como Meio de Comunicação e Desenvolvimento Humano. Atualmente trabalha com Treinamentos Motivacionais e Emocionais, Desenvolvimento de Pessoas e Suporte na área de Negócios, Esportes e Saúde e é certificado pela ABNPL (American Board Neuro Program Linguistic) como Master-Praticionner em Programação Neurolinguística e Trainner formado pela ABPNL (Associação Brasileira de Programação Neurolinguística).

Sugestionamentos a favor da vida

Tesser ministra palestras e cursos para diversas empresas pelo país. Diante de uma multidão vende uma moeda por R$ 18 mil, e as pessoas realmente querem comprá-la. As técnicas são aproveitadas por empresários de diversos ramos e, além deles, funcionários também se beneficiam. Olimar ressalta que a hipnose nada mais é do que a alteração das ondas cerebrais. A hipnose, segundo ele, é um estado natural de consciência, diferente do estado de vigília, semelhante ao sono, é um estado temporário de atenção modificada, é simplesmente um método de comunicação que induz um transe ou um estado semelhante a um transe. Na verdade, não é nada que alguém nunca tenha experimentado. Todos nós entramos e saímos de um transe muitas vezes por dia sem nos darmos conta disso. Quando uma pessoa está totalmente relaxada começa o transe hipnótico, que desencadeia importantes reações cerebrais. “Quando excitamos nossa mente, por meio do esporte, do sexo e do uso do álcool, por exemplo, entramos em um estado de euforia semelhante a hipnose. Também podemos conseguir esse efeito com a meditação, uma prece, entre outros. Portanto, quem criou o ser humano, e cada qual acredita no criador que quiser, nos deu esse dispositivo para uma espécie de autoajuda. Assim, a indução, feita por meio de sugestionamento que é o processo de hipnose, altera nossas reações cerebrais e elas são refletidas no nosso comportamento”, explica enquanto ressalta para o repórter que os dois, jornalista e entrevistado, estão sentados na mesma posição, cujas pernas e braços estão cruzados para o mesmo lado. “A identificação que temos por pessoas, lugares e objetos, faz parte da hipnose”, completa.

A mão tapa os olhos, algumas palavras são ditas ao pé do ouvido e em questão de instantes alguém está hipnotizado. Um perde a fala, outro se torna gago e um terceiro fica atônito ao ver que todos ao seu redor estão nus. As sugestões, feitas por Tesser durante a hipnose são impressionantes. Mas, nem todo sugestionamento carece de contato físico entre hipnotizador e hipnotizado. Enquanto entrevisto Olimar me sinto meio confuso. A queda de temperatura de minha mão esquerda dá sinal de que há algo diferente. Demoro, mas percebo que seguro uma garrafa de água passada a mim por Tesser sem que eu me desse conta. Tinha sido hipnotizado, sem a necessidade de um toque do hipnotizador, técnica que ele define como “quebra de padrão”.

Missão

A rotina como hipnotizador trouxe maturidade a Tesser. Não se percebe nele a necessidade de participar de espetáculos televisivos. Suas intenções com a hipnose hoje são outras. “A facilidade de sugestionar as pessoas foi o dom que me foi dado. Por meio dela tento ajudar muita gente a melhorar sua vida. Tudo que existe de mais contemporâneo em todo o mundo para performance humana foi condensado em etapas e criou um modelo surpreendente de superação e desenvolvimento. A hipnose é uma dessas etapas. Assim, por meio dela, quero contribuir para que as pessoas desenvolvam o que tem de melhor, superem traumas do passado, quebrem crenças de que elas não podem ser melhores, não podem ser amadas, não podem ser felizes. Isso é uma missão que me foi dada e me sinto muito satisfeito em cumpri-la”, fala visivelmente emocionado. Sobre os treinamentos que realiza Olimar ressalta que “ a cada sessão, um objetivo é definido e o objetivo da sessão anterior é reavaliado, permitindo que seja possível acompanhar a evolução de cada item progressivamente. A cada encontro, o cliente também aprende técnicas hipnóticas para ganhar controle da própria vida e desenvolve naturalmente um novo senso de liberdade e de bem-estar”, diz.

Ao ser sugestionado o cérebro se condiciona e isso se reflete fisicamente- foto: site pessoal

Ao ser sugestionado o cérebro se condiciona e isso se reflete fisicamente- foto: site pessoal

 Ao trabalhar com pessoas, não foram apenas suas técnicas que se aperfeiçoaram. “Aprendi muito em todos esses anos trabalhando com pessoas. Me lembro de milhares que ajudei ao longo dos anos. Nada é a toa e não foi a toa que cheguei em Curitiba. E o que aconteceu comigo, esse meu problema de coluna, foi um aviso que a vida me deu de que preciso diminuir um pouco meu ritmo e cuidar um pouco mais da minha saúde”, diz.

Identificado com Curitiba, Tesser e a esposa, uma engenheira agrônoma de Goiás que ele “encantou” em um de seus cursos, pensam em se mudar para a capital paranaense. “Tenho muitos ex alunos que se tornaram meus amigos e vivem aqui. Gosto dessa cidade e quem sabe a gente se mude pra cá”, destaca.

Assim, se recuperando de um problema de coluna e prestes a se mudar para Curitiba ele desmistifica as lendas a cerca da hipnose e ressalta que o cérebro é responsável por tudo. “É tudo sugestionamento, cada um de nós pode transpor barreiras inacreditáveis, é só questão de saber como e onde sugestionar”, completa.

Olimar Tesser no CQC 

Site: http://www.tesser.com.br/

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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