Glória Maria e suas babás brancas, os patrões e sua babá negra

Glória Maria e suas babás brancas, os patrões e sua babá negra

Opinião 

Depois dos protestos desse domingo (13) uma foto mais do que significativa circula hoje pelas redes sociais. Ela mostra um casal de verde e amarelo sendo seguido por uma baba negra que usa uniforme branco e empurra um carrinho de bebe. A imagem, que pode não representar toda a manifestação, mas que tem um recorte simbólico importante, foi analisada tanto pelos que concordam com as manifestações pró-impeachment, quanto pelos que não concordam. E, como era de se esperar, as ideologias (direita x esquerda) falaram mais alto. Há os que vem a fotografia como uma representação clara da desigualdade social no país, e os que a vem apenas como um retrato de uma trabalhadora desempenhando algo pelo qual é paga para fazer.

Entre as muitas análises publicadas hoje uma me chamou a atenção:

Um blog publicou uma foto da jornalista Glória Maria cercada por duas babás brancas. E o título do post era uma pergunta: E quando a patroa é negra e as babás são brancas, há algo de errado?

É claro que não há nada de errado. Mas, algo relevante que o autor do post talvez não tenha percebido é que a questão aqui não é a cor das patroas, mas sim porque a cor das empregadas é, na maioria das vezes, a mesma?

Levantamentos de Institutos e Ongs tem mostrado que a maioria das empregadas domésticas no país são negras. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, mais da metade delas é negra, segundo um estudo da Fundação Seade que traçou o perfil das trabalhadoras domésticas. Em 2014, 52,6% das empregadas domésticas eram negras, porcentagem maior do que qualquer outro tipo de trabalho.

Já o a pesquisa “O Emprego doméstico no Brasil” (Dieese/2013), considerando o período de 2004 a 2011, mostrou a tendência de elevação do percentual de trabalhadoras domésticas negras em todas as regiões do país, no Norte, em 2011, 79,3% das domésticas eram negras.

Outro dado revelado pelo Dieese é que, em todas as regiões e circunstâncias, a mulher negra tem uma remuneração inferior a da mulher não negra. Enquanto uma diarista negra recebe R$ 5,34 pela hora trabalhada, a não negra ganha R$ 6,94. Em relação à idade, a suscetibilidade também é maior.

Ora, se a maioria das empregadas domésticas no Brasil é negra, onde entra nesses números a fábula da meritocracia, pregada por muitos que marcharam nas ruas ontem?

Por que um blog fecha os olhos para dados oficiais sobre o trabalho das domésticas no Brasil e prefere usar uma exceção, como é a Glória Maria, como exemplo? Fica ao leitor a reflexão se o caso é somente sobre questões de cor de pele, ou sobre o imenso abismo social que ainda existe entre negros e brancos no Brasil.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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