Nas pontas dos pés alguns tentam manter contato visual. Ao lado dezenas se aglomeram e os flashes vindos dos celulares disparam ininterruptamente. Um voluntário de colete amarelo pede cuidado, pois a divisória branca que separa a multidão da mesa de autógrafos pende, ameaça cair e só volta ao lugar com a intervenção do jovem. A procura pela dedicatória na sobre capa do livro dura quase uma hora, e é feita no intervalo entre as conferências. Depois dela, admiradores que se aglomeravam na busca por um cumprimento, um aceno, uma selfie, acompanham os passos do pregador em direção ao púlpito onde será proferida mais uma palestra.

E ele caminha sem pressa. Um sorriso, um toque em uma mão que se estende, um olhar curioso sobre a plateia de mais de oito mil pessoas. A rotina lhe é comum, afinal foram milhares de palestras ministradas ao longo da vida. O terno preto intocável, a camisa branca e a gravata quadriculada compõem com simetria o semblante calmo. O cabelo penteado para trás leva tinta castanho escuro e, aliado às poucas rugas no rosto, tornam a tarefa de lhe descobrir a idade um desafio. No entanto, logo a quantidade de anos vividos é revelada.

– Como pode alguém com 88 anos ser forte desse jeito? Indaga a senhora sentada na primeira fila em frente ao palco.

O baiano, com quase nove décadas de vida, senta-se e comtempla a multidão. Aguarda sua vez de falar, passa as mãos pelo rosto de quando em quando. “O Mio Babbino Caro”, composição de Giacomo Puccini, é interpretada por uma jovem na abertura do evento. A ópera tem efeito visível. Um largo sorriso, depois os olhos cerrados como se a canção fosse a trilha sonora de uma profunda prece. Mais algumas apresentações e avisos e quem está ao microfone anuncia:

– Com vocês: Divaldo Pereira Franco!

A ovação é imediata. Divaldo, baiano de Feira de Santana, é hoje o maior representante do espiritismo no Brasil. Para alguns o maior médium do mundo. Para outros, sucessor de Chico Xavier. Escritor, orador, trabalhador social, ele esteve no último final de semana na XVIII Conferência Estadual Espírita realizada nos dias 04, 05 e 06 no Expotrade, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Deu autógrafos, posou para centenas de fotos e palestrou nos três dias do evento.

Divaldo já proferiu mais de 13 mil palestras

Divaldo já proferiu mais de 13 mil palestras

Sua primeira fala aconteceu na sexta feira (04) à noite. Íntimo do microfone, habilidade que é reflexo das milhares de palestras que proferiu em 68 anos de espiritismo, mil delas somente fora do Brasil, ele se posiciona, queixo alto, mão direita levantada à altura do peito, olhos semi abertos. Não há discurso pronto, nem folha de papel com um roteiro. Durante mais de uma hora as palavras saem naturalmente, milhares delas, uma após a outra como se respirar fosse algo secundário. A lucidez e a memória por meio da qual cita datas, livros e autores é, no mínimo, incomum para alguém que tem quase 90 anos. Cada verbalização é declamada. Há uma entonação característica no final de cada frase e o discurso do médium parece a declamação de um longo poema. “A existência de Deus” foi o mote na primeira noite da Conferência. Na fala Divaldo faz uma viagem cronológica que parte da Revolução Francesa e retrata a visão que físicos, químicos, matemáticos, filósofos e escritores tinham sobre a existência divina. Fala sobre probabilidades matemáticas, astronomia e biologia. “Creio em Deus por diversas razões e uma dela é o cosmos, que sempre esteve em perfeita harmonia. A rotação da terra em torno do seu eixo, gira tempo suficiente para vida, nem uma hora a mais, nem uma hora a menos. Isso não é por acaso. Se por acaso nossa atmosfera, que mede 60 quilômetros fosse menor, a vida seria impossível no nosso planeta porque diariamente, caem sobre a terra, meteoros e meteoritos aos milhões e estes se fragmentam na atmosfera. Se por acaso, o fundo do mar fosse três metros mais profundo a vida na terra seria impossível porque todo o oxigênio seria absorvido pelas águas e não poderíamos respirar. Se por acaso a lua estivesse mais próxima de nós cerca de 10 mil km a vida seria impossível, porque as marés seriam tão altas que diariamente lavariam as mais elevadas montanhas provocando severas erosões, e se fosse 10 mil km mais distante o seu efeito sobre as águas seria praticamente nula”, enfatiza diante de uma plateia em absoluto silêncio.

Da Bahia de todos os santos para o mundo

Em 5 de maio de 1927, na cidade de Feira de Santana na Bahia, Dona Ana Franco deu a luz a um menino, o caçula de uma família de 13 filhos. Encarnava ali, como dizem os espiritas, Divaldo Pereira Franco, filho de um açougueiro e uma dona de casa.

O dom mediúnico se manifestou ainda na infância, quando corria ao lado de um indiozinho que somente ele enxergava. Quando adolescente começou a frequentar um centro espírita e em 1947 fundou a casa espirita Caminho da Redenção. Sua maior obra, porém, viria em 1952 quando fundou a Mansão do Caminho ao lado de Nilson de Souza Pereira.

O complexo, que tem 78.000 m2 e cinquenta e duas edificações, hoje atende três mil crianças e jovens de famílias de baixa renda, em Pau da Lima, um dos bairros periféricos mais carentes de Salvador. Mais de 30 mil meninos e meninas passaram pelo projeto, e os mais próximos a Divaldo ressaltam que mais de 160 mil pessoas foram tiradas da miséria por meio do trabalho da Mansão ao longo dos últimos 64 anos. Na “pequena cidade” são oferecidas uma série de atividades sociais e educacionais como: Pré-Natal, Creche, escolas de ensino fundamental e médio, Informática, Cerâmica, Panificação, Bordado, Reciclagem de Papel, Centro Médico, Laboratório de Análises Clínicas, Atendimento Fraterno, Casa da Cordialidade e Bibliotecas.

A Mansão do Caminho atendeu mais de 30 mil crianças ao longo de seis décadas

A Mansão do Caminho atendeu mais de 30 mil crianças ao longo de seis décadas

Certa feita, um senhor que havia conhecido Divaldo há pouco tempo, compadecido pelo fato de ele não ter se casado, lhe interpelou:

– Nossa, o senhor nunca casou, mas isso é muito triste, nunca terá um neto sequer.

Ao que o médium responde para a surpresa do homem:

– Ah, o senhor fique tranquilo, pois tenho mais de cem netos e mais de cem bisnetos.

– Mas como? – Questionou o homem.

– Ah meu amigo, a vida me deu muitos filhos – Respondeu Divaldo.

Mais de 600 no “papel passado”. As seis centenas de filhos adotivos lhe deram centenas de netos e bisnetos. Mesmo aqueles que não foram adotados legalmente o consideram um pai.

Arrumando os livros da Mansão do Caminho à venda na Expotrade, com a camisa azul que caracteriza a equipe do projeto baiano, Telma titubeia um pouco para falar sobre Divaldo. Afinal, não se trata apenas do maior médium em atividade hoje, para ela é muito mais do que isso. “Um ser de luz, um amigo fiel, um sujeito generoso e, acima de tudo, um pai”. As palavras em tom de gratidão vêm de alguém que começou a frequentar a instituição criada na periferia de Salvador aos sete anos de idade. Telma Sarraf hoje é vice-presidente da instituição. Quando criança, a família passava por dificuldades e a mãe procurou a Mansão. A identificação com o lugar e, principalmente com Divaldo, foi tamanha que Telma começou a se dedicar integralmente ao projeto aos 15 anos e nunca mais parou. Hoje coordena muitas das atividades da Mansão e é um dos “braços direitos” do médium com quem mantem uma relação de filha. “O Divaldo é alguém muito discreto, calmo e bem-humorado. Extremamente coerente porque vive o que prega e isso serve de exemplo para todos nós”, diz.

No sábado (05) a as filas para conseguir um autógrafo eram enormes

No sábado (05) a as filas para conseguir um autógrafo eram enormes

Divaldo, requisitado orador, viaja, segundo Telma, mais de 200 dias do ano. O médium já realizou mais de treze mil conferências, em mais de duas mil cidades em todo o Brasil e em sessenta e cinco países dos cinco continentes. A rotina de viagens é quebrada de quando em quando e ele passa enfim alguns dias em casa. No entanto, o ritmo de trabalho é sempre intenso. “O Divaldo acorda cedo e costuma dormir bem tarde, principalmente quando há sessões onde ele psicografa. Mas, mesmo assim está sempre de bom humor, pronto a atender quem o procurar”, revela Telma.

A renda que mantém a Mansão do Caminho vem dos livros publicados pelo autor. Foram duzentos e cinquenta e cinco, que venderam mais de 10 milhões de exemplares. As psicografias foram ditadas por muitos espíritos, entre eles Joanna de Ângelis, mentora espiritual do médium. Dessas obras, versões foram publicadas em dezessete idiomas (alemão, albanês, catalão, dinamarquês, espanhol, esperanto, francês, holandês, húngaro, inglês, italiano, norueguês, polonês, tcheco, turco, russo, sueco e sistema Braille). Divaldo não fica com nada da renda, vive, segundo os mais próximos a ele, de sua aposentadoria como funcionário público.

O mestre e seus seguidores

Em um dos stands montados durante a Conferência Espírita algumas senhoras vendem livros. Outra, pertencente ao mesmo grupo, ajuda a organizar a fila dos autógrafos. O trabalho dos voluntários aliás, é intenso. Esse grupo, entretanto, é peculiar. No início da década de 1980 uma fita cassete chegou, ao acaso, às mãos de Dona Nivalda. Nos carretéis de fita magnética estava gravada uma palestra de Divaldo. “Havia uma linda palestra é uma bela prece ao final. Depois de assistir decidi que precisava conhecer aquele orador”, mas o grande encontro com Divaldo só veio em 1985. “Pessoalmente conheci o Divaldo quando ele proferiu uma palestra na minha cidade, em Santa Cruz do Sul. Foi fantástico, a cidade teve uma empatia enorme com ele”, conta Nivalda Steffen, criadora do grupo cujo o nome foi inspirado em um dos apelidos de Divaldo, os “Semeadores de Estrelas” que assessoram o médium nos eventos que ele realiza no sul do país. “Nós ajudamos na venda de livros, na organização das filas e no que mais precisar”. A equipe, que hoje conta com oito pessoas, trabalha de maneira voluntária, custeia os próprios gastos e, seus membros, abriram mão de muitas coisas para acompanhar o mestre. “Eu abri mão de ascensão social por meio do meu trabalho, sou professora de música, abri mão de vida social, enfim, boa parte do meu tempo dedico ao trabalho do Divaldo”, afirma a senhora que viajou dois dias de carro para vir de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, até Pinhais para ajudar na Conferência Estadual Espírita.

Para seus seguidores, a cordialidade é um dos traços mais marcantes do médium

Para seus seguidores, a cordialidade é um dos traços mais marcantes do médium

Para os que questionam os esforços realizados pelo grupo não faltam argumentos para justificar os sacrifícios. “O Divaldo exala amor fraterno. Ele chegou a um nível de maturidade impressionante. Passou por diversas dificuldades, mas nunca demonstrou mágoas ou criou animosidades”, conta enquanto faz uma pausa, respira, passa o lenço por baixo dos óculos e seca os olhos lacrimejados que lhe atrapalham a visão, e completa, “hoje me sinto realizada”.

Os cabelos e o cavanhaque branco contrastam com os óculos de armação preta. Um terno azul bem alinhado, crachá no peito e na mão direita uma maleta de couro. Mais de 75 anos de espiritismo e José Virgílio Góes continua ativo na pregação da doutrina e em seu trabalho como assessor na Federação Espírita do Paraná. Conheceu Divaldo há meio século e, assim como todos na Conferência, não economiza elogios ao se referir ao sujeito que considera um mestre. “Este camarada não vive neste mundo. Tem uma memória fabulosa, corre o planeta. Ele é um líder, tem um conhecimento profundo e é hoje o maior médium do mundo. Ele goza do direito de ser influenciado e conduzido por espíritos das altas esferas. Ele é realmente um mestre”, enfatiza.

Assim, angariando seguidores e discípulos, seja por meio de suas obras sociais, de sua vasta bibliografia ou de sua intensa oratória, Divaldo Pereira Franco se consolidou como um dos maiores líderes espirituais do Brasil e o espiritismo como a religião que mais cresce no mundo. Neste ano, em particular, o médium decidiu não dar entrevistas, mas o relato de seus seguidores aliados a seu feitos retratam a singularidade de um dos sujeitos mais notáveis da religião no país.

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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