Barbeta, que pinta desde criança, se orgulha de ser auto didata

Barbeta, que pinta desde criança, se orgulha de ser auto didata

Curitiba é uma cidade com 19 parques, 13 bosques, 406 praças e 204 esculturas distribuídas entre elas. Mas só uma tem a forma da cabeça de um equino que jorra água pela boca. Esculpida em granito e bronze ela tem um olhar de fúria e dentes à mostra.  Os populares que passam pela fonte onde a escultura está localizada, na Praça Garibaldi, já a apelidaram de ‘’cavalo babão’’.

Poucos sabem, mas aquela cabeça de cavalo no meio da fonte da memória, que já foi companheira de bêbados e segurou vela para casais de namorados, foi pensada por seu autor, Ricardo Tod, como uma homenagem aos tropeiros que, durante o século XIX, vinham até a cidade comercializar as mercadorias que carregavam no lombo de suas mulas ou na traseira de suas carroças.

O ‘’babão’’ (como também é conhecida a obra de arte) tem como vizinha, do lado direito, a Igreja do Rosário. Antes da abolição da escravatura essa Igreja era um espaço segregado aos escravos, sendo conhecida como a Igreja da Nossa Senhora dos pretos de São Benedito. Quando a Igreja do Rosário foi levantada (pelas mãos dos próprios escravos que a frequentariam depois de pronta) os brancos de Curitiba louvavam o mesmo Deus que os negros convertidos ao catolicismo, porém, não no mesmo templo. O espaço de oração dos brancos era a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas, ou simplesmente Igreja da Ordem. Poucos são os metros que separam a “Igreja dos brancos’’ da ‘’Igreja dos escravos’’.Entre uma e outra dá para ir a pé.

Outro vizinho (o do lado esquerdo da fonte) é o Palacete Wolf, um belíssimo casarão amarelo que foi erguido por ordem de Fredolin Wolf (membro da primeira família de imigrantes austríacos a residirem em Curitiba). A casa sempre pertenceu a família Wolf, mas nunca nenhum Wolf morou ali.

Desde a sua construção em 1880, o palacete já foi colégio, livraria, quartel da revolução federalista, sede da Câmara e sede da Prefeitura Municipal de Curitiba. Hoje o espaço abriga uma biblioteca pública e um teatro (o teatro do piá).

Poucas pessoas conhecem essa história, mas em 1914, instalou-se na parte superior do Palacete Wolf uma Loja Maçônica e na parte térrea, o atelier de pintura da professora Gina Bianchi. Entre os alunos de Gina estava Theodoro de Bona, um dos pintores mais importantes da história paranaense . Curitiba é uma cidade de artistas. Todo domingo, atrás da fonte redonda do “cavalo babão’’, em torno do canteiro de 8m de diâmetro conhecido como “Relógio das flores’’ (que tem esse nome pelo fato de mudar a sua floração a cada trimestre, conforme a estação do ano) e rodeados por construções históricas como o Palacete Wolf e a Igreja do Rosário, pintores, desenhistas e caricaturistas se reúnem para tentar vender suas obras para um dos 15 mil transeuntes que passam pela famosa ‘’Feirinha do Largo da Ordem’’ no domingo, pelo preço médio de 50 reais.

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Só um é Salvador Barbeta, que reúne os talentos de desenhista, caricaturista e pintor de paisagens urbanas.  O Sr. Barbeta contraria a lenda (difundida em grande parte pelo próprio povo de Curitiba) de que o Curitibano é frio e distante. Basta ter coragem de pedir informação a qualquer um dos vários comerciantes da “feirinha hippie’’ para encontrá-lo rindo na companhia de seus companheiros, comendo um pastel com caldo de cana ou, claro, fazendo a sua arte ao ar livre pelos paralelepípedos e pelo Petit Pavet do Largo da Ordem. Mas só nos domingos, já que nos dias de semana o artista prefere o calçadão da Boca Maldita.

Nascido em 1951, Barbeta é um legitimo autodidata e se orgulha disso. Aficionado pela arte de desenhar, desde criança sempre rabiscou onde quer que haja papel e inspiração. Vai ver é por isso, e em busca da tão almejada estabilidade financeira que, na primeira oportunidade, ingressou no curso de desenho industrial no CEFET (atual UTFPR), se formando na turma de 1979, mesmo sendo completamente avesso a matemática.

Ao termino do curso ele começou a trabalhar para a grande indústria projetando peças e ferramentas para maquinas, o que segundo o próprio não o fazia um ser humano feliz: “Ali eu tive patrões japoneses muito rígidos, a cobrança era algo insuportável”, afirmou sobre sua vida como desenhista da indústria.  Barbeta resolve então fazer o que muitos gostariam de fazer, mas não se arriscam por medo, quebrar as correntes, içar velas e resolver recomeçar em um novo curso. Dessa vez na Escola de Belas Artes do Paraná, onde aprende a pintura a óleo, a aquarela e aperfeiçoa suas técnicas de caricatura. Uma empreitada arriscada, mas vista como necessária para o artista que se sentia insatisfeito em seu antigo trabalho.

Foi inspirado pelo professor Antônio Sanches da Escola de Belas Artes que o pintor tomou coragem para expor seus primeiros trabalhos na rua. Agora, já na vida de artista de rua, ele explica a própria realização: “Aqui, exponho meus quadros e faço caricaturas. Aqui posso me divertir enquanto divirto outras pessoas” contou Salvador Barbeta, ao mesmo tempo em que segurava uma prancheta onde rabiscava uma de suas caricaturas.

O desenho retratava Roberto, um homem aparentando seus 70 anos, de cabelos e barba branca que o acompanhava em uma cadeira de praia e vigiava as suas várias telas que ficam expostas sem moldura como um chamariz aos compradores da feirinha, em troca de salgados ou refrigerantes. Roberto olhava as telas enquanto Salvador estava ocupado conversando com os colegas de feira ou distraído assobiando músicas dos Beatles, sua banda favorita. Só durante a entrevista que gerou essa matéria Salvador Barbeta assobiou Black Bird 4 vezes.

De acordo com Barbeta, Roberto é um morador de rua que apareceu ali do nada e que ele resolveu ajudar, “ele deve ter fugido da FAS e madrugou dormindo aí’’. Já na versão de Roberto, Barbeta é seu amigo de muitos anos. Em um diálogo entre os dois não dá para saber quem está falando a verdade e quem está só brincando, mas de acordo com o pintor de humor caustico, Roberto “é um mentiroso! ’’Na pintura Barbeta se inspirou nos impressionistas, em especial o francês Claude Monet. Assim como Monet, Barbeta gosta de pintar paisagens, especialmente as paisagens urbanas do centro da capital paranaense para onde vai quase todos os dias pintar cenários e situações que lhe sensibilizem.

Roberto toma conta das telas do amigo em troca de um salgado e um refrigerante

Roberto toma conta das telas do amigo em troca de um salgado e um refrigerante

Curitiba é uma cidade de personagens. Pelo Largo da Ordem, por exemplo, você pode esbarrar com peruas, patricinhas, punks, vileiros, Hare Krishnas, andarilhos ou testemunhas de Jeová. Mas não é recomendável esbarrar com o Sr. Barbeta enquanto ele estiver desenhando. Uma vez com o lápis ou com o pincel na mão o artista preza pelo silêncio e pela concentração absoluta.

No entanto, seu trabalho desperta curiosidade, não é difícil ver alguém parando para olhar ou pedindo um desenho. Barbeta não faz muitas caricaturas, nem chega a vender telas em grande número, mas dificilmente sai de mãos abanando do Largo da Ordem.  Chegou até mesmo a realizar exposições fechadas em Curitiba segundo o próprio, ainda hoje ele é convidado para organizar mais exposições, mas prefere não as fazer pelas dificuldades que elas implicam.

Sobre as dificuldades que enfrenta em viver de sua arte Salvador afirma “Tem que ser versátil, no início é mais difícil. Mas a pintura até que é bem valorizada em vista da música, da literatura então… quem quer sobreviver disso certamente morrerá de fome”. Palavra de quem trabalha nas ruas há mais de três décadas. Foi a necessidade que fez dele não só um aquarelista, mas também um pintor de pinturas a óleo e um caricaturista de mão cheia.

Todos os domingos, em média, 15 mil pessoas percorrem o Largo. Durante o dia das 9 às 12 horas uma pequena  multidão passa pelo local de trabalho de Barbeta, apenas cinco pessoas, sendo quatro delas mulheres, o pararam para perguntar sobre suas caricaturas, nenhuma sobre suas telas e apenas uma pediu para desenhá-la, uma mulher com seus 40 e poucos anos.

Perguntado se é possível um retorno ao ofício de desenhista industrial Barbeta esboça um sorriso e diz: “Essa possibilidade não existe”.

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  • Reportagem produzida com base em entrevista feita em 2014.

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Rhangel é estudante de jornalismo. Apaixonado por Jornalismo Literário, vê neste estilo a oportunidade para fugir da escrita convencional onde “tudo” precisa estar no primeiro parágrafo.

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