Com um auditório lotado Jessé Souza explanou sobre a concepção do complexo de vira-latas

Com um auditório lotado Jessé Souza explanou sobre a concepção do complexo de vira-latas

“Temos uma concepção de sociedade que foi moldada por grandes intelectuais ao longo dos anos. Tal concepção é reproduzida pelas escolas, universidades, influência a imprensa no seu trabalho diário e o judiciário em suas importantes decisões. E essa concepção é extremamente conservadora, elitista e serve para legitimar os interesses privados”.

A concepção que forma o pensamento da sociedade, as implicações que ela tem, a demonização do estado e o nascimento do “complexo de vira-latas” foram, entre outros, temas abordados na aula inaugural do curso de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ministrada pelo professor Jessé Souza na última segunda feira (29/02). Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Jessé de Souza é formado em direito e mestre em sociologia pela Universidade de Brasília, com doutorado, livre docência e pós-doutorado em importantes universidades da Alemanha e Estados Unidos, dentre elas a New School for Social, de Nova York.

“A Tolice da Inteligência Brasileira: Desafios para a universidade atual” foi o mote da palestra, que leva o mesmo nome do livro (A Tolice da Inteligência Brasileira) lançado recentemente por Jessé Souza.

A desconstrução dos mitos

Souza desconstruiu as teses de grandes intérpretes brasileiros como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. O autor aponta que as ideias destes intelectuais sustentam, com verniz científico, as noções de que, no Brasil, o Estado é corrupto, e o mercado, virtuoso. No mundo político, argumenta Souza, esses princípios têm servido de arma dos mais ricos e dos liberais contra os governos Getúlio Vargas, João Goulart, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, voltados, em sua opinião, à redistribuição da riqueza. “O mito dos norte-americanos assemelhasse ao bíblico, aquele de Moisés, onde existe um povo escolhido que merece prosperar. Isso teve uma consequência extremamente importante nas questões de patriotismo e auto estima responsáveis pela consolidação do país. Ou seja, o mito americano é o do que se merece porque se é melhor, porque se é o dono da razão. Aqui, Gilberto Freire, por exemplo, criou o mito de que somos ambiguamente o corpo, o sexo, a emoção. Então, enquanto os americanos são a razão, nós, segundo o mito de Freire, somos a emoção, portanto inferiorizados. Na hierarquia ocidental, pautada pela igreja católica, o espírito, que é superior, deve controlar o corpo, que é inferior”, destacou o professor.

Para Jessé, na hierarquia das nações, a América no Norte e a Europa, segundo o mito de Freira, seriam o espírito e o chamado “terceiro mundo” o corpo. Assim como os pobres seriam a emoção que precisa ser controlada pelos ricos que são a razão. Souza destaca também que nossos principais teóricos idealizam os Estados Unidos como terra ideal. “Desde o século XIX esses intelectuais idealizam os Estados Unidos como a terra prometida, aquela superior, sem corrupção, sem defeitos”, completou.

A demonização do estado

Em sua palestra, o professor Jessé Souza ressaltou o mito criado por Sérgio Buarque de Holanda, aquele do “Homem Cordial”. “É aquele cara que toma decisões baseado em afetos, que vai dar tudo pros amigos e a lei dura pros inimigos. Esse amalgama do Homem Cordial é concentrado na figura do estado. O público se torna o demônio, onde estão concentradas todas as mazelas do mundo. Segundo esse mito, o contraponto é o mercado onde se reuniriam todas as virtudes. O que essa tese não diz é que não se pode separar mercado de estado. Porque o estado criar uma infraestrutura para o mercado e lucra com ele. A grande questão aqui é a apropriação privada do estado. Por exemplo, matou-se milhares de pessoas no Iraque por causa do interesse de grande petroleiras. O estado é apropriado por uma pequena minoria detentora da maioria do capital. Então, quando você demoniza o estado, você coloca as grandes empresas como salvadoras da pátria”, disse.

Jessé destacou também que a corrupção, que é algo extremamente amplo, fica definida conjunturalmente, ou seja, limitada a esfera do mercado, principalmente em governos ligados a classes populares. “Getúlio Vargas, Jango, Lula e Dilma. A nossa elite, propagadora desses mitos quer se apropriar do estado e, o melhor caminho para isso, é demoniza-lo. E o interessante é que mesmo a esquerda adora esses autores que têm, no cerne de sua literatura, uma veia extremamente conservadora”. E completou, “o mercado, comandado por uma pequena elite, tem interesse em desmoralizar o papel e os serviços prestados pelo estado, por isso reproduz, principalmente por meio da imprensa, a ideia de que a corrupção se limita apenas ao meio público e que ele, o mercado, pode oferecer tudo o que o estado oferece (saúde, educação, segurança) de maneira privada e com melhor qualidade”.

Seu livro "A Tolice da Inteligência Brasileira"

Seu livro “A Tolice da Inteligência Brasileira”

Para o professor, refutando o que muitos ainda insistem em colocar, é preciso frisar que características negativas como patrimonialismo ou desonestidade não são intrínsecas ao DNA tupiniquim, mas fatores inerentes ao capitalismo, sistema econômico que coloca a busca por lucro e ascensão social acima de quaisquer valores humanos. “Eu gostaria antes de tudo de saber onde fica esse país maravilhoso, formado apenas pelo mérito, que não favorece ninguém e onde relações familiares não decidem carreiras. Quem conhecer, por favor, me avise. Eu passei boa parte de minha vida adulta em países ditos ‘avançados’ e nunca conheci um assim”, provocou.

Complexo de vira-latas

Boa parte do discurso de Jessé Souza, durante a aula inaugural do curso de Direito da UFPR, ficou em torno da questão do “complexo de vira-latas” do brasileiro. Segundo ele, a nossa singularidade é o fato de construirmos e mantermos uma sociedade conservadora que detém bens de consumo e bens intelectuais. “Os estímulos ao pensamento abstrato só existem na classe média. O estímulo à concentração na leitura só existe na classe média; a valorização das coisas do espírito. Na classe baixa, o filho do pedreiro está brincando com o carro de mão. Está sendo estimulado para ser trabalhador manual, e não para refletir. Dois tipos de pessoas muito distintas, e numa sociedade onde o grande elemento é o espírito, é o conhecimento. Além do capital econômico, o que vai definir a luta por recursos escassos é o conhecimento”, destacou.

Assim, explica Souza, a base desse raciocínio é o “complexo do vira-lata”, como chamava Nelson Rodrigues. Supõe-se que existam sociedades superiores, compostas por indivíduos superiores moral e cognitivamente, que estariam nos Estados Unidos e na Europa. Lá, haveria um estado só público, que não é privatizado por ninguém. Isso é um completo absurdo, fácil de ser destruído. Mas quando essas interpretações se tornam naturalizadas, os fatos não importam mais. O que os grandes pensadores dizem é que a privatização do estado é uma singularidade brasileira, e nós acreditamos nisso. Há um sequestro da inteligência do povo brasileiro montado por grandes intelectuais. A grande interpretação do Brasil é só uma, que une personalismo e patrimonialismo. “Ou seja, é cultuado na imprensa, nas escolas e na faculdade, que somos os piores, os mais corruptos, que nada aqui presta. É um pensamento patético perpetuado de geração a geração, o famoso complexo de vira-latas”, finalizou.

 

 

 

 

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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