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Coluna Pão e Pedras:  Amenidades e Poesias 

“Não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente”

Jiddu Krishnamurti

Eu vejo nos jovens de minha classe muitas semelhanças entre si. É sempre a mesma história, sempre a mesma frustração, a mesma violência. E daí são os pais que pagam o pato. Eles se esforçaram, deram seu sangue, sua vida pra construir um futuro que nunca chega, sempre com um esforço que nunca basta. Àqueles – os pais – que ascenderam socialmente, o esforço e o trabalho criam coisas grandiosas.

– Vejam só meu patrimônio! – berram aos urros – Fui eu que conquistei duramente com o meu trabalho. Vocês que não conseguiram foi porque não sabem trabalhar!

Mal sabem estes coitados que são usados pelo capitalismo para forçar todos os outros a trabalharem como cavalos, convivendo sempre com a frustração de que não fizeram o suficiente. Afinal de contas, se fulano conseguiu, eu poderei também um dia chegar lá. É só trabalhar duro e me submeter mais e mais. É pra garantir um futuro. Mas esse futuro nunca chegou.

Aos jovens que olham consternados o conservadorismo dos pais, que lhes cortam desde cedo o gosto por alguma novidade, restam apenas dois caminhos. O primeiro é se adestrar ao que a sociedade me impõe, sofrendo desta doença horrível que é me entregar para sofrer menos. Os outros se tornam inconformados, críticos e tentam a todo custo transformar a realidade, ainda que amarrados às obrigações do sustento próprio. Os últimos são os que sofrem mais, pois além de tudo o que sofrem os primeiros, sofrem de não compreender toda essa irracionalidade que os cerca.

– Como é possível que fulano não veja o quanto isso é um absurdo. Não podemos mais viver assim, temos que transformar isso tudo!

E berram sem ser ouvidos por todos aqueles que seguiram o primeiro caminho. Mal sabem eles que no passado seus pais disseram e pensaram as mesmas coisas, mas a dor a suportar é tanta, que acabaram se rendendo e ficaram onde estão. Se não é isso, o passado é muito doloroso para se relembrar, para se repetir.

Gosto mesmo é daqueles que mesmo depois de tantos anos não se renderam, não se entregaram e que, por isso mesmo, seguem formando mais jovens para e emancipação. Pois esses entenderam que apesar da dor, apesar do sofrimento, a dúvida é sempre a melhor resposta para qualquer certeza.

Por que devastar tudo o que foi construído pela sociedade em ti mesmo é muito dolorido, alguns de  vocês devem se lembrar de como foi. É pisar em falso, sem ter pra onde ir. Ter que passar anos e anos procurando respostas e apenas ampliar as perguntas, sem nunca as compreender plenamente. É dolorido e é por isso que alguns se escondem, se desesperam. O que eles precisam entender, é que apesar de estarmos soltos no ar, sem um chão sob os pés ou direções a seguir, conseguimos vislumbrar que num lugar bem longe chamado horizonte há uma coisa linda chamada utopia.

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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