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Nizio Jr subiu no palco pela primeira vez aos cinco anos, empunhando o microfone, um amassador de alho preso por um fio de lã fazia shows para família na sala de casa.  Muitos anos depois, em Londres, depois de um tempo suando a camisa pra sobreviver, o curitibano entrou num bar e submeteu sua voz aos ouvidos jamaicanos exigente. Mal pisou no palco e a banda perguntou – seco e direto – qual a música? “Zimbabwe”. Sem direito a respirar, prendeu o fôlego, o baterista contou “tak, tak, tak,” e a primeira estrofe, “todo homem tem o direito de decidir seu próprio destino, nesse julgamento não há parcialidade, então armas em mãos”. No final do show com a Perfect Purple, o produtor disse “eu quero você no meu espetáculo, você vai ser o Bob!”.

O apresentador do programa Reggae Time, da Mundo Livre FM – 93.9 MHz, participou das bandas Jahmaica, Madame Tassaud, GunJaH e da história do reggae curitibano. Esteve um pouco aqui, outro ali, cantou outros estilos em grupos de baile, casamentos, morou em Londres e já foi Bob Marley, todas as noites e duas vezes aos sábados, nas matines. Isto tudo com sua vibe e os dreads.

Conheceu o ritmo reggae no LP Legend (Bob Marley, 1984) pelas mãos do seu vizinho carioca Fabrício Montezuma. Mas há quase 20 anos atrás, nos vocais da Vila Delli, era só rock nacional e a reação foi de negativa “pode levar, não quero este treco, recusei mesmo” enfatizou Nizio. E, por várias vezes este ainda insistiu, “até que o desgracido esqueceu o disco aqui em casa, coloquei numa vitrolinha e começou a rolar aquele teclado trhuuuu trururun, que música loca” (Waiting in vain, Legend – 1984), completou.

A banda Vila Deli incorporou o estilo naturalmente, as canções apareciam nos ensaios, tomando espaço no repertório e numa das apresentações aos domingos no bar do Coca, bairro São Lourenço, o cantor foi  ao microfone e disparou, “a partir de hoje vamos tocar um estilo chamado Reggae music, metade do show vai ser rock e a outra reggae, esta decretado, pronto e acabou” [risos], comenta. A reação do público arredio foi de estranheza, uma galera gritou, porém boa parte ficou sem entender nada.

Na época, Curitiba era um berço embrionário de uma cena que crescia. De acordo com o apresentador NizioJr, a primeira banda a aparecer foi o Rastafaris, porém não há indícios de músicas, integrantes ou registros. Logo após surgiram Graoara e African Band, que disseminaram o gênero na capital, com covers e algumas músicas próprias.

Conforme explica, os dissidentes destes grupos formaram Makoto e Djambi, com Rodolpho Grani Neto (Djambi) à frente do Graoara, Marlon Siqueira (Djambi), Marcelo Silveira (Makoto), Luis Henrique – LH Dub – (atual Namastê), Mauricio Nassar e Odilon Nimitz “Bill”, na African Band. “o Marcelo sofreu um acidente, e chamou o Rodolpho para fazer alguns shows na African Band, quando ele voltou formou a Makoto e os caras já formaram a Djambi”, após a lâmpada repentinamente trepidar e queimar, conclui e emana sorrindo “Jah Rastafariih”.

Com o fim da Vila Delli, NizioJr formou o Jahmaica introduzindo UB40, Third Wolrd e Inner Circle, a parte mais pop do estilo. E, também a Madame Tassaud para fazer eventos e o som do momento para a “playboizada”. Entretanto, com a saída gradativa de integrantes, o conjunto dos dois grupos deu origem ao GunJaH, “fui largando tudo e quando vimos estávamos apenas no reggae, com esta banda fomos pra Santa Catarina, Rio Grande do Sul […] tocávamos de terça a domingo, só descansávamos na segunda,” destaca.

A banda participou com a Black Maria e Makoto, do projeto Totem com produção de Vince Black (ex-Black Uhuru) e por Amlak Tafari (Steel Pulse) nomes de peso do cenário. A gravação do Cd concedeu projeção e reconhecimento ao GunJaH, e também o auge do ritmo jamaicano em Curitiba.

 

Nizio Jr com o Perfect Purple em Londres

Contudo uma série de fatores contribuiu para que o gênero musical entrasse numa descendente. As bandas de maior público deixaram de cobrar cachê para receber portaria, além de tocar tinham que buscar o público. A chegada das novas mídias, a invasão do Axé, Pagode e Sertanejo, numa cidade carente de identidade musical e cultura, a dispersão foi inevitável. No entanto, o fator preponderante foi o falecimento de Geraldo Carvalho, a Mister Reggae Ambassador.

O embaixador possuía o segundo maior acervo de reggae do mundo, entusiasta da música, alavancava os shows e fazia a ponte trazendo bandas como Third World, Steel Pulse, Pato Banton, The Wailers, dentre outras. Hospedando-os na própria casa no bairro Ahú, assim como Alvim “Secco” Patterson, mentor de Robert Nesta Marley e percussionista dos Wailers. Ao sofrer um aneurisma durante a turnê, permaneceu tratando-se durante um mês na cidade, ao retornar para a Jamaica, falou muito bem do Mr. Ambassador. “Os jamaicanos são desconfiados com esta parada de grana, contratos […] então o reggae é esta coisa de energia, não é só música, irmandade, sei lá, Secco sentiu isto no Geraldo,” diz NizioJr

Com a estagnação do movimento e sem banda fixa, o apresentador, a convite do amigo Carlão, dono do Yemanjah, partiu para a Inglaterra. Chegando lá, permaneceu na casa do amigo algumas semanas, entretanto, decidiu ir para a capital Londres, onde aconteciam as apresentações das grandes bandas de reggae. Na capital, conseguiu ir a shows e fazer amizades com outros músicos como o baixista Fish do Gregory Isaacs, mas durante sete meses trabalhou no correio inglês, entregando jornais e esteve longe dos palcos. “Era para pagar contas, comprar comida, sobreviver […] depois de três meses morando lá uma namorada que veio do Brasil encontrou um panfleto na rua e meu deu – O que é isso? – disse, é só uma banda que conta a história do Bob Marley numa peça de teatro. Ah! legal, vamos guardar uma grana e ir”, respondeu.

O cantor desconhecia o espetáculo e acreditava ser uma banda que fazia apresentações em pequenos lugares, teatros e bares, nada de proporções maiores que isto. No entanto, na perspicácia de voltar aos palcos enxergou uma oportunidade. Entrou em contato com a banda pelo Myspace “conheço quase todo o repertório do Bob, canto há 15 anos e, por acaso, não posso dar uma canja no intervalo, fazer uma musiquinha?”. Mandou emails, telefone, porém sem sucesso.

E, após tentativas frustradas a Perfect Purple o chamou para um teste, “tinha mais seis caras esperando e fui o primeiro, olhei pra trás o baixista do Gregory, é você? Yeah man it’s me, let’s play together – Qual a música? Zimbabwe – olharam-se e o baterista tak, tak, tak, numa só pegada”, resumiu o cantor.  O grupo de músicos experientes, do espetáculo Salute to The Wailers, produzido por Otis Kirton, faziam o apoio de bandas como Aswad, Steel Pulse e Bob Marley, e, as apresentações pelo enredo e a qualidade técnica, estavam sempre lotadas.

Aprovado, excursionou pelo país contando a história da maior banda de reggae da Jamaica, contribuiu para disseminar o legado do gênero musical e nos palcos transmutava de NizioJr para Bob Marley. A estréia no Hackney Empire sentado ao lado da sua namorada estava o tecladista de Marley, Earl “Wire” Lindo e o produtor, JD Douglas “estava nervoso pra caramba, o cara chegou pra mim e elogiou, que isso! Teve outros caras bem mais famosos, sou do Brasil – interrompeu – mas você foi quem encarnou o cara, e, tem mais tenho um papel na minha peça pra você – Qual? – você vai ser o Bob Marley”, ressaltou.

JD Douglas, conhecido pela peça Black Heroes The Hall Fame, compôs e dirigiu J.A Story. A peça contava a história da Jamaica, de Cristovão Colombo, interpretado também por NizioJr, ao nascimento de Bob Marley que projetou o reggae e a ilha caribenha pelo mundo.Era protagonizado por Count Prince Miller, um dos principais ícones do país. “O negócio era sério mesmo, ensaiei por três meses, recebi aulas de teatro, entrevistas na televisão, emagreci, pintei a barba, sério mesmo […] história da Jamaica, dos índios Aruaques, então nasceu o rei, entendeu? Por aí”, explicou.

Nesta peça musicou e interpretou, com a Perfect Purple, I’am Bob Marley, canção que retrata a vida do rei, “só tinha a letra, começamos a tocar e daqui a pouco estava àquele groove, gravamos no mesmo dia”. O produtor levou o cd para casa e ligou para o Roger Steffens, maior colecionador de discos do estilo e amigo de Geraldo Carvalho, “Roger? What’s up? Escute essa música, a música tem sete minutos, Nizio fica quieto deixa o cara escutar”, ao final da canção “Roger, o que você achou dessa música Yeah man você tem uma voz doce pode ter certeza tem o jeito do Bob, vou por num documentário que estou fazendo, foi o melhor dia da minha vida” conclui NizioJr

Hoje, convidado a fazer o programa Reggae Time há 5 anos por Rafael Minoli, divide seu tempo com o projeto NJVibes e a rádio Mundo Livre FM, no Reggae Time, todas as quartas-feiras, às 22h00. De Junior Dread, Cristovão Colombo, Bob Marley a NizioJr, em homenagem ao pai, o cantor, ator e apresentador, tem uma alma reggae. Pois, do primeiro “show” ainda pequeno em família, sem jeito, experiência, demonstrou querer cantar, mesmo com as dificuldades que a vida de músico impõe, assim o fez e o faz. Apesar de ter uma técnica desenvolvida ao longo do tempo, não parece apenas vontade, mas um pouco da sina, pois é uma forma de superar os poucos problemas, “o reggae ou você ama ou odeia não há parcialidades, Yeah Man?”.

Curta um trecho da entrevista com Nizio Jr.

 

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa 'A história da minha vida' com Renato Gaúcho.

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