12498451_1026192517440258_1757615185_n

Ele acordou desanimado, mais um de um monte de dias, abriu a porta do quarto e viu seu cão fazer festa querendo colo, talvez o filhote tenha sido o único que notou. Mesmo ele já estando assim quando ele chegou a casa.  Fez um afago no peludo e se arrastou para o banheiro, talvez uma ducha tirasse a inhaca mental. Saiu do banheiro e se forçou a mastigar um café da manhã que o manteria nutrido, comer era bom, fazia ele esquecer do mundo por algum tempo. Vestiu-se e foi ao trabalho. Mesma rotina, ônibus, escritório, alguém que fez merda e ele teve que resolver, a volta também era rotineira, ônibus, cinco minutos de caminhada, e o mascote pulando, alegre com a sua chegada, era sempre o peludo o mais feliz.

Essa rotina o fazia querer a morte, tinha uma Magnum 44 escondida na gaveta de cuecas. No tambor uma única bala, com o seu nome escrito na parte do chumbo, não precisaria de outra bala, aquela merda de arma estourou a cabeça de Kurt Cobain, ele não era tão cabeça dura assim para conseguir sobreviver a um coice daqueles. E ninguém iria notar sua falta mesmo.

Abriu uma lata de cerveja e colocou a arma no colo. Queria sentir o gosto do lúpulo uma última vez. Não escreveria carta de despedida, ninguém notaria mesmo, e ele achava extremamente clichê explicar o porquê estava fazendo, as pessoas a sua volta não haviam percebido que ele estava deprimido há mais de dois anos, talvez ele fingisse bem.  Deu um gole profundo na cerveja e ficou imaginando como chegou até ali. Quer dizer diabos, como a doença invadia de forma silenciosa a vida de todos e ninguém percebia.

Não notaram quando ele parou de sair, dando desculpas como tá quente demais, tá frio, ou até mesmo não vou, valeu. Ninguém notou, e quando ninguém percebe a depressão cresce. Colocou um blues, se fosse uma lobotomia ao invés de um suicídio teria colocado Fuor Non Blondes- Wath’s up… Deu risada disso.

Chorou por um tempo, até que as lágrimas molhassem o seu rosto como água de chuveiro, o relógio no computador marcava 21h21min, (tem alguém falando de mim). Verificou se a bala estava no tambor da velha Magnum, para dar só um disparo e não perder a coragem. Abaixou-se para se despedir do cão e esse lhe lambeu a face, lambeu o sal das lágrimas, o último beijo de um amigo.

Pegou a arma, apontou para o peito, não queria estragar o próprio velório, respirou fundo, puxou o cão da arma, um suspiro, um latido, e o silêncio… Desmuniciou a Magnum e a colocou na gaveta. Pegou o filhote no colo, terminou a cerveja e saiu para a rua com o filhote.

Alguém havia notado, só não sabia mostrar isso com palavras.

Comentários

Comentários

About The Author

Biólogo com especialidade em toxicologia alucinógena por formação, toca contra-baixo por teimosia, escreve por necessidade, mas a sua real vocação é almoçar. Escreve no seu blog acamadepregos mas nem sempre.

Related Posts