Charge de Latuff

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Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesias 

Iracema, virgem dos lábios de mel, de cabelos mais negros do que a asa da graúna, de lábios mais doces que o favo de jati, e o hálito fresco como a brisa da manhã. Virgem, intocada, misteriosa, lendária. Sua presença remete ao éden perdido que buscamos por toda a vida, talvez em vão. É assim, distante e inalcançável como a própria natureza, – e talvez seja esse o paralelo que queremos – o da romântica visão do objeto intocável, pelo qual a vida justifica seu sentido de ser.

Mas um rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. A virgem, ao erguer os olhos depara-se com uma sedutora visão; cativante e perturbador está ali, a sua frente, a imagem de seu contrário, moderno e altivo, com a mão pousada sobre a espada, o sangue enrubescendo sua face pálida. Tinha um belo sorriso no rosto, que não se sabia ser alegria ou sarcasmo. Era Martim, o conquistador europeu, civilizado e desenvolvido que se colocava em cena.

O livro Iracema, de José de Alencar, foi publicado pela primeira vez em 1865 e expressa uma idealização romântica do modo de vida considerado selvagem dos indígenas frente a pretensa superioridade do homem branco europeu. Trata-se de um projeto de unificação nacional que, reforçado pela literatura e arte românticas de maneira geral, pretendiam realizar um projeto de desenvolvimento nacional encabeçado por um grupo de republicanos elitistas que se viam ameaçados por revoltas como Canudos, Contestado, ou a Farroupilha.

Em Janeiro de 2016, o modo como nossos povos originários vem sendo tratados não se transformou radicalmente. São ainda idealizados na construção de uma nação autoproclamada hospitaleira, formada por homens – nunca mulheres – cordiais em um país que respeita e convive com a diversidade. Mas quando descemos dos céus à terra e passamos do plano abstrato para o concreto, os massacres e violência cotidianas se reproduzem caminhando em um ritmo cada vez mais acelerado rumo ao bizarro. Este é o caso de muitos povos indígenas no Brasil e, entre eles, os Guaraní-kaiowá.

Tive a oportunidade de conhece-los através do Acampamento internacional de Solidariedade aos Guarani-Kaiowá, que ocorreu entre Dezembro de 2012 e Janeiro de 2013 na aldeia Taqwara visando, na época, denunciar o massacre que sofre esta população pelas mãos coronéis do agronegócio, já que neste período entre festas de fim de ano e carnaval é a época onde estes sofrem com as maiores violências.

Em sua cosmologia, os Ñanderus são divindades que representam elementos naturais, como o vento, a chuva, etc. Todas estas divindades, reunidas, se submetem ao Ñhanderu-Guassu, a grande divindade que pode ser vista como representante da totalidade do mundo existente. Vivendo em diversas comunidades que se espalham pelo Sul do Mato Grosso do Sul e porções do Paraguai, é reconhecido o uso secular de seus territórios. Para os Guaraní-Kaiowá são os antepassados mortos os responsáveis por interferir junto aos Ñanderus para que os elementos “naturais” contribuam para uma boa caçada, para as chuvas de verão, para a colheita, etc. Neste caso, em particular, o rompimento com o vínculo da comunidade com a terra, chamada Tekohá (algo como lugar onde se vive bem) representa também o rompimento do vínculo com os antepassados, o que é a certeza de viver infeliz. Sair da terra onde viveram os antepassados pode ser pior que a morte. No entanto, este modo de ver o mundo está sendo massacrado pelos jagunços do agronegócio e pelas missões evangélicas, que na catequese de indígenas acabam por destruir também seus laços comunitários.

Exemplo deste massacre contra nossos povos originários é o que está ocorrendo neste momento na terra indígena Taqwara entre o Rio Taquara e o córrego São Domingos no município de Juti, em Mato Grosso do Sul, que apesar de habitarem terras demarcadas pela FUNAI, se encontram neste momento encurralados entre pistoleiros e agentes da polícia federal. Uma pequena busca no Google basta para conhecer as imagens aéreas desta comunidade, que aparece no software com o nome de Fazenda Brasília do Sul, de propriedade do senhor Jacinto Honório Silva, conforme a imagem abaixo:

Sem título

Podemos perceber pela imagem dois detalhes importantes; primeiro: uma fazenda que se localiza acima de uma terra indígena e que não tem qualquer receio em expor-se publicamente para qualquer busca simples na internet; segundo: percebe-se, através da visita que fizemos à aldeia, que a única mancha de vegetação nativa preservada encontra-se na pequena área em verde mais escuro a noroeste da imagem, que é a pequena parte do território demarcado ainda ocupada pelos indígenas. Todos o resto foi tomado por cultivos de cana-de-açúcar, soja e para a pecuária bovina. Tal fato faz com que muitos indígenas tenham que se proletarizar, trabalhando nas plantações estabelecidas sobre as terras que lhes foram tomadas para garantir a sobrevivência, uma vez que o desmatamento levou embora animais e plantas que são utilizados na sua alimentação e na produção de utensílios e ferramentas.

Neste contexto, os Guaraní-kaiowá iniciaram um processo que chamam de Retomadas, ou seja, ocupar terras que são suas por direito e que foram tomadas por fazendeiros latifundiários, que produzem commodities para o mercado internacional. Neste processo, assassinatos, mortes, torturas, e violências de toda monta são realizados com a anuência do Estado Brasileiro, que não implementa qualquer política que garanta a segurança dos territórios indígenas e das pessoas que neles vivem. E agora, neste instante em que este pequeno e afobado texto é publicado, a aldeia Taquara é cercada por pistoleiros que ameaçam homens, mulheres e crianças de todas as idades que habitam este território, e é comum, pela noite, ouvir pistoleiros dando tiros para amedrontar os indígenas.

Listo abaixo alguns dos vídeos produzidos à época do Acampamento Internacional de Solidariedade aos Guaraní Kaiowá, que expõem um pouco da situação em que se encontram os indígenas no Sul do Mato Grosso do Sul, e também um relatório da expedição Marcos Verón realizado, entre outros, pela Associação dos Geógrafos Brasileiros. Toda ajuda é válida, e denunciar mais uma etapa do massacre de nossos povos originários.

Mitán Kuera, o olhar das crianças Guaraní-Kaiowá:

Guarani-kaiowá –Acampamento Internacional de Observadores:

Publicação da Associação dos Geógrafos Brasileiros com relatório da expedição Marcos Verón. Ler a partir da página 147.

http://www.agb.org.br/files/TL_N38.pdf

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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