Obra "Le violon d'Ingres", de Man Ray, 1924.

Obra “Le violon d’Ingres”, de Man Ray, 1924.

Abotoando o último nó da camisa, o músico se levanta, olha no espelho e sorri. Sobre sua cama repousa um belo violoncelo de curvas femininas que ele chamou de Musa, jamais havia visto tão belo instrumento. Senta-se na beirada, admira-a repousar sem uma única nota tocar, toca-lhe as cordas com a sutileza de dedos que lhe fazem cócegas, o violoncelo desperta e a melodia começa.

De olhos fechados o homem senta sua Musa em seu colo, coloca-lhe os braços torno de seu pescoço enquanto os seus dedos lhe tocam a cintura, deita delicadamente a cabeça da bela sobre seu ombro e a toca…toca uma música ninguém mais ouve, apenas o jovem violoncelista e sua deusa melodiosa. De repente, num frenesi causado por um estupendo tutti, a Musa implora aos deuses para que nunca mais os separassem e então músico e Musa tornam-se um, assim como Hermafrodito, o filho de Hermes e Afrodite.

“Toca-lhe as cordas com a sutileza de dedos que lhe fazem cócegas, o violoncelo desperta e a melodia começa.”

A harmonia que ecoa pelo quarto herdou a beleza da mãe e a eloquência do pai, as notas flutuam pelos ares sem rumo certo espalhando o amor que sai das cordas tocadas com tão sincero carinho e cuidado. Encontram um no outro a felicidade plena que é alcançada através da sinfonia de sentimentos e sensações. E assim, no quarto do jovem boêmio encontram a mais harmoniosa melodia, o amor, a arte e completam-se, pois agora são um.

  • Crônica escrita como presente para Alexandre Maeda em agosto de 2014.

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About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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