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Coluna Filosofia Di vina ! 

Durante décadas, um samba cantado pelos Demônios da Garoa embalou gerações. Composto pelo mestre Adoniran Barbosa, a música versava sobre o abrigo chamado, popularmente, de maloca. Nela, Adoniran lembra com saudades os bons tempos em que três malandros viviam no casebre.

O termo ‘maloqueiro’ com o tempo passou a designar não somente os que ocupavam estas moradias, mas também a malandragem no geral. Lembro que, quando pequeno, evitava sair à noite por saber que em determinadas esquinas existiam estes elementos, os maloqueiros. Os frequentadores de esquinas eram rodeados de lendas, dentre eles se encontravam todo o tipo de gente, foragidos, exploradores, bêbados, enfim uma face da sociedade que só aparecia na noite.

Na adolescência comecei a conviver com esses renegados. Ir para a esquina beber e jogar conversa fora era uma expressão de rebeldia que causava um grande sentimento de liberdade.

Em uma andança pela madrugada, há poucos dias, encontrei um grupo de maloqueiros, caracterizado por ser um grupo de rapazes em frente a uma casa. Descobri que estavam ali e não em uma esquina pelo fato de que naquele local funcionar o “wi-fi”. Me decepcionei ao constatar que nenhuma conversa se estabelecia, todos se concentravam em seus smartphones, todos trocavam mensagens pelo WhatsApp.

A modernidade tecnológica traz um preço alto a ser pago. As gerações que nasceram na era on-line acabam por achar que a única maneira de se comunicar é a digital. O paradoxo da tecnologia é evidente, se por um lado se tem na internet informações diversas, que vão desde uma receita de bolo até a produção de bombas, grande parte dos internautas se contentam com o superficial, buscam o óbvio e o reproduzem.

A fratura da mentalidade formada nesta situação é deprimente numa perspectiva a longo prazo. Jovens mendigando likes em fotos cada vez mais tristes, onde a impessoalidade da internet os permite usar todas as máscaras possíveis, o que torna o mundo virtual um lugar em que não se permite fracos. Todos devemos ser fortes, lindos e inteligentes o tempo todo. A ditadura do vazio pega os mais ingênuos, fazendo com que cheguem ao ridículo de viver em função das suas postagens e acreditarem que suas vidas são realmente de interesse público e nesta lógica mostrar o que se come, onde se está, etc.

A juventude, nestes moldes, torna-se cada dia mais comportada e previsível. O enquadramento é total. Protegidos pela tela do computador podemos ser rebeldes de fachada, podemos ser representantes de ideologias, podemos xingar e até humilhar pessoas.

Não se deve, obviamente, jogar a água do banho com o bebê junto, afinal a Primavera Árabe foi organizada pela internet. O problema se encontra na maneira de utilizar esta importante ferramenta. Uns utilizam para se enriquecer como pessoa, enquanto uma parte faz questão de mostrar que a futilidade não tem limites e a competição do ridículo se mistura com a ideia de liberdade de expressão e, sem perceber, reforçam todos os tipos valores que julgam estar quebrando.

Uma sociedade com esquinas vazias e com álbuns lotados de autoenganos, justificados pelos likes, formam a triste face de uma geração que não conseguiu romper nem com as barreiras do seu próprio portão e a frieza das novas relações tornam nossa maloca muito mais saudosa.

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Rafael Pires de Mello

Rafael Pires de Mello é formado em filosofia pela UFPR, gosta de inutensílios como cinema,literatura,música e é claro o maior de todos, filosofia. Tem a tendência de chorar com música romântica quando bebe demais.

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