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Dentro de um ônibus lotado, me aperto entre a porta e o lixo, horário do rush. Olho no rosto de algumas pessoas perdidas em pensamentos, alienadas por sua própria rotina e me pergunto se elas sabem…Me pergunto se algo no meu rosto denuncia a algum transeunte observador o meu trajeto, meu estado de espírito ou qualquer detalhe que denuncie o que estou passando. Costumava fazer este mesmo caminho rotineiramente, e o rosto das pessoas que observo hoje naquela época sequer me interessavam, naquele momento eu trocava mensagens apaixonadas entre risos tímidos e discretos, depois de um exaustivo dia de trabalho brincava por mensagens com o interlocutor e nos chamávamos “príncipes”.

Na linha Santa Cândida/Capão Raso, sentido ao tubo Moyses Marcondes, me intitulava “Princesa Guerreira montada em meu alazão vermelho que me levaria ao meu amado príncipe” e o amado príncipe do outro lado da linha ria e me chamada de “idiota criativa” por mensagem. Estava me esperando em sua casa e disse que nunca mais conseguiria olhar para um ônibus dessa linha e não pensar no termo “alazão vermelho”.

Tubo Moyses Marcondes, as portas se abrem, não desço. Meu destino poderia ser esse, mas não, hoje desço no próximo. Hoje, neste dia 20 de janeiro de 2016, me vejo diante de uma igreja cuja fé eu não partilho, mas que neste dia homenageia o homem que eu mais amei nessa vida e seus 30 dias de sono. O próximo tubo não carregaria nenhuma tristeza além do luto não fosse ali, naquela escada…o nosso primeiro encontro. Foi ali que, no dia 25 de maio de 2013, uma jovem nos seus então 23 aninhos, aguardava com ânsia a vinda de um rapaz.

Um encontro de reencontro, um antigo colega de escola com quem matava aulas e falava sobre vôlei na infância. Ele subia a rua um tanto tímido, um tanto envergonhado pelo seu atraso e sem saber muito bem para onde olhar, vestia uma blusa de moletom cinza e parecia impressionado ao avistar a velha amiga que em 10 anos substituiu seus cabelos desgrenhados e o jeito desengonçado por cachos castanhos bem definidos um pouco abaixo dos ombros sustentados por uma rosa vermelha atrás da orelha, olhos de gatinha, batom vermelho e corpo de mulher. Estava sentada na escada do ponto de ônibus devido à demora, olhei para o agora homem diante de mim e sorri, “oi…”

“Eu acho que deveria ter me vestido melhor…” disse ele com embaraço, coçou a cabeça, deu um sorriso olhando o chão e estendeu a mão para ajudar-me a levantar. Nossa, como ele estava bonito…era só isso o que eu conseguia pensar. Nos abraçamos e fingimos que ao nos tocarmos não ouvimos o coração disparado e os trimiliques nervosos um do outro. Ele gentilmente me cedeu o braço para segurar e caminhamos em direção à ultima locadora do mundo, para escolher os filmes que culminariam em um primeiro beijo.

Um beijo gerado pela troca de olhares, deitados na cama em meio a uma discussão risonha sobre literatura, a cama que viria a se tornar refúgio. A cama onde tantos segredos seriam compartilhados entre risos e orgasmos sufocados… Hoje, estou aqui sentada na mesma escada, olhando o fluxo da rua à espera de um velho amigo que não vem. De black tie, nas mal costuradas cicatrizes dos meus 26 anos, no fim.

Restam-me essas memórias de um romance de guerra e paz – segundo suas próprias palavras referenciando Tolstoi – a saudade, o vazio e a dor. Acho que nestes 30 dias envelheci uns 10 anos, é como se estes quase três anos equivalessem a 50 da minha vida. Num quarto 4×4 construímos uma vida, dominamos o mundo, escolhemos (não sem briga) a valsa do nosso casamento, criamos juntos um plano maquiavélico para um futuro ménage à trois com a Christina Hendricks e ríamos. A sequestraríamos a caminho de uma premiere e a levaríamos para nosso esconderijo secreto onde havíamos formulado todo um argumento para convencê-la (ele ria maldosa e sacanamente quando descrevia nosso plano). Foi então que sugeri o Johnny Depp para entrar no esquema e a história, segundo ele, perdeu toda a graça.

Eu olhava insegura e perguntava se ele preferia a mim ou a Christina Hendricks, ele ria, me chamava de boba e respondia que nem em um milhão de anos me trocaria por ela. Eu me derretia enquanto ele me abraçava e voltávamos ao plano, agora sem Johnny Depp…

Mas esse maio acabou, assim como todos os meus maios futuros, agora sou uma loba solitária caminhando pelo mundo à própria sorte. Tornando-me forasteira em outras vilas na busca por um eu que não tenha partido junto contigo.  Então, a heteróclita de alma esfacelada é trazida de volta a realidade, é hora da missa, deixo para trás a escada e tudo o que ela significa, cumprimento seus pais, as pessoas se sentam e me preparo para enterrar, mais uma vez, o amor.

Ainda assim, dentro de mim estarei sempre sentada na escada de um maio qualquer…

Em memória de Alexandre Maeda (14/12/1987-20/12/2015)

 

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About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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