tumblr_l6why9gu4t1qccvu5o1_500Numa bela e rara tarde ensolarada curitibana, seguia meu caminho com afinco e destreza na incessante busca por um maço de coentro fresco. Eu, que ando mais avoada que nunca, caminhava perdida em pensamentos febris de tempos que se foram. Meu atual processo psicológico de despersonalização me cede o luxo do deslocamento total de minha persona para outros mundos, todos inacessíveis ao resto da plebe. Minha sensação de total desprezo pela vida que tem me tomado nos últimos tempos, não permite qualquer empatia com o dia-a-dia alheio, pois simplesmente não estou no mundo. Eu ando porque tenho que andar, como porque tenho que comer, durmo porque…

E aí, de repente CATAPLOFT!

O som do impacto me traz novamente para o planeta, olho diante de mim e vejo um pobre passarinho quase imóvel. Ligeiramente ofegante, ele se debatia exasperado diante de minha aproximação, o coitadinho foi traído pelo reflexo do vidro da fachada do Teatro Guaíra e por ele foi abatido.

Peguei-o em meu colo com cuidado na tentativa inútil de fazer alguma coisa. E foi aí que eu entendi…Senti-me estúpida por não ter compreendido antes. Eu, que sou um legítimo imã de tragédias, não poderia estar em melhor hora, obviamente. Claro que teria que ser eu! Atualmente, considero-me pupila da natureza, uma jovem observadora sedenta para compreender os seus processos. Eu, a pequena Felícia, que nunca consegui – por vontade própria – soltar o gatinho, estou aprendendo conhecer e aceitar o fluxo natural das coisas, estou aprendendo porquê devo soltá-lo e porquê deveria deixa-lo ir embora.

Sentei no chão e fiquei ali com o passarinho à espera do inevitável, do onipotente, do irremediável, o Quarto Cavaleiro do Apocalipse, a Morte. Em minhas últimas reflexões, discursei sobre o quanto odeio o tempo e aqui estava eu, diante de meu outro arqui-inimigo.

Hoje, olhei-o nos olhos. Ele me encarou com sarcasmo e ao mesmo tempo com aquele olhar de quem reconhecia em mim uma velha conhecida. Fez-me sentir intocável, incólume diante de sua ironia. Tudo à minha volta morre, menos eu, é simplesmente sufocante, ofensivo e humilhante. Olhei para o bichinho em meus braços enquanto a morte o envolvia, apertei-o delicadamente contra meu peito e fui sentindo sua respiração se esvair de modo cada vez mais lento. E foi.

A Morte e o passarinho despediram-se. Recebi um inconveniente aceno como quem diz “Nos vemos por aí, Andressa.” e foi embora. Maldito seja!

Em minhas mãos, o silente bichinho, vítima do acaso, descansava perene e invulnerável a qualquer dor. Ainda quentinho, dei-lhe um beijo de despedida, em sua honra e em honra ao beijo que não pude dar no último passarinho que a morte me levou. Antes de sua partida, dei-lhe o nome de Bardo, em homenagem aos bardos budistas que se referem ao estado intermediário dos meios espirituais.

Não nos conhecíamos, mas o aqueci com todo o calor do meu peito e o amei até o seu último suspiro. Ele não estava sozinho.

Fiz-lhe uma cama de flores no jardim do teatro e fiz dela seu túmulo. Na minha lápide imaginária dizia: “Aqui jaz, Bardo, o passarinho”.

E fui atrás do meu coentro, a vida segue…

PS: Até o momento da publicação deste texto, o coentro não foi encontrado.

 

Free Bird – Lynyrd Skynyrd

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About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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