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A noite era quente. Fazia parte do primeiro verão da década de 1960. Podia-se ouvir, da calçada em frente ao clube, os gritos da plateia durante o primeiro evento da noite. Bem frequentado, o local além de cobrar entrada exigia também trajes adequados. O jovem, de calça “Brim Coringa”, tênis “Conga” e regata, não tinha entre as pretensões da noite adentrar o Duque de Caxias. No entanto, um cartaz fixado na parede, lhe prendia a atenção por um bom tempo:

“O Clube Duque de Caxias apresenta o poderoso embate entre os boxeadores Rubens San e Caninin”.

Enquanto contemplava o cartaz um sujeito se apresenta. Se diz empresário e pergunta se o jovem sabe “trocar uns socos”. Diante da resposta positiva vem o convite. “Tem coragem de lutar hoje, ou melhor, daqui a pouco? Ele me perguntou. Eu disse que sim e minutos depois estava no ringue do Duque de Caxias prestes a lutar diante de centenas de pessoas”, conta Dalvino Gonçalves, na época um adolescente que não tinha noção do efeito que aquela noite teria no resto de sua existência. “Foi um pega em tanto”, completa. A luta terminou no terceiro assalto. Dalvino não sabe como foi nocauteado, só lembra que decidiu que o boxe seria sua vida.

Luta no Duque de Caxias na década de 1960. Foto:Luis Celso Junior

Luta no Duque de Caxias na década de 1960. Foto:Luis Celso Junior

Pugilista peso leve, foi campeão paranaense de 1961 pela Guarda Civil (antiga Policia Civil) e Campeão pela Policia Militar em 1968. Dalvino foi um dos melhores boxeadores da década de 1960 e ganhou o apelido de “Pelé” pela semelhança física com o rei do futebol. As lutas naquela época eram televisionadas pela TV Tupi, no Canal 6, diretamente do clube Duque de Caxias. “Apareci muitas vezes na televisão, adorava aquilo, muitas luzes e câmeras, fiquei bem conhecido na época”.

Paixão sem preço

A carreira como profissional durou mais de 15 anos. Além de lutar no Duque de Caxias Dalvino também realizava lutas em circos. Nas décadas de 1960 e 70 grandes nomes do boxe do Paraná, como Rubens San, Francisco Canindé e Gasparino Torres se apresentavam em companhias circenses tradicionais do estado como os irmãos Queirolo. Depois de encerrar a carreira como profissional passou a ensinar o pugilismo. Seus primeiros alunos foram seus dez filhos que aprendiam jabs e cruzados em um ringue improvisado ao lado da linha férrea na Vila Trindade. Logo outros meninos do bairro começaram a treinar e as aulas aconteciam todos os dias.

Dalvino não cobrava pelas aulas e se dedicava em tempo integral. Assim, as coisas foram ficando difíceis em casa. E ficaram piores quando ele arrumou uma amante e a levou para morar com a esposa e os dez filhos sob a lona do barraco na Vila Trindade. “Foram tempo difíceis”, conta.

Cansado das brigas abandonou a família e saiu pelo país se apresentando em circos e festivais. Anos depois voltou e se reconciliou com quase todos.

Duque de Caxias. Foto: Luis Celso Junior

Duque de Caxias. Foto: Luis Celso Junior

Hoje, aos 70 anos, Dalvino Gonçalves ainda respira boxe. Gesticula esquivando-se como se estivesse em um ringue enquanto fala. O gestual dá vida a cada história que conta. Sempre de calças largas e tênis de corrida ele penteia o moicano amarelo, ajeita o cavanhaque e corre 10 km todas as manhãs. “Tenho uma saúde de ferro. Nunca bebi e nunca fumei. Treino todos os dias”, diz.

Hoje quem luta com Dalvino é seu filho mais velho. O primogênito acompanha o pai em todas as suas aventuras. Como na vez em que montaram um ringue em cima de uma Belina e os dois lutaram com o carro em movimento pelas ruas de um bairro de Curitiba.

Dalvino sonha em fazer outras proezas como essa. Hoje mora em Piraquara na Região Metropolitana da capital paranaense e ganha a vida como jardineiro. Seus sonhos, no entanto, vão bem mais longe. “Quero comprar uma Kombi e dar a volta ao mundo promovendo e ensinando o boxe. Só me falta apoio, pois vontade tenho de sobra”. Além do mais, avisa que precisa derrotar um grande nome do boxe paranaense que, segundo ele, tem mais fama do que punhos. “Quero lutar com o Macaris do Livramento. Esse só tem fama. Encaro ele quando e onde ele quiser”, desafia.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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