Cácio José de Araújo nasceu em Brasília e rodou o Brasil tocando violino. Ele subiu ao palco com grandes nomes da música nacional e há 25 anos faz parte da Orquestra Sinfônica do Paraná.

A Orquestra Sinfônica do Paraná surgiu em 1985. Dois anos depois, em 1987, Cácio foi aprovado no concurso público e passou a compor o quadro da Orquestra. Ele fez as malas e veio para Curitiba, cerca de 1.400 quilômetros longe de sua cidade natal, Taguatinga no Distrito Federal.

Homem e instrumento se encontraram aos doze anos de idade. Foi amor ao primeiro som. Cácio teve uma infância humilde. Foi criado na periferia, era de família pobre e quando era criança vendia picolé para ajudar em casa. Aos 12 anos foi acolhido por um projeto social do SESI Taguatinga que o colocou pela primeira vez em contato com o violino. As aulas que recebia seguiam o método japonês do pós-guerra no qual trabalha-se muito a parte emocional. Mexia com a auto-estima, a disciplina e a perseverança dos alunos. “Aproveitei a oportunidade que tive”, conta o músico.

Na época a família não via sentido “nessa história” de músico. Seus pais não lhe davam apoio para estudar o instrumento. Porém, seu irmão, que atualmente é músico da Orquestra de Brasília, lhe deu o apoio que precisava para seguir em frente. A estrutura que encontrou no projeto foi fundamental para que pegasse gosto pela arte e fizesse dela sua profissão. Cácio estudava com instrumentos emprestados da escola e os professores levavam os alunos para ver concertos para estimulá-los. Em pouco tempo ele já estava tocando em casamentos e formaturas. O dinheiro começou a surgir e a coisa mudou. Passou a ser incentivado em casa e o violino virou uma extensão do seu corpo. Hoje o músico agradece à Deus por este encontro. “Você fazer o que você escolheu fazer aos doze anos de idade e viver em função disso é muito bom”, revela Cácio.

Hoje Cácio vive no Bairro Alto, na capital paranaense. Perto de sua casa está o Bosque Irmã Clementina, é ali que o violinista faz sua caminhada diária. Ali também é onde Cácio vê diversos jovens ociosos e aproveita para conversar e passar um pouco de suas experiências de vida para os mais jovens. O músico acha um absurdo a juventude cair na marginalidade e se perder por falta de oportunidades. “O poder público não investe na cultura e a cultura é um elemento de mudança social”, lamenta o músico.

A primeira ópera, junto com o maestro Silvio Barbato (Foto: Arquivo pessoal Cácio José de Araújo)

CARREIRA – A rotina intensa de estudos promoveu uma simbiose entre instrumento e músico. Isto lhe rendeu uma carreira de êxito no meio musical. Cácio estudou música na UniRio, na Universidade Livre de São Paulo e na Universidade de Brasília. Nesta fez sua primeira Ópera, em 1982, ao lado do renomado maestro Silvio Barbato, morto no acidente aéreo da Air France em 2009. Em 1985 tocou com Tom Jobim no aniversário de Brasília. Foi nesta oportunidade que o violinista conheceu um de seus maiores ídolos, Renato Russo.

Cácio é um músico profissional. Ele já gravou e tocou com diversos músicos famosos. Tom Jobim, Caetano Veloso, Francis Jaime (filho do Frank Sinatra), Bruno e Marrone, Marina Lima e Emerson Nogueira são alguns nomes que lhe vem à cabeça de imediato. Porém, muitos outros artistas já tiveram o violino dele em suas canções ao longo das últimas três décadas.

Na Orquestra Sinfônica do Paraná ele já toca há 25 anos, participou de mais de 400 das 500 apresentações realizadas pela OSP até hoje. Viaja o estado todo se apresentando e em Curitiba faz concertos quase toda semana. Cácio teve o prazer de tocar junto com a Orquestra de Cuba. O músico compõe, escreve – inclusive tem um roteiro de filme pronto – e desenha. Além do violino ele toca violão e viola.

Desde os 17 anos Cácio dá aulas de música. Mas o professor também é aluno. No mesmo ano que começou a dar aulas ele virou aluno de Cecília Guida. Até hoje ele ainda estuda com a mesma professora. Mesmo morando em Curitiba ele viaja para São Paulo para encontrar Cecília. “Nunca precisei ir para fora estudar violino”, conta. Cecília Guida tem formação alemã de violino e foi aluna de Max Rostal, um grande mestre do instrumento.

O QUE OUVE O VIOLINISTA? – Cácio adora o Russo Tchaikovsky. “Ele tem muita melodia, é muito romântico”, conta. A obra do grande nome da música barroca, Johann Sebastian Bach, também enchem os ouvidos de Cácio. E não pense que a playlist do violinista é feita só de clássicos. No Pop, Djavan, Valdir Azevedo e Almir Sater são seus preferidos. Cácio até compôs uma música e enviou ao ídolo Almir Sater. Ainda não teve o retorno, mas está confiante de que o grande nome da música caipira irá gravar sua composição.

Atualmente Cácio está voltado para música de raiz, adora moda de viola. “Ela conta a história de homens simples… do país… das pessoas”, diz o violinista que também é fã de Chico Rei & Paraná.

O músico guarda os cartazes e recortes do jornal de momentos importantes da sua carreira (Foto: Everton Mossato)

VIDA DE MÚSICO – Nem só de glórias vive o músico. Sobretudo os que tocam música erudita, como ele. A rotina de estudos é de uma média de quatro horas por dia, podendo chegar a 11 horas quando pratica repertórios novos. “Não temos férias não, se parar um mês eu enferrujo”, ironiza.  A pressão sobre os músicos da Orquestra é muito grande. “Quando o Caetano [Veloso] erra o público aplaude, já na Orquestra isso é inaceitável”.

O maior palco de espetáculos do estado é local de trabalho para Cácio e os demais integrantes da Orquestra Sinfônica. Todos os dias os músicos ensaiam das 9h às 12h no Teatro Guaíra. “Se ficarmos mais tempo juntos acho que a gente se mata”. São 70 membros convivendo todos os dias, alguns há décadas. O violinista revela que o convívio é delicado e em alguns momentos até difícil. Depois da jornada no Guaíra o ensaio continua sozinho, em casa sob olhar atento de sua gata, todas as tardes.

Muita gente tem a imagem de que a música clássica, erudita e a Orquestra em si é coisa de rico, de elite. Cácio não vê deste modo. “Orquestra não tem nada de elite”, ele entende que falte divulgação para aproximar o povo da Orquestra. Há concertos didáticos, no qual é explicado tudo o que se passa no palco. As apresentações custam cinco, dez reais. “Vai ver um artista pop no Guaíra, o povo chega a pagar mais de 100 reais”, provoca. Cácio vê na Orquestra uma música de qualidade e acessível ao público e perante alguns hits do mundo pop ele se indigna e questiona a qualidade do que se ouve por aí. “Tão engolindo goela abaixo o Michel Teló”.

O violinista defende que a orquestra vá para rua. Mas para isso entende que falta a comunidade se mobilizar e pedir a orquestra perto do povo.  “Acho que a população tem que exigir a Orquestra no bairro, na periferia, do lado da sua casa”, provoca Cácio, o violinista.

| Perfil publicado originalmente no Jornal do Bairro Alto em Novembro de 2012.

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Everton Mossato

É jornalista, cofundador do Parágrafo 2, “emprestado” ao funcionalismo público. Descabaçou como repórter em jornais de bairro de Curitiba. Já teve uns blogs e editou o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Aprecia o ritmo de produção intermitente e acredita que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

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