a240666a6d7d197337672314c51dc89cHoje, caros leitores, e em muitos outros dias que virão, será um tanto difícil extrair de mim quaisquer variedades de cores. Aviso-vos, de antemão, para que cessem imediatamente esta leitura caso inutilmente esperem de mim qualquer beleza. E àqueles que, por ventura, já experimentaram minhas narrativas amargas com notas de acidez corrosiva, garanto-lhes meu chorume da melhor qualidade.

Dedico estas palavras aos poetas malditos de alma imunda, aos filósofos de botequim, aos adeptos do azedume existencial e aos leitores de boa vontade. Posso dizer que talvez me encaixe em alguns destes grupos, talvez todos, talvez nenhum, já tanto me faz a necessidade de pertencimento a coisa alguma.

É fato que nas últimas semanas tive toda sorte de pensamentos, dos mais sombrios sentimentos e desejos, não desejo falar-lhes sobre eles pois insisto em poupá-los de preocupações, acabaria sendo obrigada a recepcionar agentes de saúde pública em busca do meu internamento e além disso, diante de tamanha preguiça, meu café está por acabar.

Vos afirmo que, cada uma de minhas palavras é dita em sã (in)consciência e, por sua vez, permanecem inebriadas por uma hedionda sobriedade. Gostaria eu, senhoras e senhores, de ser uma escritora boêmia adepta aos vícios da alma, quão belo seria que vós pudestes imaginar a desconhecida cronista-fetiche compadecendo aos erotismos estéticos da escrita sobre as costas nuas de um amante, envolta por cigarros mentolados e gim, no entanto, sinto um tanto por decepcioná-los, mas meus tubérculos não foram infectados por quaisquer doenças dos românticos, pois aqui estou na casa de minha mãe, que assiste ao programa do Amaury Jr. enquanto eu escrevo de pijama na mesa da cozinha sendo observada por uma gata gorda que já viveu mais do que permite a elegância e que, ao invés de me concentrar no que tento dizer-lhes, me pergunto se já a alimentei. Talvez sim, ela deve ser gorda por algum motivo, afinal.

Já que os trouxe, inevitavelmente, para o seio do meu lar, permitam-me falar a meu respeito um pouco que seja, não que lhes interesse, falarei mesmo assim, contudo. Penso que se um dia ficasse famosa por algum talento estúpido qualquer, imagino o que diriam a meu respeito àqueles responsáveis pela infeliz ideia da produção de minha medíocre biografia. Indubitavelmente, meu nome entraria para o Livro dos Recordes como o “obituário humano”, já que fui em mais enterros que a formaturas ou casamentos e, quando dei por mim, havia uma seção inteira de black-ties coringa em meu armário. E como nenhuma outra partida me devastou mais do que esta última, gostaria de conversar a respeito do mais odioso dos sentimentos que dedico exclusivamente a mais cruel das forças: o tempo.

Se alguém de vocês me perguntasse agora mesmo qual o meu maior medo, responderia imediatamente, o tempo. O tempo é um velho ranzinza que menospreza nossa existência, um torturador cruel que arranca de nós uma a uma das pessoas amadas como se fossem dentes-de-leite e nos obriga a assistir nossa própria impotência. O tempo faz questão de exacerbar o quão inúteis somos diante de sua potência absoluta e ri.

Não há força como o tempo. É o tempo que nos lembra que não possuímos controle sobre coisa alguma, é o tempo que nos permite em silêncio cometer as piores gafes e gargalha diante do exaspero nosso perante a inutilidade da tentativa de conserto. O tempo me tortura ao não me deixar voltar na madrugada de 20 de dezembro de um lugar qualquer e chegar no exato momento de dizer “Abaixa essa merda e vamos para casa!” ao desesperado cuja busca pelo alívio desgraçou tantos de nós. E então eu grito! E grito!

Enlouqueço diante do infernal tic-tac, diante das infernais linhas que surgem e são constantemente apagadas de nossa história. As Moiras riem de nosso pranto enquanto brincam com os fios que sustentam nossas vidas e cortam, assim…Um simples corte que desestrutura toda a nossa existência. As velhas Moiras são servas fiéis de tempo, seguem inquestionavelmente suas vontades, meus amigos leitores. E ele, que tudo decompõe e esfacela, mantém-se perene e alheio a tudo o que nos fez sentido.

O tempo é um velho ranzinza que menospreza nossa existência, um torturador cruel que arranca de nós uma a uma das pessoas amadas como se fossem dentes-de-leite e nos obriga a assistir nossa própria impotência. O tempo faz questão de exacerbar o quão inúteis somos diante de sua potência absoluta e ri.

O tempo é Deus, o mais cruel e poderoso dos deuses. Cronos nos submete à sua infindável fome e nos subjuga à sua vontade. Onipresente, onipotente e onisciente, nada foge ao tempo. Imagino que neste momento questionam-se que, se eu odeio o tempo e tempo é Deus, logo eu odeio Deus. Pois sim, odeio Deus! Mas não o odeio apenas pelo que ele significa, por tudo o que me tira ou por tudo o que me deve, o odeio por sua indiferença. O odeio por fazer de mim tão impotente e insignificante diante do seu fluxo de normas, odeio por não fazer de mim uma igual, irmãos. O desprezo por tomar de mim o controle, por destruir e corroer tudo o que eu mais amo. O tempo é o senhor do caos e da destruição, ele não cria nada que não possa destruir ou destruir-se por si só. Pinte a varanda de sua casa, sente e espere ele destruí-la, espere ele ruir as paredes, derrubar as pilastras.

O tempo antecede a mim, a você, a meu amado que se foi e a todos nós. Ele já matava estrelas antes de sequer pensarmos em pintar cavernas. E o tic-tac permanece incólume, sereno, indiferente aos nossos gritos de desespero.

Tic…tac…tic…tac…

O tempo consumirá tudo e é só uma questão…de tempo. Enquanto isso? Ele que aguente meu azedume.

Quae facta sunt diei?
– Ex minima cupidine,
tardus desiderium,
tacet memories.

 Tempus Fugit…

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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