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O dia estava ruim, a semana um inferno, a cabeça estava doendo, a maldita sensação e borboletas dançando no estômago e o gosto de guarda-chuva na boca estava fazendo tudo amargar. Estar sóbrio era outro problema.

Era hora do almoço e o escritório estava vazio, então um jazz-bossa no playlist não era problema…

Afrouxou o nó da gravata, esticou-se na cadeira, com os polegares levados à têmpora fazendo pressão na esperança dúbia de que aliviasse um pouco a dor e a vontade de morrer.  As vezes a vida era o que fodia com tudo. Estar vivo fodia com tudo.

De quem foi mesmo a maldita ideia de colocar o seu mundo pra girar, sacudir, e rebolar na velocidade cinco?! Porra ele lembrava que pra fazer isso tinha que ter disposição, e ele não tinha nenhuma.

Levantou de supetão e decidiu                que precisava de um café, cafeína sempre ajudava a deixar as coisas mais… Toleráveis… Ou algo perto o bastante disso.

Pegou o paletó, as chaves da moto e o capacete coquinho que sempre ficava dentro do armário de sua sala. Desceu as escadas meio que correndo e chegou até a moto que estava novamente parada na vaga do chefe. Pilotava uma Shadow laranja de 1998, inteira, com pneus largos e mata cão grande.

Colocou os óculos escuros modelo aviador, afivelou o capacete ao queixo barbado e deu partida na moto.

– Que o diabo lhe carregue e pague um bom café. – cantou enquanto lembrava-se de um blues e saia do estacionamento.

Se mandou para o centro velho, e parou em um pub que além de cerveja servia café expresso de qualidade. Entrou pediu uma dose dupla do pretinho e sentou-se numa cadeira próxima a janela, assim poderia ficar de olho na moto, que como sempre estava estacionada na rua. Era uma relação de amor e falta de cuidado enorme com ela.

O pub estava razoavelmente lotado para aquela hora, ainda mais que numa sexta-feira as 12hrs era de se esperar que estivesse vazio e lotasse às 16hrs. Happy hour que era a hora do inferno, mas tudo bem ele estava sentado.

A garçonete depois de demorar uma eternidade trouxe seu café, mas tinha algo a mais ali. Uma dose enorme de whisky e um bilhete escrito em um português tão bom quanto o inglês do Joel Santana ou algo pronunciado pelo mestre Yoda. O bilhete dizia:  Sentar com você posso eu?

 – Foi aquela moça ali no balcão que mandou – Disse a garçonete sorrindo e mostrando a mulher de cabelos castanhos que o encarava.

-Obrigado. – Respondeu ele, fazendo um gesto com a mão pra que a moça se aproximasse.

Ela se levantou do banco de balcão e veio caminhando na direção dele com um sorriso que incendiou o ar. Aquilo era tudo, mulher, deusa, diaba, Vênus e sol. Vestia uma camiseta branca do Sex Pistols, calça jeans surrada, allstar azul  e uma jaqueta jeans preto desbotado.  1,60m de uma perfeição que não se vê todos os dias por aí.

Ela não fez cerimônia e se sentou na cadeira a frente dele. Com um sorriso pegou o copo de whisky que havia enviado e deu um gole sem fazer careta.

 – Café e whisky não combinam, e acho que você gosta mais de café. Sou Isabelly. – Falou com o sotaque carregado enquanto estendia a mão para um cara perplexo e maravilhado com o ser a sua frente.

Ele balbuciou seu nome toscamente, e depois de recuperar o ar, tomou um gole do café e começou a conversar como se fosse um adolescente no primeiro encontro.

Ela ao contrário dele, uma espécie de Dom pós-moderno (sim, o cara do livro Capitu), falava bastante, perguntou o que um cara como ele fazia, o que curtia além do café que ele bebia com um prazer quase sexual (palavras dela).

Em um momento no meio da conversa, depois de ter colocado Kashimir-Led Zeppelin pra tocar no jukebox, ela se debruçou sobre a mesa e segurando-o pelos cabelos cacheados e que deveriam ter sido aparados a pelo menos dois meses atrás junto com a barba, o beijou por um instante que pra ele poderia durar a vida toda.

Ele pulou pra cadeira mais próxima dela e começou a beija-la com vontade, com vontade de que o mundo acabasse enquanto estava junto aqueles lábios coloridos de um batom vermelho intenso.

Eu diria que a conversa acabou no banheiro, mas a segurança do pub pediu “gentilmente” que eles se mandassem dali antes que a polícia os tirasse.

Subiram na moto dele, ele deu o capacete pra ela e pararam no primeiro motel que passaram.

As roupas começaram a sair antes mesmo que o portão eletrônico do quarto se fechasse por completo. Quando abriram a porta do quarto ele já estava abocanhando um dos seios dela, com as pernas dela em volta de sua cintura. Alguns botões de sua camisa social foram arrancados, a calça saiu mais rápido que qualquer recorde mundial já estabelecido.

Naquele quarto não havia espaço pra fazer amorzinho, eles realmente treparam, foderam gostoso, se chuparam, se lamberam, gemeram e gozaram como nunca, como pessoas de verdade. Tiveram uma tarde fantástica, uma tarde que hoje ainda se lembram nos dias calmos de trabalho.

Ele ainda ri da advertência que levou por ter largado tudo no escritório pra ir tomar um café e acabar ganhando uma foda incrível. Ela continua sorrindo, lá em Londres, enquanto olha para a gravata do moreno barbudo e de cabelos cacheados que ela escondeu no bolso enquanto ele procurava a peça sob a cama.

Ela ainda tem a gravata junto ao filtro dos sonhos, e ele ainda tem o bilhete no guardanapo manchado de café com um português horrível, mas com uma lembrança do caralho.

Afinal a vida é foda parceiro, mas as vezes te proporciona fodas incríveis e muito acima da média pra uma sexta-feira que tinha tudo pra dar errado.

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Biólogo com especialidade em toxicologia alucinógena por formação, toca contra-baixo por teimosia, escreve por necessidade, mas a sua real vocação é almoçar. Escreve no seu blog acamadepregos mas nem sempre.

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