Fotografia de Christian Hopkins, 2013.

Fotografia de Christian Hopkins, 2013.

Os risos do lado de fora mantinham-se surdos ao choro baixinho da garota que sufoca-se em pranto no escuro do quarto. A melodia gritante que os fogos emitem causam-lhe o mais profundo pavor e asco, tiros luminosos aos céus que não atingem a escuridão que lhe permeia.

O tiro…cada estouro lhe violenta a alma, traz de volta à ela a explosão de alívio das dores daquele que um dia fez de sua vida alguma coisa de bonita. Dois metros entre os que riem e a que chora mostram-se um profundo abismo que ecoa das mais sombrias camadas da Terra. “Sorria!”, ordenam à menina.

A força hercúlea que lhe exigem para mostrar os dentes lhe tortura o espírito, cala-se em grito. Calem-se! Deixem-me, por favor! Deixem-me! Deixem-me! Deixo-lhe! Deixaste-me! Por quê? Dê-me ao menos uma resposta, por quê?? Por que me humilhas ao tirar de mim, de maneira tão vil, a tua importância? Porque me deixaste para viver a vida sem as tuas respostas?

Sustentada por ganchos pontiagudos na face que lhe perfuram a carne, a menina mostra os dentes como um animal domesticado a todos os ilustres convidados. Sorria! Pule! Deite! Finja-se de morta! NÃO! De morta, não! De que valeria meu corpo deitado se o seu não estará ao lado? Fiquei sozinha assim, abandonaste-me ao fim.

E não perdoo não, senhor! Manterei-me viva só de ruim. Roubaste minha felicidade, pois trate de devolvê-la! Vou ser feliz, por mim e por ti, por dois, por ambos, por nós, por pura teimosia. Quis ficar em silêncio, problema seu, pois agora não já não podes mais me responder com o dedo em riste, há de me ouvir, sim senhor!

A chorosa menina dos ganchos permeia sorridente à mesa. Sorria, menina. Sorria para que não percebam que a acidez do vinagre lhe corrói a alma, sorria.

“Obrigada pela bebida, é vinagre? Percebi, dizem que esta é a melhor safra. Delicioso, sinto as notas em meu paladar…Ah, o prato também é ao molho de vinagre? Fantástico! E a sobremesa, mousse de vinagre? Ah, sim, perfeito.”

Perfeito o gosto agridoce que lhe desce à garganta, ofendendo-a com carinho, invadindo-a em sua cólera senil. E assim é o gosto do vinagre…

Comentários

Comentários

About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

Related Posts