Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia

Imagem- Google Imagens

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“Sempre mais do mesmo
Não era isso o que você queria ouvir?”
Legião Urbana

 As tropas marcham em direção à população aglomerada na praça. Manifestantes preparam-se para o conflito eminente e, dada a prática cotidiana e bem conhecida por todos nós por parte da polícia, o conflito é anunciado e seu final é previsível: bombas de gás e efeito moral, tiros com balas de borracha, diversas pessoas presas e feridas e um manifestante morto. A notícia, muito bem coberta pelas grandes corporações de informação, não dá conta dos fatos ocorridos. Estão todos no mesmo saco e sob as mesmas alcunhas: terroristas, vândalos, baderneiros…

Neste ano, em que relembramos com tristeza aqueles anos de chumbo onde o grito ficava preso a garganta, expresso no falar para o lado e no olhar para o chão, talvez estejamos nos esquecendo de observar o mundo ao nosso redor para perceber o que permanece deste e de outros momentos sombrios de nossa história. O quadro acima, que poderia ser o de um período autoritário qualquer, é o de uma manifestação corriqueira deste nosso fatídico 2015, em plena “democracia”. Nos esquecemos – talvez propositalmente – de nossa história de sangue e fúria, em que a “democracia” nos permite “escolher” um Médici ou um Collor de Melo.

 Após a “independência”, reinou no Brasil um império, nada democrático, que foi deposto em nome daqueles que pregavam a “democracia”. Tivemos, daí por diante uma república “democrática” militar, com Marechais e Coronéis “pacificando” revoltas populares em todo o país, dos quais os massacres de Canudos ou do Contestado, ou mesmo a greve operária de 1917 nos fornecem boas referências. Logo após, um Estado Novo surge com uma nova “democracia”, bem aos moldes dos grandes ditadores fascistas da Europa – Franco e Mussolini – termina por torturar e matar boa parte da esquerda comunista e anarquista da época. Tratava-se de um tirano bem vestido da sua roupagem de “pai dos pobres”. Estávamos, mais uma vez, “pacificados”.

 Entre 1946 e 1964 tivemos então suspiros de “democracia” – ela, de novo – em uma semi-ditadura baseada, para Lincon Secco em “eleições diretas (sem os analfabetos) [em que] os presidentes assumiam (mas sofriam sucessivos golpes), tínhamos um sistema partidário (sem PCB) e tribunais independentes (que permitiam a repressão política). O governo Dutra matou quase uma centena de comunistas. ” Mesmo dentro deste contexto, pairava ainda uma suposta “ameaça comunista”, difundindo o terror na população e legitimando o Golpe civil-militar de 1964, comprovadamente articulado, junto a outros em toda a América Latina, com apoio do imperialismo Norte Americano através do embaixador Lincoln Gordon, inaugurando uma mais uma época de seríssima repressão à população e aos movimentos sociais.

 Mas depois veio a “redemocratização”, que levou à presidência José Sarney, líder do partido dos militares – o ARENA –, e que hoje é presidente do maior partido do país e principal base aliada da presidência da República. Mas desde então parece que está tudo bem com esse pequeno pedaço de chão chamado Brasil. Continuamos “pacificados”

Estamos pacificados em relação à recente ocupação do complexo da Maré pelo Exército Brasileiro; pacificados em relação ao número de mortos e desaparecidos nas favelas brasileiras que é, hoje, maior que em qualquer ditadura explicita; pacificados em relação ao Carandiru, Pinheirinho, Eldorado dos Carajás ou dos diversos povos e comunidades tradicionais que sofrem um verdadeiro etnocídio, como é o casos dos índios Tupinambá, ou dos Guaraní-Kaiowá em constante guerra – desigual – contra o agronegócio.

 Estamos “pacificados” porque dia-a-dia criam-se novos “inimigos internos” à nossa frágil “democracia”, com notícias de jornal e artigos acadêmicos que nos enchem de ódio em relação aqueles que são, na verdade, vítimas de todo este processo de modernização conservadora que está incrustado no Brasil desde que aqui desembarcaram nossos colonizadores: repletos de pentes, espelhos nas mãos; tortura, morte e estupro na mente e no coração.  “Democracia” esta que é baseada em autos de resistência forjados e uma suposta guerra ao tráfico de drogas que justifica o extermínio de pretos e pobres na periferia das grandes cidades, o combate às drogas mata mais que o uso delas; baseada na propriedade privada de terras griladas que justifica a morte de diversas comunidades tradicionais – queimar índio vivo não é só uma expressão metafórica se lembrarmos que ainda no ano passado a CPT lançou uma denúncia relacionada a queima de índios em comunidades Tupinambá no Oeste da Bahia – e na forte repressão aos movimentos de contestação de toda monta.

Por outro lado, vivemos agora um momento de polarização importantíssimo, onde movimentos sociais  – mulheres, pretos, pobres, indígenas, favelados, sem terras, sem casas, e até aqueles aos quais não é permitido sequer amar (homossexuais, bissexuais, transexuais e tantos outros) – se levantam contra o aparato histórico que os oprime.

Em 2013 acendeu-se uma faísca que será difícil de se apagar. O não aumento do preço das passagens a nível nacional não foi importante meramente pelo preço das passagens em si, mas porque mostrou a diversos seguimentos populacionais que estes possuem uma força que até então era por eles desconhecida; que é possível lutar contra a opressão do Estado e de empresas particulares – que lembremos, agem juntos na maior parte das vezes – e obter vitórias importantes, mesmo sem o consentimento e apoio de organizações políticas tradicionais, como foi o caso da greve garis no Rio de Janeiro, ou as recentes ocupações de escolas por secundaristas de São Paulo, que já se espalham por Goiás. O período em que vivemos nos mostra uma necessidade de reinvenção da política, para que todos possam desta fazer parte, sem vanguarda nem retaguarda.

Ao mesmo tempo, nosso período coloca frente a frente setores que tencionam para mais democracia exigindo a punição de torturadores na ditadura e nos dias de hoje – lembrando que nas favelas e no campo a tortura policial ainda é uma triste realidade – e que disputam espaço nas ruas com reedições da Marcha da Família com Deus e pela Liberdade, ou com projetos de Lei, como o do Deputado Jair Bolsonaro, para homenagear o golpe militar de 64 enquanto promulgam-se leis “antiterrorismo” em vários âmbitos de governo.

Vivemos um tempo complexo no qual qualquer análise de conjuntura ou diagnóstico pode ser desmontado pelo desenrolar dos fatos em questão de dias, talvez horas. Mas acima de tudo, vivemos um tempo em que precisamos nos posicionar politicamente em relação às várias possibilidades que estão postas e que, na raiz de tudo, está uma disputa entre mais autoritarismo ou mais democracia real e direta. Afinal de contas, é importante ressaltar, 1964 nem está tão distante assim. Como diz sabiamente a letra interpretada pelo grupo O Rappa: “Paz sem voz não é paz: é medo”.

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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