Desde menino tinha dificuldades em fazer novos amigos.

– Você é muito retraído – dizia uma tia.

– Se solta rapaz – aconselhava a vizinha.

Mas tudo tinha mudado depois de conhecer o Facebook. Ali, as coisas em matéria de amizade iam muito bem. Mais de 200 amigos e, com alguns, até trocava ideias por meio de comentários. Curtia e compartilhava tudo o que podia.

– Afinal, precisamos agradar os amigos – pensava.

Comentava sempre com um “bom dia” ou um “boa noite”.

– Meus amigos merecem – dizia.

Ficava radiante com os likes em suas postagens e também quando alguém o marcava em uma publicação. Mesmo que fosse em um vírus sobre como perder 20 quilos em dois meses. Não tinha problema. O que importava é que tinha amigos, centenas deles. Era incrível como tudo dava certo. Ninguém se importava se ele era feio ou magro. O Facebook tinha reinventado a fórmula da amizade.

Com o tempo passou a se perguntar se o sucesso das amizades na rede social não era fruto de como as pessoas se comportavam? Um bom dia era sempre respondido. Um elogio em uma foto e um compartilhamento eram sempre agradecidos com um like.

De repente teve um insight: Estava aí a fórmula para resolver seus problemas de amizade no mundo real. Se comportar em todos os lugares como no Facebook. Não tinha como dar errado, afinal as pessoas se agradam com o comportamento dos amigos nesta rede social e, o que agrada aqui certamente agrada ali. Estava decido: Se comportaria em todos os lugares como se estivesse no Facebook.

No dia seguinte acordou mais cedo que de costume. Tomou banho, se vestiu e saiu de casa para conquistar amigos no mundo real. Já na primeira esquina encontrou uma vizinha com quem nunca tinha trocado uma palavra sequer.

– Bom dia – disse.

– Bom dia – respondeu a vizinha.

Sorriu largamente. Seu plano estava dando certo. Tinha certeza de que tomara a decisão correta. Alguns quarteirões depois viu uma moça e resolveu fazer um comentário, ou melhor, um elogio.

– Nossa, mas que princesa.

Uma cara fechada foi a resposta.

– Bem, nem todos gostam de comentários – pensou.

Mais algumas quadras e outra moça cruza seu caminho. Desta vez não comentou. Com o dedão da mão direita fez um like quando ela passou. Foi ignorado.

Mais à frente viu um grupo de senhores conversando sobre política e resolveu comentar a postagem, ou melhor, o assunto.

– Eu acho esse prefeito um tremendo ladrão. E quem apoia ele deveria ser preso também.

– Saí daqui seu louco! – bradou um sujeito exaltado.

Saiu quase correndo. Empalideceu, as mãos tremiam. Não entendia o motivo daquela reação, afinal, no Facebook esse tipo de comentário sempre dava certo. Mas aí pensou:

– Não sou amigo de nenhum deles, não enviei nenhuma solicitação de amizade. Muitas pessoas só permitem comentários dos que são seus amigos.

Estava aí o problema. Mas resolveria facilmente. Era só enviar solicitações de amizade e depois comentar e curtir à vontade. E assim o fez. Encontrou uma senhora parada em frente a uma loja e de cara perguntou:

– Quer ser minha amiga?

– Eu hein! – disse a senhora.

Solicitação de amizade não aceita. Mas não era problema, no Facebook muita gente não respondia às suas solicitações.

– Quer ser meu amigo? – perguntou ao rapaz sentado no banco da praça.

– Sai fora! – respondeu o jovem.

– E o senhor, quer ser meu amigo? – perguntou ao vendedor ambulante.

– Claro, porque não?

Bingo! A primeira amizade no mundo real. Tinha dado certo. Anos sem ninguém para conversar ou visitar e, agora, depois da fórmula mágica do Facebook, tinha seu primeiro amigo.

Muito empolgado viu duas moças conversando. Riam, se abraçavam. Pareciam ótimas pessoas para se ter como amigas.

– Querem ser minhas amigas?

– O que?

– Minhas amigas, querem ser?

– hahaha, credo!

– Por favor!

– Vamos amiga, vamos sair daqui!

Não acreditou. Tão lindas, alegres e cheias de vida. Precisava de amigas como aquelas. Então teve uma ideia:

– Se não aceitam minha solicitação de amizade, então vou segui-las. Assim ainda posso curtir e comentar o que elas fazem.

Começou então a seguir as moças. Elas demoraram a perceber, mas logo que o viram apertaram o passo. Ele também apurou o seu, afinal, estava pronto para tecer um comentário. As duas começaram a correr. Ele também. Viraram uma esquina, depois outra e ele sem perder o rastro delas. Foi então que ambas deram de cara com uma viatura policial e não titubearam.

– Tem um tarado correndo atrás da gente!

Ele parou. Empalideceu, as pernas tremiam. Os policiais não demoraram a correr na sua direção. Uma rasteira foi o suficiente para sentir o gosto da calçada quente.

– Então é você o tarado que fica correndo atrás das moças!

– Só estava seguindo elas!

– Ah, então você confessa!

– Não, eu só seguia porque elas não quiseram ser minhas amigas e eu curti muito o perfil delas!

– Safado, quero ver você se explicar na delegacia!

Não demorou e uma multidão se formou para ver a cena. E, de dentro da viatura, se podia ouvir ele gritando:

– Tudo bem, eu fico sete dias sem enviar nenhuma solicitação de amizade! Por favor moderação, não bloqueie o meu perfil!!

Ficou preso e no dia da audiência o juiz, depois de consultar o laudo psiquiátrico, decretou:

– Condeno o réu a tratamento psiquiátrico no manicômio judicial do estado.

Hoje, tem centenas de amigos. Ensinou cada um deles a erguer o dedão da mão direita e dar um like em cada situação. Em cada ala do hospital os dedões se levantam e ele fica lisonjeado com as centenas de likes que recebe dos amigos todos os dias. Nunca foi tão feliz.

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco - As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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