Eu, que estou a um passo de mudar de vida, por teimosia mantenho-me presa a um passado de fantasmas e de lembranças moribundas cujas dores quase me levaram à loucura. Dizem que há certo encanto na melancolia, aprendemos por comodismo a gostar de um mundo em preto e branco. “A poética da sofrência” matava os boêmios românticos por tubérculos infectados pelos pólens do desejo…Ok, essa frase ficou cafoníssima, eu sei! Mas, o que tem de tão atrativo no amor romântico que fazem essas cafonices destrutivas parecerem lindas?

Eu estou fugindo, admito! Decidi deixar Curitiba e buscar um novo mundo, uma terra de ninguém onde possa cravar minha bandeira em terras desconhecidas e lá construir algo novo, longe daqueles espectros sombrios do meu passado que encontro em cada esquina por onde um dia passei ao lado daquele que tanto amei. Se vai funcionar? Não sei. Dizem que certas coisas levamos dentro de nós para qualquer lugar que vamos, mas estou disposta a tentar. Meu último ano foi dedicado ao fim de minha formação acadêmica e a chegar a um novo dia sem morrer afogada por tristezas desnecessárias. Um amigo uma vez me disse: “Ah, pequena, sempre tão agarrada nas coisas, deixa ir, Andy, deixa ir!” e eu, como criança mimada, continuo insistindo no “Não!”.

Há poucos dias peguei o avião para Campinas na disputa por uma vaga no mestrado na UNICAMP, levemente nauseada e sonolenta, ligo a televisão por satélite zapeando em busca de algo que preste e paro ali, ali mesmo no Canal Brasil onde estava sendo exibido um documentário sobre o Cartola. Fico me perguntando se meu amor por Cartola é porque sua genialidade musical me encanta ou porque era um dos músicos favoritos dele….

Foi então que, lá de cima olhando aquela imensidão de terras cobertas por nuvens fofinhas, eu finalmente entendi! Olha o tamanho desse mundo, olha a quantidade de gente andando pra lá e pra cá, olha o mar! Quando foi que parei de olhar para as coisas? Quando foi que parei de pensar no que haveria do outro lado?? Quando foi que decidi me anular tanto por tão pouco? Como foi que matei minha necessidade pela descoberta? Quando foi que decidi me limitar às fronteiras de um amor possessivo nenhum pouco saudável? Por que não deixei ir quando deveria ter ido? Quando foi que me deixei destruir e tornar-me tão destrutiva ao outro? Porque querer tão pouco? Não que tenha sido realmente pouco, foi lindo quando tinha que ser, foi horrível quando fizemos ser, a verdade é que nunca vou esquecer, talvez nunca deixe de amar alguém com quem realmente quis dividir minha vida, o único que fez isso passar pela minha cabeça e o único com quem bati todos os recordes de erros que poderia ter cometido em uma relação.

Passei tanto tempo presa ao “e se” que a sensação de impotência diante de um passado que não posso corrigir e de um futuro que não vai mais acontecer que achei por muitos momentos que realmente não queria mais viver. “Se não é assim, então para mim chega!”. Ah, pequena Padawan… Pedi desculpas a Cartola e a ele (que veria isso provavelmente como uma ofensa), desliguei a televisão, me desliguei do avião e dele, encontrei coisa melhor para fazer. Fiquei ali olhando aquela infinidade de chão e tentando contar quantos passos meus seriam necessários para atravessar aquilo tudo e a sensação de conforto diante do privilégio de estar acima do mundo foi simplesmente indizível!

Tem tanta coisa no mundo mais incrível que o amor romântico que destrói e faz destruir, quer um exemplo? Aquele cheirinho incrível de livro velho da edição rara de capa dura que você achou por 2 reais no sebo, cheiro de comida fresquinha de vó, sombra fresca em dia quente, tirar o sutiã depois de um dia inteiro de trabalho…ah, tanta coisa! E a gente aqui, chorando por apego, grudado nas coisas! Solta o gatinho, Felícia, sufoca não! Está tudo errado com um amor pelo qual você precisa implorar, se é assim…solta, Felícia! Isso, boa menina.

A sensação de plenitude que ter asas me trouxe (emprestadas gentilmente por um avião da Azul) me fez lembrar de tanta coisa que só quem consegue ver as coisas de cima tem a capacidade de captar a poesia que é estar vivo, de entender que a gente carrega conosco cada pedacinho de gente que passou por nós e que isso só vira um peso se assim deixarmos ser.

Mas vai, menino, meu amorzinho, voa! Que saudade vou sentir, mas está na hora de te deixar ir. A gente se encontra por aí, pode demorar porque o mundo é assim, do tamanho do mundo.

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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