Esta história é baseada em fatos reais. Os nomes não foram modificados por que não tenho a mínima ideia de quais sejam e quaisquer sinais de absurdos podem ter sido gerados por devaneios de minha mente criativa, porém saibam filtrá-los pois os relatos a seguir são absurdos por si só…

“Sábado, 07 de novembro de 2015. Numa noite frustrante para esta garota que vos fala cujo desejo de assistir ao Olmo e a Gaivota de Petra Costa no Festival de Cinema da Bienal Internacional de Curitiba foi castrado por uma gigantesca fila e a triste notícia de ingressos esgotados, assisti a uma sessão de curtas que estava disponível no mesmo horário. Após a sessão, desci a Comendador Araújo com alguns amigos e no caminho nos deparamos com um carro prateado daquelas banheironas antigas e dentro dele havia uma noiva a espera de sua entrada triunfal, aparentemente não tão triunfal assim, pois pareceu-nos que quem estava atrasado era o noivo. Gritamos maldosamente um “É cilada, Bino!” e rimos entre nós.

Algumas quadras adiante, nos despedimos e cada um seguiu seu rumo, atravessei da Praça Osório daquele jeito “quem tem cu tem medo”…Funcionários da técnica concluíam os últimos ajustes do palco da Corrente Cultural na Boca Maldita e dei de cara comum casal de noivos entre roupas alugadas, sorrisos apaixonados e câmeras sustentadas por fotógrafos entediados no ensaio de casamento mais clichê do ano, segundo dados do IBGE. Saltei por cima dos obstáculos matrimoniais seguindo meu caminho e foi aí que ela apareceu…

Como uma donzela de filme da Disney, de sapatinhos brancos, vestido da melhor renda, véu esvoaçante e uma enorme coroa de brilhantes que lhe daria um status de rainha. Passou por mim como uma fada livre e flutuante cujos pezinhos pareciam sequer tocar o chão, segurava a barra do vestido em um misto de loucura e alívio. De passos mais que apressados a dama da coroa de brilhantes corria em direção a um possível horizonte de esperança. E eu? Travei.

Perdi o rumo, esqueci o que estava pensando e fiquei ali parada com cara de idiota tentando entender o que estava acontecendo e de repente, por pouco não sou atropelada por um desesperado noivo que dizia aos berros:

– Clara, volta! Não faz isso comigo, só quero te fazer feliz!

Clara, com pontinha de raiva respondeu sem parar de correr, – Feliz? Eu nunca quis essa palhaçada e você sabia disso! E em meio a gritos de “Por favor!” me surge subindo a rua um pai capitalista que só sabia dizer que havia pago pelo casamento, e então, a ex-noiva que corria cada fez mais rápido e num súbito de ódio por seu progenitor encheu a boca para exclamar pomposos “Foda-se! Foda-se” e enquanto um grupo de curiosos se juntava a mim, um homem de meia idade, roliço e seboso corria com dificuldade devido à sua pança sustentada por um suspensório que a fazia parecer maior do que já era. Ele estava acompanhado de dois baita homões de terno e ao para com a mão no peito como se estivesse prestes a enfartar, esticou o braço e direção à noiva desertora evidenciando uma gigantesca pizza sob seu braço e comandava exasperado aos sentinelas do penduricalho de brilhante inintencionalmente surrupiado, “A tiara, pelo amor de Deus, pega a tiara dela!”.

E assim, diante dessa cena escalafobética, permaneci parada na calçada como silente voyeur até eles virarem a esquina e sumirem na noite. Continuei estática sem ter certeza se estava entre a realidade, o sonho, o devaneio ou uma pegadinha do Programa do Silvio Santos que possivelmente vai exibir minha cara de boba em rede nacional. Quando voltei a mim, cheguei em casa e contei para minha mãe enquanto seu olhar me julgava com desconfiança por trás daqueles óclinhos de meia-lua cuja armação foi herdada de minha falecida avó. Ao deitar em minha cama dei por mim insone com o infeliz pensamento de que deveria ter corrido atrás para saber como acabou o barraco, pois a curiosidade estava me consumindo! E então, mais importante que o depois fiquei tentando imaginar como poderia ter sido o “antes”…

Parei de pensar naquele ser místico que passou por mim como “A noiva” e passei a pensar nela como “A Clara”, a mulher de classe alta, do casamento por pressão social aparentemente contrário à sua vontade, do noivo cuja intenção era cravar uma bandeira em seu peito sob o jocoso discurso do “só queria te fazer feliz”, do pai/porco chauvinista mais preocupado com o mal investimento do evento do que com a felicidade da filha. Como devem ter sido os preparativos? Como deve ser escolher o bolo, o cardápio, as flores, o vestido de má vontade sustentando sorrisos falsos diante dos elogios das amigas/irmãs/primas/tias cujo sonho era ser Clara acreditando que ela finalmente havia alcançado a suprema felicidade? A sensação de sufocamento, o suor frio, o medo, a indecisão, a frustração…A sensação de que não haveria mais escapatória diante do “sim” e, por fim a decisão. NÃO! A noiva virou Clara, que virou maratonista, que virou James Bond, que virou uma nova espécie de Carmen San Diego em mais uma de suas fugas espetaculares. Clara correu como Antoine em Os Incompreendidos de Truffaut em direção ao mar pela primeira vez…

Clara é cada uma de nós que foi criada para servir a um homem sob a máscara de uma felicidade incompleta e inquestionada. Quantas Claras não conseguiram correr? Quantas Claras lavam louças com crianças aos berros penduradas em seu pescoço enquanto seu príncipe encantado está sentado diante da televisão alheio a qualquer crise? Q        uantas Claras fazem o jantar para seu marido quando, assim como ele, também está exausta de um dia de trabalho? Quantas Claras olham para a janela da cozinha sonhando com o mar de Truffaut?

Na noite do dia sete de novembro Clara correu por todas nós. Então corra, Clara, corra!”

Comentários

Comentários

About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

Related Posts