Coluna ¡Buenos días, América!

“O que se deve exigir do escritor,
antes de tudo, é certo sentimento íntimo,
que o torne homem do seu tempo e do seu país,
ainda quando trate de assuntos remotos
no tempo e no espaço.”
Machado de Assis
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Joaquim Maria Machado de Assis – o mestre na periferia do capitalismo, como denomina Roberto Schwarz – foi homem de seu tempo e de seu país. Um grande observador da formação da sociedade de seu tempo. Filho de família humilde e, embora embranquecido nos livros, era negro. Machado de Assis é autor do livro que revolucionou o modo de se fazer literatura no Brasil: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Livro este que só a dedicatória já dá o tom do que está por vir.
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Ao abrir o livro, já sabemos que estamos diante de uma das maiores obras já escritas. No entanto, ele nos consegue surpreender ainda mais. Uma importante característica da obra de Machado é que, embora tenhamos o narrador Brás Cubas como protagonista, contando-nos a todos suas memórias, nenhuma personagem é totalmente secundário, todas elas são dignas de análise e têm extrema importância para que compreendamos a maneira como o autor escrevia seu tempo, o que justifica a escolha da personagem a ser analisada aqui: o moleque Prudêncio.
Desde de a minha primeira leitura de Memórias, a passagem que mais me marcou foi a de Brás, ainda criança, brincando de cavalinho no escravo que ganhara. Ironicamente, o fato é narrado como uma peraltisse do pequeno Brás, que não só ao escravo Prudêncio maltratava, mas às negras da casa:
“um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos.”
Convém lembrar, que o Memórias fora desenvolvido em princípio como folhetim, de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira, ou seja, oito anos antes da bondosa princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon Bragança e Orléans assinar a Lei Áurea. Machado, no auge da escravidão ainda, escrevia sobre o tratamento dado aos escravos, de modo a denunciar o absurdo de tal hábito.
No episódio com Prudencio, encontra-se minha tese, e o diagnóstico de uma doença que, pretensiosamente chamo de “síndrome de Prudêncio”. Explico. Brás Cubas tratava o negro como o negro daquela época “merecia ser tratado”:
“Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!” — Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia”Depois de toda a atrocidade que sofrera por parte de seu senhor, anos mais tarde, Prudêncio fora alforriado e, escravo livre, tinha ele o direito de comprar para si um escravo. Foi o que ele fez. No capítulo intitulado O vergalho, de número 68, Brás, já adulto, reconhece suas atitudes nas de Prudencio:
” era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
— Meu senhor! gemia o outro.
— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.”
O Moleque, agora crescido, descontava as surras e humilhações que sofrera noutro negro, noutro Prudêncio. Ainda assim, valente e carrasco com seu escravo, ao ver Brás se aproximar, escravo, ao ver Brás se aproximar, volta a ser servil:
“Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— É, sim nhonhô.
— Fez-te alguma coisa?
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
— Pois não, nhonhô manda, não pede.”
Foi diante disso que me deparei com uma triste realidade: há muito Prudêncios ainda, em todos nós. Minha primeira impressão desta síndrome foi no ambiente corporativo, é comum que um funcionário humilhado por seu supervisor/chefe, ao ser promovido desconte seu sofrimento naqueles que um dia foram seus semelhantes.
Essa impressão, porém, se agravara, desde as chegada dos haitianos. O negro brasileiro, que tanto sofreu, e sofre, com a marginalidade a exclusão social e o preconceito diário, trata o negro haitiano como um subespécie. Há poucos dias, um rapaz, negro, morador de um bairro pobre, ao entrar no ônibus onde eu estava, e que tinha um haitiano como cobrador, disparou dezenas de injúrias .certamente, é vitima de preconceito e, talvez para livrar-se deste peso, o reproduz, descontando naquele que, supostamente, seria o mais fraco.
O Mais triste de diagnosticar um prudencio, é saber que a visão feita por Machado há mais de um século, continua. Somos uma sociedade que não evoluiu em nada, os valores baseados na classe social e na cor da pele permanecem, mais velados que antes, mas permanecem. Ainda temos casas grandes e senzalas. Ainda somos a periferia do capitalismo e ainda temos milhares de Prudêncios, se negando a deixar de obedecer o nhonhô, concordando com aqueles que chamam o negro de vítima quando opta pelas cotas, negando sua origem negra por que tem pele branca, gente repetindo a história. A cura para essa síndrome não é nada simples, tem de haver muita luta, tem de haver gente que se nega a repetir a história, independente da cor de sua pele.

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é formada em Letras pela PUC-PR, professora de Literatura, Língua Portuguesa e Espanhol. Dizem por aí que não é mulher para casar.

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