Esse texto é uma resposta ao texto de meu amigo, Kaka Bonfim, sobre o Dia da Consciência Negra chamado Eu sou negro, e tudo bem… publicado essa semana aqui no Parágrafo 2.

Antes de apresentar meu argumento, quero deixar claro que enquanto mulher branca eu aceito a visão de Kaka, que é negro, sobre este dia que o concerne e não tenho intenção alguma ou qualquer direito de silenciá-lo. Contudo, a partir de meu entendimento sobre racismo, pesquisas sobre o tema, minha desconstrução pessoal e conversas com amigos de coletivos do Movimento Negro, formulei um argumento que tem por intuito apresentar o outro lado. Ilustrar porquê, em uma sociedade tão racista como a nossa, o Dia da Consciência Negra se faz tão importante. Sei também que é muito complicado alguém como eu escrever um texto como esse, pois enquanto branca talvez não seja meu lugar de fala. Ainda assim me arrisco, aberta à críticas, porque aprendizado nunca é demais.

Vejam bem: o Dia da Consciência Negra não é um dia de festividade aleatório, não é carnaval… É um dia de CONSCIENTIZAÇÃO como o próprio nome já diz. É um momento de discutir racismo, questionar racismo, desconstruir racismo. “Ah, mas os outros povos não têm seus dias, por que negros deveriam ter? Não há dia da consciência asiática, por exemplo!”. Justo. Acontece que, a treta do Brasil não é com asiáticos.

Asiáticos não foram arrancados de suas casas, enfiados em porões de barcos em condições sub-humanas, não foram humilhados, escravizados, espancados até à morte, excluídos, marginalizados, não tiveram sua cultura e suas crenças inferiorizadas – a cultura oriental pode ter sido fetichizada pela sociedade do espetáculo, talvez – mas pessoas negras foram. Pessoas negras sofrem na pele (literalmente) o fardo de uma herança histórica de não-humanização de suas identidades, foram trazidas como animais e têm até hoje seus corpos animalizados sobre o título de “macacos” em gritos de escárnio.

Asiáticos não são mais de 50% da população brasileira e não vivem em sua maioria em sub-empregos, em regiões pobres, sua proporção nas universidades brasileiras não é equivalente, e muito menos têm o acesso restrito a uma educação básica de qualidade. 

Kaka cita a célebre frase de Morgan Freeman em seu texto: “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece.”. Talvez Morgan esteja certo, mas tenho uma péssima notícia para ele: esse dia não chegou! Não podemos pensar ações a partir de um mundo ideal, mas a partir de um mundo tangível e nesse mundo tangível pessoas negras estão morrendo em proporções assustadoramente maiores que pessoas brancas.

Morgan Freeman

Citação de Morgan Freeman

Mais do que ouvir Morgan ou Kaka, precisamos ouvir também Dona Terezinha, mãe do menino Eduardo, assassinado por policiais militares no Complexo do Alemão. Precisamos ouvir Mãe Dede de Iansã, de 90 anos, uma mãe-de-santo que foi atacada aos gritos por evangélicos por culpa de seus “costumes demoníacos”. Precisamos, mas não podemos. Por quê?

Porque naquele mesmo dia, Mãe Dede de Iansã sentiu tanto medo que seu coração parou. A ignorância e a intolerância sobre seus costumes foram a causa dos ataques que geraram sua morte e é essa INCONSCIÊNCIA coletiva precisa ser combatida.

A ignorância gerada por um preconceito – pré-conceito, como o nome já diz –  é uma opinião construída sem qualquer exame crítico, baseado em conhecimentos de senso comum, reproduzidos pelos costumes. E sendo assim, o desconhecimento e desvalorização da cultura africana gerou medo e ódio por parte daqueles que não a compreendem e matou Mãe Dede de Iansã.

Nesta semana da Consciência Negra, crianças brancas e negras de centenas de escolas brasileiras estão munidas com suas cartolinas, canetinhas, giz de cera e purpurinas dedicando-se exclusivamente a pesquisas sobre personalidades africanas e de origem, (como Zumbi dos Palmares, por exemplo), sobre seus costumes, suas vivências, suas histórias, seus sofrimentos, suas crenças, seus deuses e seus heróis. A cultura eurocêntrica exclui dos livros de História um continente inteiro com milhões de pessoas e uma das culturas mais diversificas e ricas do mundo. E nesta semana, crianças brancas estão acessando esse conhecimento, enquanto os colegas negros ganham representatividade. E representatividade importa!

Se Kaka citou Morgan Freeman, peço licença para citar Whoopi Goldberg. Em uma entrevista, Whoopi contou sua história e a relação importante que sua vida e sua carreira teve com Star Trek e com Uhura, uma personagem negra: “Eu tinha 9 anos quando Star Trek foi ao ar. Eu olhei para tela e saí correndo pela casa, gritando: ‘Vem aqui, mãe, gente, depressa, vem logo! Tem uma moça negra na televisão e ela não é empregada!’ Naquele momento eu sabia que podia ser o que quisesse.”. E foi.

Whoopi, acostumada a não existir nos programas televisivos que consumia, existiu naquele dia e em todos os outros devido à sua identificação com Uhura, a moça negra não-subjugada na TV. O mesmo acontece com crianças negras que nessa semana descobrem um pouco mais sobre si e observam crianças brancas conhecendo-as também. Isso as une por suas diferenças, e sua humanidade está nisso, em compreenderem que existe o diferente e aceitá-lo normalmente as coloca em pé de igualdade. 

Enquanto isso, a frase de Morgan é perigosa, pois sugere que o racismo seja jogado para baixo do tapete, como se ao parássemos de falar sobre ele, magicamente deixaria de existir. E não é o que vai acontecer. Porque o racismo sempre foi silente, e só começou a mudar quando começamos a falar sobre ele.

“Whoopi contou sua história e a relação importante que sua vida e sua carreira teve com Star Trek e com Uhura, uma personagem negra: “Eu tinha 9 anos quando Star Trek foi ao ar. Eu olhei pela tela e saí correndo pela casa, gritando: ‘Vem aqui, mãe, gente, depressa, vem logo! Tem uma moça negra na televisão e ela não é empregada!’ Naquele momento eu sabia que podia ser o que quisesse.”. E foi.”

Morgan, mesmo como homem negro e capaz de sofrer racismo como qualquer outro, é privilegiado em relação aos demais, afinal é rico, bem educado e faz parte do Olimpo hollywoodiano cuja carreira segue em notoriedade. Mas Morgan é exceção, a vivência de Morgan é muito diferente da vivência da maioria das pessoas negras mundo afora… Esse mundo em que africanos morrem de Ebola e AIDS diante do silêncio do resto do mundo, esse mundo onde são dizimados em suas tribos, suas casas, nas favelas, na rua por serem negros. Essa vivência Morgan não parece ter, e não que deva ser invalidada ou silenciada assim como a de Kaka, mas ela simplesmente não pode falar por todos. Morgan não é Deus, afinal?!

Morgan é o negro cool dos filmes de comédia e ação, dos dramas familiares, do melodrama, aplaudido pelo mundo enquanto Eduardos e Mães Dede de Iansã morrem devido às suas existências incômodas e olhos virados para o outro lado da rua enquanto pedem socorro!

Nina Simone

Nina Simone

Falando sobre cultura pop, é necessário problematizar também que o silêncio de Freeman é conveniente para a indústria cultural americana cujos produtores executivos e cadeiras com poder de decisão são compostas majoritariamente por pessoas brancas. Já pensaram o que poderia acontecer se Morgan Freeman começasse a falar diretamente sobre o racismo na indústria? Nina Simone foi considerada Rainha do Jazz até começar a denunciar o racismo, então tornou-se incômoda, perdeu contratos e caiu no ostracismo.  Já pararam para se perguntar porque há tantos spots de luz branca na cara de Beyoncé em seus shows e videoclipes? Neste mercado é necessário embranquecer a negritude para que ela seja vendável.

Recentemente, Nicki Minaj revoltosa com o fato de seu vídeo Anaconda (gostos pessoais à parte) não concorrer ao prêmio de Vídeo do Ano no Video Music Awards da MTV, criticou a exclusão de artistas negras no cenário pop americano. Taylor Swift, que estava concorrendo, vestiu a carapuça e respondeu em tom vitimista que “só fez amar Nicki”, e aí a “branquinha fofa” foi atacada pela “negra barraqueira” e ficou magoada. A questão é: o problema de Nicki não era com Taylor, mas com a indústria fonográfica que reconhece muito pouco artistas negros. E ao fazer da questão um problema sobre si, Taylor tirou o foco de um questionamento sério e justo, silenciando Nicki. Ou seja: os exemplos ainda estão aí na nossa cara!

Desta forma, se Morgan assumisse publicamente um questionamento sobre o racismo em Hollywood sua carreira poderia estar em risco. Isso só mostra, mais uma vez, o quanto discutir racismo e falar sobre a negritude é essencial para reconstrução de uma sociedade…humana.

Meu nome é Andy, sou uma mulher branca tendo que falar sobre pessoas negras para que talvez assim, algumas delas pelo menos, tenham alguma voz e isso é tão preocupante quanto o próprio racismo em sua essência. A invisibilidade mata e não podemos ter um Dia da Consciência Humana enquanto TODOS os seres humanos não forem tratados como tal.

PS: Kaka, você disse que só me perdoaria pelo texto resposta se fizesse pierogi para você e te ensinasse a falar “Blaxploitation”. Vem pra Curitiba que eu faço e se fala “bléquisploitêichion”.

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About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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