Coluna Requadro 2 

Ainda que não muito empolgado pelo reboot do Homem-Aranha nas telonas, independente da guerra de fãs houve algo que me marcou nessa nova franquia do herói iniciada como Espetacular Homem-Aranha em 2012.
Em seu primeiro filme o aracnídeo enfrenta o Dr. Kurt Connors, o Lagarto e em seu segundo filme um dos vilões principais era o Electro.
Mas quem é Electro?
Electro é um vilão oldschool, caricato e de roupa carnavalesca, um Zé-Mané que ganhou poderes sobre a eletricidade em algum desses acidentes milagrosos dos quadrinhos, e é sobre o Electro que iniciarei minha argumentação.


O Electro

O Electro

Inocentemente eu quebrei uma regra importante da internet: “se não quer passar raiva, não leia os comentários”.

Nas épocas de escalação de atores para o segundo filme da franquia eis que nos apresentam Jamie Foxx para viver o vilão de poderes elétricos. Sim, Jamie Foxx, nosso intrépido Django!

Acontece que, em algum desses blogs “especializados” alguém comenta a seguinte frase: “Um negro para viver o Electro? Não acreditam, destruíram minha infância!”

Opa, espere um pouco, não sei se compreendi direito mas a pedra que fundamentava a infância desse sujeito era um vilão branco de quinta categoria do Homem-Aranha que sempre leva uns sopapos?

Seguido disso os argumentos de “canônico” (a carta da manga para amparar os gostos dos fãs) é lançado. Não era canônico o Electro ser negro. Ora, vejamos… Faz diferença para o Electro ser branco ou negro? É intrínseco ao Electro ser branco e a brancura dele está ligada com suas funções?

Sabe onde faria diferença? Se o Electro fosse um vilão filiado ao Klux Klan, lançando raios e vestido com uma fantasia branca pontiaguda, aí sim não faria sentido… mas não é o caso.

Outro exemplo que levantou uma grande manifestação foi terem usado o ator Michael B. Jordan para viver o Tocha Humana no novo Quarteto Fantástico. O que é necessário para que o Tocha seja o Tocha é que ele seja irmão de Susan Storm (e deram um jeito nisso sendo ela uma branquinha adotiva) e que receba uma alteração que o faça ganhar poderes que lhe permitam entrar em combustão. Os olhares atentos sobre esse detalhe retiraram os olhos para um dos grandes problemas do filme, o fato do Dr. Destino ser apenas outro boy.
O que é necessário e o que é suficiente para o Dr. Destino ser o Dr. Destino? Acredito eu que ele precise ser ligado às artes arcanas, além de ser um gênio inventivo e monarca da Latvéria. Seja na franquia anterior ou nessa nova não vi o vilão encarnando suas principais características… ainda assim o alvo inicial foi o ator negro em alguns círculos nerds.

Eu sempre gosto de puxar a minha defesa de “um Bane inglês”, vilão usado no ultimo filme do Batman da trilogia do Nolan. Sua nova roupagem, a ausência dos anabolizantes característicos e o fato de ser um luchador da ilha de Santa Prisca no Caribe com sotaque latino o “descaracterizam” de fato. O Bane me parece não ter estragado a infância de ninguém em sua nova encarnação nas telas… e nem estou atacando esse Bane, mas sim comparando com o caso do Electro.

Em manobras estranhas e descabidas, argumentos estranhos começam a surgir quando atores negros são escalados para viver personagens que nos quadrinhos eram brancos. Nas primeiras notícias sobre o novo Quarteto Fantástico surgiram os papos de “vocês gostariam se o Pantera Negra fosse vivido por um cara branco?”

Ah… a inversão… (suspiro)

Ora…
Será que teremos que analisar o que faz do Pantera Negra o Pantera Negra?
Rei de Wakanda, nação fictícia da Marvel situada na África Equatorial que mistura costumes tribais com tecnologia. Devemos também levar em conta seu peso fora dos quadrinhos, sua criação em 1966 e o cenário negro da época e a representatividade que isso causou. Sua dinastia se enraíza na África Equatorial e os símbolos presentes são muito fortes para poder trocar a etnia. Ser negro é uma condição necessária ao personagem, a tentativa de inverter isso é esconder um racismo atrás de argumentos rasos.

O medo de não se sentir representado nas telas assusta uma parcela dos brancos e a falta de empatia costumeira não lhes deixa pensar fora disso.

O que torna então o personagem Electro diferente do Super-Choque? (conhecido por seu desenho animado nas manhãs do SBT, mas antes disso é um personagem nascido nos quadrinhos).

Você, garoto juvenil branco poderia me indagar que: “o Super-Choque podia ser um cara branco, já que ele é só um cara elétrico igual ao Electro e não um líder de uma nação africana.”

 

Super-Choque

Super-Choque


Te respondo, my boy, mas para isso você tem que estender sua mente para fora da história apenas, ver o contexto de criação do personagem.

Vejamos, Virgil Hawkins, o Super-Choque foi criado para compor o cenário de heróis negros numa iniciativa do início dos anos 90 chamada Milestone Media fundada pelo já falecido Dwayne Mcduffie. A temática era realmente heróis negros e latinos para ganhar força em um negócio que desde sua origem foi comandado por brancos. A Milestones tinha um acordo comercial com a DC Comics, que publicava e distribuía seus gibis. Além do Super-Choque a Milestone nos trouxe o herói Icon, um alienígena aos moldes do Superman.

Para mim, uma cena muito chocante foi algo que antecedeu a criação do Lanterna Verde John Stewart (vocês sabem que existem vários lanternas verdes, certo? Pra quem não sabe, é basicamente um cargo). A cena em questão é a do branco Hal Jordan se deparando com um senhor negro que o indagava “você já ajudou gente de tudo quando é cor pela galáxia aí, mas o que fez pelos negros?” (resumidamente). Claro que o argumento de que Lanternas Verdes protegem o planeta todo e que os negros estavam inclusos pode ser usado, mas não era esse o contexto… Estamos falando de fazer algo efetivamente pelos negros enquanto eles eram segregados na Terra. Não era sobre deter um mestre do mau com algum plano maligno, era sobre os heróis entrarem em lutas de desigualdades que ocorriam de verdade. Hal Jordan não argumentou dizendo “mas eu defendo o planeta”, ele teve um momento de peso na consciência e por um instante baixou a cabeça.

“-me responda, Lanterna Verde” “-eu...não posso..”

“-me responda, Lanterna Verde”
“-eu…não posso..”

Eu poderia citar diversos outros heróis negros, como Spawn, Lanterna Verde (John Stewart), Blade, Tempestade, Luke Cage entre outros e pontuar o necessário e o suficiente para eles não caírem na ladainha do“e se forem brancos?”, mas seria desgastante fazer um por um e posso deixar isso como lição de casa para vocês.

E aí, conseguem achar condição necessária e suficiente para manter o racismo velado?

Abraço a todos, e que a luta não pare.


Swat, o grandalhão dos Armas-Vivas de Paulo José Costa.

Swat, o grandalhão dos Armas-Vivas de Paulo José Costa.

 

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É estudante de filosofia, Designer gráfico e desenhista.

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