Coluna Confortavelmente Enrockecido 

“Pra se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Vinicius de Moraes.

No Brasil, o nascimento da música negra profana, dessacralizada, surgida daquilo que se chamava, genericamente, de batuques, remonta ao século XVIII.  Esse som, até então religioso e trazido pelos escravos africanos, aos poucos foi perdendo o caráter sagrado e, do caos sonoro que se caracterizava em sua origem, ganhava canto e dança. Surgia assim o embrião do samba. Lá nos idos do século XIX os batuques se faziam ouvir também no Rio de Janeiro. A “umbigada”, dança vinda de Angola que remexia os quadris da época, era chamada de semba (palavra de origem africana). Daí, para virar samba, subir o morro onde viviam os ex escravos e ganhar o povão, foi só questão de tempo.

Abaixo uma lista de magníficos sambas tidos, por mim, como essenciais.

Batuque na cozinha

Composta por João da Baiana em 1917, mas gravado apenas na década de 60, essa canção é repleta de referências do tempo da escravidão quando o lugar dos negros era ou na senzala, ou na cozinha da casa grande cozinhando para os donos brancos.

 

Acredito sim

Esse samba de Noriel Vilela traz na letra o amor pela umbanda. A proximidade entre esses dois elementos da cultura negra e brasileira não carece de argumentação.

Agoniza, mas não morre

“O samba agoniza, mas não morre, alguém sempre te socorre…”. A letra de 1979, composta por Nelson Sargento, fala sobre os desafios do samba para se manter vivo. Primeiro diante do preconceito e da violência vivida pelos artistas que faziam samba no começo do século XX. Depois os desafios que esse estilo musical sofreu para sobreviver diante das imposições do mercado fonográfico.

Tute de Madame

Clementina de Jesus tinha 65 anos quando gravou o seu primeiro disco. A exemplo de músicos como Cartola e Nelson Cavaquinho, reconhecidos só depois de velhos, Tina foi apadrinhada pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho, que conseguiu a ela um contrato com a Odeon. Sua característica mais marcante é redefinir as tradições da música afrobrasileira – como jongo e lundu – dentro da esfera do samba. Não precisa ser historiador para perceber que canções como “Barracão é Seu” e “Tute de Madame” carregam uma herança riquíssima do que era conhecido como música popular de influência africana dos anos 1930.

O Samba é meu dom

Essa canção de Wilson das Neves é simplesmente uma declaração de amor ao samba e uma reverência aos grandes mestres.

 

Joga a chave

Mestre Adoniram! Boêmio, irônico e romântico. Esse samba é apenas um de seus tesouros.

Sorriso Negro

Essa canção de Dona Ivone Lara é um grito de amor à cultura e ao povo negro. Divina!

Alvorada

Essa obra prima do mestre Cartola é um brinde a vida e à paisagem dos morros e, ao mesmo tempo, metáfora de um grande amor.

João Ninguém

Essa canção do genial Noel Rosa é um retrato da pobreza de alguns boêmios no Rio de Janeiro no início do século XX. Pobres, mas felizes.

 

Testamento de partideiro

Para terminar um trecho do curta metragem “Partido Alto”. Nele, mestre Candeia interpreta o fabuloso samba sobre o testamento de um sambista do partido alto.

Na década de 1930, o partido-alto se popularizou nos morros cariocas. Entre um refrão e outro, os músicos criavam versos na hora, quase como repentistas. As antigas festas de partido-alto chegavam a durar dias! A partir dos anos 70, Martinho da Vila virou um músico marcante do estilo. A principal característica é a improvisação. O partido-alto se mantém, principalmente, pelo jogo de palavras encaixadas no momento certo. O estilo trata de temas do cotidiano, e sempre com o maior bom humor.

 

 

 

 

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About The Author

Dom é aficionado por música, mas especificamente pelo Rock n’ Roll e suas várias vertentes. Aprendeu crítica musical nas bodegas do Largo da Ordem como o Bills Bar e nas conversas na fila do Madrugueiro que partia ás 5 h da manhã do Terminal Guadalupe.

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