Coluna Pão e pedras: Amenidades e poesia

Ei menino! Você sabe quantos anos tenho?

Eu tenho cento e sessenta e oito anos. É porque eu conto os dias e as noites! Se a gente vive os dois, porque é que eu vou contar só os dias? Então eu tenho o que tenho.

Que bom que você parou pra me escutar. As pessoas não se ouvem, sabe, elas vivem andando por aí se escondendo, com medo umas das outras. Mas quando se chega à idade que tenho, você começa a entender as mentiras que nos contaram. Pra eles, a gente não vale nada!
Veja só, um tempo desses eu quase fui pra guerra. Isso em cinquenta e poucos, os Estados Unidos estavam naquela guerra lá na Coréia e o presidente aqui deu apoio. Eu estava no exército, praça, e estávamos com mochila e tudo pra subir no avião. Íamos ser os primeiros, depois viria mais gente. Tínhamos medo, mas cancelaram tudo de última hora. Mas se eu fosse, imagina quanta coisa poderia ter acontecido. Eu vivi tanta coisa bonita, tanta coisa que eu teria perdido. Agora imagine se eu morro lá, lutando em nome de nem sei quem? Por isso eu digo que eles não está nem aí pra gente.

O Collor cortou metade do meu ordenado. Você veja, eu trabalho a vida toda e eu estou sendo roubado. O Fernando Henrique me cortou três vezes o que eu tinha, e depois veio o Lula, a Dilma…

Eles também estão me roubando. Eu também não gosto da Dilma, mas veja só, um tempo atrás você passava por aqui e aquilo não tinha condições. Era um pessoal muito magro, que vivia perdurado nos barrancos, se alagando na beira dos rios. Agora olha só essas casinhas, todas bem construídas, com asfalto, água, geladeira. Não que não tenha coisa feia por aí, tem muita. Mas é muito diferente que naquela época.

O sujeito comprar um rádio era muito dinheiro. Tevê então era coisa de rico. Pra ouvir música era só em festa ou se juntando na casa de um amigo pra ouvir as notícias. Hoje qualquer celular velho toca rádio. Hoje o Brasil é potência mundial.

Olhe só, naquele tempo se falar por uma tela, olhando pra uma pessoa que às vezes tá do outro lado do mundo, era algo muito distante, coisa bem pro futuro. E tá aí, todo mundo no ônibus olhando a telinha. Vocês vivem uma coisa muito diferente, que eu quase não entendo. Eu penso de outra maneira. E como as pessoas não se ouvem elas não sabem disso. Elas não vivem a história, elas não sabem o tempo, elas são enganadas.

E veja só, todo mundo seguindo que nem manada. E vai você falar pra fazer alguma coisa diferente, uma coisa que eles não gostam. A coisa fica feia, o sujeito falta com educação com você e tem gente até que briga. Tudo porque elas não querem se ouvir, não querem ver que o seu problema é também o problema de todo mundo. Ou elas entenderiam que o poder, pra existir, ele tem que se realizar pra bem e pra mal. Você precisa de pobres pra ter ricos, de oprimidos pra ter opressores. Mas se a gente tira isso vai pôr o que no lugar?

O Brasil cresceu bastante, isso eu não posso negar. Mas tem gente que quer voltar atrás, porque não conhece, porque ainda não sabe. Porque hoje existem coisas que eu nem imaginava que pudessem existir um dia, e veja só como estamos. Então pro futuro podemos ter até uma noção, mas não se sabe o que vai acontecer. Eu tenho esperança que alguns de vocês estão construindo coisas lindas que eu queria muito poder ver. Mas eu não chego lá.

O problema é que enquanto isso, em nossos delírios de grandeza, gente como eu e como você vamos sendo varridos de um lado pro outro, perdendo pedaços e virando resíduo.

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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