Faziam mais de duas horas que o show do paulista Emicida tinha acabado. Depois dele haviam ainda se apresentado os curitibanos da Big Time Orchestra quando o público da Corrente Cultural começou a migrar vagarosamente para as marquises das lojas e lanchonetes da XV de Novembro. A debandada era por causa da chuva fina, dama sempre presente nos pomposos eventos da capital paranaense. Sob a proteção de concreto jovens se apertavam de maneira a se proteger dos pingos e deixar apenas os braços livres para levar latas de cerveja e litros de Fontana à boca de quando em quando.  Camisetas pretas marcavam território para o show da cantora Pitty que aconteceria à noite. Algumas famílias, senhores, senhoras, meia dúzia de PMs e uma batida ritmada que começava a atrair dezenas de curiosos.

Atrás do Bondinho, por meio de dois microfones ligados a uma caixa de som, surgia uma apresentação alternativa, misto de arte e periferia. Rappers vindos do CIC, de Colombo, Pinhais e São José dos Pinhais rimavam e improvisavam sobre violência, dificuldades da vida diária, sonhos, ação da polícia na favela e muitas outras verdades que podem caber em um rap. Ao final de cada letra aplausos e o microfone que passa para outras mãos em um democrático “open mic”. O ritmo de cada improviso é marcado pelo beat box do rapaz de moletom verde que parece ter um fôlego interminável. Mais pessoas param para ver a apresentação.

Sob a marquise da Rua XV aconteceu o freestyle

Sob a marquise da Rua XV aconteceu o freestyle

Alguém acende um baseado, mais uma garrafa de Fontana é passada de mão em mão e a música não para. “Dá uma olhada no CD desse mano que está cantando. Rap de verdade por apenas R$ 10”, oferece o rapaz de dread. É Kaue Luan, ativista do rap curitibano que organiza eventos desse estilo musical em sua casa no bairro Mercês. “Na última festa haviam cerca de 200 pessoas. A intenção é fortalecer o rap local, dar espaço para os manos mandarem suas rimas e divulgarem seu trabalho”, conta. Kaue é um dos organizadores do “Rap Du Bom”, evento de Hip Hop que terá mais uma edição no próximo sábado (14/10).

Traxx MC é o artista cujo CD é oferecido à plateia da apresentação. Buscando seu espaço no Rap há alguns anos lançou o álbum que tem 11 faixas e que, segundo ele, já vendeu mais de duas mil cópias. “É muito difícil gravar um disco de maneira independente. Mas graças a Deus fiquei seis meses desempregado e sobrevivi vendendo meus CDs”, diz.

Se não tem palco vai na rua mesmo

No 1º de outubro de 2015 a Fundação Cultural de Curitiba abriu o processo para a seleção dos artistas que pretendiam participar da Corrente Cultural desse ano. O valor disponibilizado foi de R$ 66 mil, sendo R$ 3 mil para cada uma das bandas (20 no total) e R$ 1,5 mil para DJ’s (4 no total). O resultado da seleção saiu no dia 15 do mesmo mês. Assim como no ano passado, os inscritos foram selecionados por um grupo de curadoria, composto por três agentes culturais com experiência na área.

Depois do resultado, alguns artistas curitibanos reclamaram falando em “panelinhas”. Muitos outros, porém, como o Traxx MC, não faziam sequer ideia de como se inscrever para se apresentar no evento. “Cara, não tenho ideia do que fazer para participar da Corrente Cultural. Mas não me importo, tenho minhas quebradas para mostrar meu som”, diz.

E já que não há palco, serve a marquise mesmo. “É difícil conseguir espaço, mas estamos criando o nosso por meio de eventos como o Rap Du Bom, a Batalha do Muma, entre outros. Afinal, quem gosta de Rap aqui em Curitiba sabe bem onde acha-lo”, finaliza.

O Rap Du Bom acontece no próximo sábado (14/10)

O Rap Du Bom acontece no próximo sábado (14/10)

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco - As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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