Este relato é um dos resquícios de uma tentativa de matéria um tanto quanto fracassada que pretendia fazer durante a Virada Cultural. Já que o festival se passava na rua, meu intuito era mostrar como as pessoas que fazem da rua a sua casa, ou seja,moradores em situação de rua se relacionariam com os meios e processos culturais ao seu alcance.

Minha lógica inicial era: um morador de rua é privado dos itens mais básicos de subsistência como comida, emprego, higiene…um teto com a extensão superior a de uma marquise. Com questões mais urgentes, o foco de uma pessoa em situação vulnerável está geralmente em itens tangíveis necessários à sua sobrevivência, contudo, a arte é uma das formas de expressão humana mais antigas e minha intenção era compreender como indivíduos que raramente têm acesso a ela estabelecem relações com a cultura. Foi aí que minha lógica começou a ser desconstruída pelos próprios moradores…

Ao chegar no palco da Boca Maldita, comecei a me incomodar com a ausência de moradores de rua na região, um rock pauleira tocava com um vocalista aos berros sendo ouvido por centenas de jovens se chutando e batendo os cabelos com tanta força que deixaria as competições de bate cabelo de drag queens no chinelo. Foi quando me deparei com Carlos, um morador de rua de 51 anos e cara de poucos amigos caminhando no sentido contrário do palco, perguntei se estava irritado porque alguém o havia tirado de lá e a sua resposta me surpreendeu: “Que nada! Que eu quero com esses moleques que parece que estão matando um bezerro aí? Essas música desses jovens não dá pra ouvir não. Uns ano passado aí teve Erasmo, esse eu ia e chorava, nossa senhora!”.

Pá na minha cara! Em minha primeira experiência com personagens reais deste episódio musical fui colocada frente a frente com minha visão burguesa da persona de alguém em situação de rua. Carlos me deu um choque de realidade e desconstruiu minha hipocrisia ao achar que um morador de rua gostaria de qualquer produto cultural pelo simples fato de não ter acesso a ele. Enquanto mulher de classe média, ao tentar escrever sobre uma classe a qual não pertenço reproduzi discursos e tornai-la invisível mais uma vez. A visão estereotipada construída anteriormente a mim me permitiu perceber que sob à coberta havia primeiramente Carlos, um ser humano de 51 anos de existência, um indivíduo com identidade própria cuja complexidade existencial chora ao ouvir Erasmo Carlos e torce o nariz para os garotos com o som do bezerro histérico.

Mais que a irritação pelo som, havia um descontento de outros indivíduos com a bagunça e a sujeira de “suas casas” devido ao alto fluxo de pessoas do festival. “Orra, os cara mijam em tudo!”, diz Rodrigo, 26 anos, também morador dos arredores da Boca Maldita, “Os caras tem banheiro, porra! Tem que mijar na rua por quê? E nóis vai dormir aonde agora?”. Quando perguntei se ele veria o show da Pitty, Rodrigo sorriu com malícia, “Claro que vou, nem sei quem é, mas me disseram que é gostosa…”.

O incômodo com o festival só era aliviado com as latinhas espalhadas por todo o centro da cidade que simboliza para eles algum dinheiro. A conclusão que se pode tirar disso tudo é que, apesar de um evento público e gratuito, é um evento de nicho e não, não é para todo mundo. O público da Virada é o mesmo do público pagante que mesmo com aperto consegue comprar um ingresso para o show da Pitty. Salvo a galera da periferia que vibrou ao som de Emicida, eventos como a Virada Cultural de Curitiba é uma amostra do quanto se faz necessária a produção de eventos mais inclusivos que agraciem não apenas a população de classe média, mas também as camadas mais pobres da população curitibana que possui uma cultura rica que merece ser expressa e conhecida. Atrás do palco, na Praça Osório, um grupo de rappers e b-boys da periferia fazia seu show particular a quem quisesse ver, quando questionados sobre a Virada, mostraram-se interessados em participar, mas não tinham ideia de como se incluir ou inscrever. É preciso ir além de bandas conhecidas da cena musical dos bares da cidade, para um evento curitibano é preciso trazer Curitiba.

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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