Há alguns meses, na intenção de melhorar a divulgação de um projeto pessoal na web, naquela máxima de que quanto mais gente melhor, resolvi criar um perfil fake no Facebook. A intenção era simples e, a meu ver, nada criminosa: Adicionar alguns amigos e, por meio de postagens, atrair mais fãs para uma fan page. Pensando no perfil decidi que deveria ser de uma mulher jovem e bonita (sim, tenho a ridícula visão de que pessoas bonitas chamam mais a atenção). Assim, “roubei” algumas fotos de um perfil real de outro país, criei um nome, dei uma profissão e comecei a enviar algumas solicitações de amizade. A aceitação foi boa e em menos de uma hora mais de 50 pessoas já haviam me adicionado. Porém, logo a coisa começou a ficar complicada.

Duas horas depois haviam centenas de solicitações de amizade. A grande maioria enviada por homens. “Tudo bem”, pensei. Continuei adicionando os novos “amigos”. Logo apareceu um “olá”, via inbox. Respondi com um “joinha”. Depois um “tudo bem gata? ” foi postado na time line, o qual resolvi ignorar. Mais uma mensagem, essa mais ousada dizia “delícia! ”. Bloqueei o sujeito e resolvi sair da internet.

No dia seguinte a surpresa foi grande. Haviam centenas de solicitações de amizade. Como no anterior, a maioria composta por homens. Jovens, velhos, gordos, magros e de várias nacionalidades.  Em cada foto que eu havia postado (e nem uma delas era de corpo inteiro, apenas de rosto) vários comentários elogiosos. Mais uma vez na time line choviam recadinhos “despretensiosos” e no inbox, a coisa estava feia. Uma quantidade enorme de mensagens brotava incessantemente. “Linda”, “de onde você é gata”, “bonita”, “me passa teu watts”, era as mais suaves, mas carregadas de segundas intenções porque sempre vinham acompanhadas de um “nossa, queria te conhecer?”.

Existiam galanteios de todos os estilos e entre eles algumas cantadas repugnantes se destacavam:

– Te quero delícia!

– Oi, podemos ser amigos, gostosa?

– Nossa, posso te mostrar coisas que você nem imagina.

Fiquei sem reação. Pensei em responder uma a uma mandando todos para o inferno. Mas eram muitas mensagens, algumas inclusive em outros idiomas. Nos perfis que me adicionaram havia homens de ao menos cinco países diferentes. Não me perguntem o porquê, não sei responder. Decidi ignorar o assédio e usar o perfil no trabalho para qual eu o tinha criado. Mas as solicitações de amizade, os gracejos e as mensagens não paravam. Em alguns dias quase 500 pessoas (leia-se 500 homens) queriam ser amigos desse perfil fake. Pensei em continuar ignorando. Depois resolvi reagir e postei no meu mural uma frase que julguei intimidadora:

– Não é porque uma mulher te adiciona no Face Book que ela quer dar para você! #ficaadica.

Quase que imediatamente um fotógrafo curitibano, conhecido no meio artístico, ostentador de posts descolados e que defendem os direitos femininos, mandou uma mensagem irônica:

– Ah não é? haha

Respondi dizendo que chutaria a cara dele. Ele recuou e disse que eu tinha entendido errado. Mandei à merda. E passei a me questionar o quanto valia a pena manter aquele perfil ativo. No mesmo dia veio a gota d’ água: Uma foto, via inbox, mostrava um enorme pênis duro, mandado por um sujeito que eu não sabia que tinha adicionado. Isso mesmo, um pinto gigantesco, ofertado por meio de mensagem como se fosse uma espécie de suvenir. Desativei o perfil.

Diante dessa experiência dantesca imagino o que passam as mulheres diariamente no mundo virtual (nem falarei aqui do assédio diário no mundo real). Imagino como é ter que lidar com pintos brotando via inbox todos os dias. O que havia naquele perfil para que fosse encarado como uma oportunidade de sexo fácil? Como alguém acredita que um cacete via inbox vai enlouquecer uma mulher a ponto de ela largar tudo e ir correndo para uma tórrida tarde de sexo? Quando nos tornamos imbecis a ponto de crer que nossas cantadas são infalíveis e que as mulheres precisam reconhecer isso?

Uma foto, via inbox, mostrava um enorme pênis duro, mandado por um sujeito que eu não sabia que tinha adicionado. Isso mesmo, um pinto gigantesco, ofertado por meio de mensagem como se fosse uma espécie de suvenir.

Não falo aqui em nunca mais conhecer alguém por meio de uma rede social. No entanto, também são engodos as abordagens “educadas”, porque depois delas sempre vem um complemento repleto de segundas intenções do tipo “nossa gostaria muito de te conhecer, sabia? ”. Na verdade, é uma espécie de justificativa do tipo “viu, fui educado, dá pra mim? ”. Penso que se todas as mulheres que sofrem assédio no Face Book dessem print dessas mensagens e as postassem na rede social, só teríamos isso nas time lines devido a quantidade gigantesca de cantadas diárias.

Eu seria hipócrita se dissesse que nunca mandei uma mensagem com segundas intenções no Facebook. Mas depois de ter provado do meu próprio veneno penso e repenso diariamente meu comportamento neste mundo virtual. Nada de elogiozinhos baratos, nada de solicitações de amizades “despretensiosas” e nada mesmo de mensagens nojentas via inbox. Como dizia Carl Rogers, psicólogo americano, ser empático é ver o mundo com os olhos dos outros. E para os homens que não acreditam na intensidade do assédio encarado pelas mulheres no mundo virtual, sugiro que criem um perfil fake com fotos de uma moça bonita e aguardem as picas surgirem via inbox e lidem com elas, se forem capazes.

Comentários

Comentários

About The Author

José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco - As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

Related Posts