Era por volta das 4h, e o seu celular jogado em algum canto daquela pocilga que ele carinhosamente chamava de quarto, estava gritando insistentemente para que ele o atendesse. Tinha por toque BLACK DOG do LED ZEPPELIN, cara como ele adorava aquela música. Achava que era por isso que não havia se levantado para atender o maldito aparelho, mas na verdade era porque estava bêbado demais para se levantar. Olhou com os olhos semicerrados para a garota que dormia completamente nua em sua cama, alheia aos toques do celular e aos devaneios de seu proprietário. Ele reparou a forma esguia, sensual e totalmente luxuriosa que o movimento das costelas dela faziam quando respirava, e isso ou deixou ereto. Mas a realidade ainda chamava, rastejou até sua calça jeans, que por sinal estava muito molhada (ele não se lembrava de ter chovido), onde achava que o celular estava, e depois de um esforço inimaginável achou o aparelho e de uma forma desajeitada atendeu sem nem mesmo saber como. Era o sindico. Desde que o interfone tinha quebrado, lhe ligava no celular. Desta vez estava falando algo sobre ele ter estacionado em algum lugar que atrapalhava os outros moradores. Essa era a grande merda de morar no centro de São Paulo, mas ele estava bêbado e nu, não estava em condições nem de ir até a porta quanto mais tirar o carro do lugar. Desligou sem ouvir tudo que o sindico tinha pra dizer e voltou para a cama, para a aconchegante visão do subir e descer que marcava a respiração da garota de cabelos castanhos acobreados, aquilo o deixou mais duro, a cabeça girava, o mundo girava, e ele não conseguia se lembrar de como chegara até em casa.

 Sabia somente que ela já estava lá, ela sempre estava lá, tinham aquele tipo de romance não declarado, meio descarado, do jeito que ele sempre gostou. Tinha conhecido a garota numa festa da faculdade, lembrava-se de terem ficado e transado no mesmo dia, daí pra cá ela não saia mais do seu mundo meio torto, às vezes ele achava até graça. Aquela noite era uma dessas. Chegou em casa depois de uma reunião do grupo do T.C.C. Que na verdade era mais uma desculpa pra encher a cara. Era sempre assim, discutir tese dava uma puta sede e eles sabiam como matar essa sede. Matavam com álcool, e o álcool dava mais sede que era sempre matada com mais álcool.

Ela sempre dizia: estudante de psicologia é foda, sempre discute tudo no bar. Sempre tem uma desculpa, ora pra beber, ora pra transar. Bebe-se é pra abrir a mente para as discursões filosóficas. Se transa tá discutindo Freud . Vocês são foda, não sei por que ainda estou com você.

Na verdade ela sabia, ele sabia… Deus e o mundo estavam carecas de saber, ele era bêbado, fumava demais, falava demais, festejava demais, mas era fiel. Mesmo sem alianças de compromisso, sem pedidos de namoro, sem nada disso. Se alguém perguntasse pra ele o porquê de estar nas festas só para beber, ele sempre respondia: Tenho um lance com alguém, não, não é um namoro, é um lance, e tá rolando, e por enquanto rola eu deixo rolar, ou ela deixa sei lá, eu preciso de outra bebida.

Ele já tinha até conhecido os pais dela, deu de presente uma garrafa de vinho para a sua mãe e um buquê de rosas para o pai. Estava nervoso, visivelmente nervoso, trocou as bolas e ficou rindo feito bobo, todo mundo riu. O pai lhe tratou bem, não que achasse o garoto de pele escura, barba por fazer, camiseta regata, piercings e tatuagem o homem ideal pra sua filha. Mas o que podia fazer, pelo menos ela tinha parado de fumar por causa dele, mesmo ele fumando e muito.

 Voltou-se para a visão quase lúdica do corpo nu a sua frente e decidiu que era hora de voltar às ações carnais. Sentou na cama, e beijou a nuca da criatura a sua frente, e aquela bruxa que se fez fada reagiu ao toque, com um ronronar e o arrepio da pele fria, ela estava pronta, ela queria, ele também. Deslizou a boca pelo corpo, gostava do contato de sua língua com a pele dela,  certificou-se de não esquecer nenhum detalhe, nem um cantinho de pele, amava a sensação dos lábios dele nos lábios dela, adorava roçar a barba em suas coxas, ele sabia que ela adorava aquela sensação, eram um quando estavam na cama, tudo lhes era permitido. Eram indecentes, eram imorais, e diabos, eram muito sem-vergonha. Um se formando em psicologia o outro em engenharia civil, tinham futuros brilhantes, mas eles queriam mesmo era o gozo do sexo, do sexo por amor, por prazer.

 O maldito celular ainda tocava, mas que se dane, o sindico não tinha como dizer se ele estava em casa, afinal sempre largava o carro e saia de metrô. Então ele voltou sua atenção a deusa que lhe extraia tanto prazer, penetrou-a, sentiu-a contorcer-se de prazer, ela era dele, ou ele era dela , já não sabia dizer, não agora, não quando estava com ela. Chegaram ao clímax absoluto que só os amantes chegam, chegaram juntos, em uma sucessão de gemidos e ronronares desafinados, a sua pele suada, marcada, fundo pelas unhas dela, até a dor causada pelo prazer dela lhe era maravilhosa. Rolou para lado tonto, o álcool, o sexo, a falta de cafeína e nicotina no organismo, aquilo o deixava louco, e olha-la após o sexo, o deixava mais louco ainda, tinha algo de libidinoso naquele jeitinho de menina mulher. Ela lhe sorriu, e que sorriso ela tinha, a boca carnuda e vermelha em contraste com a pele branca o fez querer mais. Mas ela ronronou baixinho algo incompreensível e virou-se na tentativa de dormir. Ele deixou-a na cama a vontade, ele voltaria para lá, sabia, sempre soube, ela estaria pronta para mais, ela sempre estava pronta.

Voltou-se para a visão quase lúdica do corpo nu a sua frente e decidiu que era hora de voltar às ações carnais. Sentou na cama, e beijou a nuca da criatura a sua frente, e aquela bruxa que se fez fada reagiu ao toque, com um ronronar e o arrepio da pele fria, ela estava pronta, ela queria, ele também.

 O telefone ainda tocava, o sindico realmente era um cara insistente, mas ele não ligava, morava no ultimo andar e isso o fazia pensar que poderia fazer o que quisesse, acendeu um cigarro e foi para a sacada, completamente nu, gostava dessa sensação de liberdade, do vento contra a pele despida e suada, queria ver o sol nascer na cidade da garoa, queria ver o mundo acordar enquanto ele ia dormir. Deu uma longa tragada e olhou para os nove andares abaixo do seu apartamento. Tudo voltou a sua mente, o cigarro caiu nove andares abaixo, quando ele balbuciou um: “puta que pariu”. Sabia como tinha chegado ao apartamento, de  onde estava vindo, e o mais importante, o porque do sindico ligar tanto, havia uma aglomeração lá embaixo, muitos moradores, muitos curiosos, uma viatura de policia, e ele sabia que era o responsável por tudo aquilo, sabia o porque da calça estar molhada, sabia até onde estava o carro. Ele tinha o estacionado dentro da piscina.

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Biólogo com especialidade em toxicologia alucinógena por formação, toca contra-baixo por teimosia, escreve por necessidade, mas a sua real vocação é almoçar. Escreve no seu blog acamadepregos mas nem sempre.

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