Coluna Pão e pedras: amenidades e poesia

Vimos nos dois últimos textos o quanto o desenvolvimento das cidades pode ser expresso através da música, usando como exemplos o Heavy Metal e a música Sertaneja. Desde a crise da indústria europeia na  década se 1970, os grandes protestos mundiais contra as intervenções imperialista e colonialista pelo mundo afora, liderada pelos EUA até a intensa expropriação ocorrida no espaço agrário brasileiro, visando acelerar um processo de modernização em um país de economia basicamente agrária e baseado no latifúndio, chegamos ao migrante que se desloca para a cidade, que retomando tudo do zero, pretende reconstruir sua vida.

Mas é no momento em que a crise atinge os filhos daqueles que migraram para as favelas – não só no Brasil, mas no mundo inteiro, lembrando, como mostra Myke Davis em Planeta favela, que este é um fenômeno em todo o mundo, inclusive em economias que se dizem desenvolvidas, como os Estados Unidos – é que o capitalismo adquire sua face mais crítica. É neste contexto que surge o RAP que, sob a influência de grupos militantes negros norte-americanos como os Panteras Negras, Public Enemy, entre outros, passa a fazer, através da música, uma contestação da realidade vivida nas periferias brasileiras. Grupos como SNJ, Racionais e Facção Central o movimento do Hip-Hop no Brasil toma forma e conteúdo, acompanhado de outras formas como o Break, o Beatbox e o grafite, constituindo uma forma de manifestação artística típica dos guetos das cidades.

O Rapper conta, na forma narrativa, os acontecimentos cotidianos da favela, seu principal interlocutor. Ao ouvirem a experiência de alguém que, como eles, sobrevive a à guerra civil cotidiana, marcada pelo tráfico de drogas, crime, abandono, preconceito, provoca-se no morador da periferia uma reflexão sobre sua experiência, as alienações-desalienações que tanto o oprimem e que são simultaneamente negadas e afirmadas por este. Felipe de Moraes Nogueira diz o seguinte sobre isto em seu texto A crise da cidade e a crise da arte a partir do Hip Hop e do rap: Urbanização Crítica, Cotidiano e Espaço Vivido:

“A fala é agressiva, pois deve se impor frente a uma agressividade muito maior, a da própria sociabilidade a que está submetida. Daí vem o poder da fala, colocar-se a partir de uma posição, aquela dos vencidos e contra a posição que quer submete-la ao silêncio, a dos vencedores. A batida que a acompanha lhe dá suporte estético para a transmissão da experiência, que é expressa por meio de recursos narrativos líricos, mas sobretudo épicos.”

É no RAP que a periferia passa a existir enquanto sujeito social ativo. Existir no sentido de viver a experiência não-imediata, uma reflexão sobre o vivido que é tanto libertadora, ao questionar o trabalho, a cidade, a relação centro-periferia; quanto alienada, ao afirmar instituições como o Estado, a religião, o poder. É fugir do estereótipo do coitadinho favelado imposto pelas mídias dominantes e colocar-se se colocar no seu lugar social visando a transformação e o empoderamento de suas próprias vidas. É com a bíblia em uma mão e revólver na outra, sobreviver no inferno. Nos dizeres de Mano Brown: Aqui não tem Santo.

A crítica social, mais especificamente ao trabalho abstrato vêm vem,  no sentido que será transcrito adiante da música Periferia é periferia (em qualquer lugar):

Fudeu, o chefe da casa, trabalha e nunca está
Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar
O trabalho ocupa todo o seu tempo
Hora extra é necessário pro alimento
Uns reais a mais no salário, esmola do patrão
Cuzão milionário!
Ser escravo do dinheiro é isso, fulano!
360 dias por ano sem plano
Se a escravidão acabar pra voce
Vai viver de quem ? vai viver de que ?
O sistema manipula sem ninguém saber
A lavagem cerebral te fez esquecer
Que andar com as próprias pernas nao é difícil
Mais fácil se entrega, se omitir
Nas ruas áridas da selva
Eu já vi lágrimas, suficiente pra um filme de guerra

Assim, como denuncia a música, o trabalho já permeia por todos os meandros da vida do trabalhador, escravo urbano que trabalha o dia todo, perdendo o tempo de convivência com a família e os amigos nas várias horas de trajeto entre o trabalho e a casa. O tempo lhe escapa escapa-lhe das mãos, sendo reencontrado no bar ou na biqueira, aos fins de semana. A violência está presente em todos os momentos, nas ruas, no emprego, dentro de casa, onde mulheres e filhos são agredidos constantemente. É o demônio mais uma vez fazendo o seu papel nesta vida louca da periferia.

Irmão, o demônio fode tudo ao seu redor
Pelo rádio, jornal, revista e outdoor
Te oferece dinheiro, conversa com calma
Contamina seu caráter, rouba sua alma
Depois te joga na merda sozinho
Transforma um preto tipo A num neguinho
Minha palavra alivia sua dor
Ilumina minha alma
Louvado seja o meu senhor
Que não deixa o mano aqui desandar ah
E nem sentar o dedo em nenhum pilantra
Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei
Racionais capítulo 4 versículo 3

https://www.youtube.com/watch?v=KxtWeUCyX6s

No entanto o processo de subsunção da classe trabalhadora ao capital não se dá sem resistência. Em todo o período aqui retratado nestes três artigos, do Heavy Metal, sertanejo, RAP, Blues e Jazz , inúmeras lutas sociais são travadas. Do surgimento do MST  àqueles que ocuparam por dias os centros financeiros de Wall Street em protesto contra o capital financeiro que desalojou milhares milhares de norte-americanos de suas casas e empregos; aos movimentos sociais de todo o mundo que reivindicam alguma transformação, com servidores de e-mails e redes sociais próprias interligando-se por todo o mundo, traçando linhas de ação e estratégias a nível global; enfim, as resistências mobilizadas em torno do questionamento ao capitalismo contemporâneo são várias, movimentando massas imensas de pessoas em todo o mundo a ter a experiência de enxergar suas vidas dentro de um todo complexo e repleto de mitificações. Na Geografia, a música nos revela revela-nos dados da realidade social de uma época, sendo possível, através dela, desvendar processos político-sociais. Para Jean Pires:

“(…) é preciso compreender também que a música popular desempenha uma função social que, ainda que alienante, pode conter momentos de apropriação e ruptura, subvertendo a esfera do cotidiano pelo vivido.” (texto de camarada precisa de citação? Precisa sim, e segue aí a referência: http://www.artigos.com/artigos-academicos/geografia/16918-musica-e-geografia)

Por outro lado, tal como o Heavy Metal, o Sertanejo e o Rap RAP se espetacularizam-se, passando a falar de morte pela morte, amores impossíveis, carros, mulheres e dinheiro e reproduzindo o discurso dominante; a luta social também possui seus reveses. A Marcha com a Família com Deus pela Liberdade, que clamava pela ditadura militar no Brasil, ou os movimentos Neo-fascistas em todo o mundo são prova cabal de que mesmo a mobilização popular organizada possui ainda inúmeros limites. Cabe a nós, sem receitas prontas ou fórmulas mirabolantes viver, no sentido dado pela Internacional Situacionista, o eterno provisório. É o rever-se a todo o tempo, desapegar-se dos portos seguros que constituímos durante nossas vidas e permitir-se se permitir estar à deriva. É estar solto no mar, na tentativa de desalienar-se, organizar-se, transformar o mundo vivido. É na militância cotidiana, miúda, nas pequenas práticas que unem teoria e prática que podemos, talvez, transformar as grandes coisas deste mundo cão. Encerrando com as palavras de Charles Chaplin “não devemos temer os confrontos, pois até os planetas se chocam, e do caos é que surgem as estrelas”.

            Segue abaixo alguns ótimos exemplos de música de esquerda para nos inspirar. Seguiremos publicando mais textos (des)interessantes neste portal:

https://www.youtube.com/watch?v=5aUZ_SxMwn8

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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