Você já viu uma pessoinha? Reza a lenda que elas caminham entre nós e sequer percebemos. Se parecem com a gente, se vestem como a gente, se misturam no meio da multidão e podem até estar na sua casa! Pessoinhas são como duendes, só que ao contrário, não têm nada de mágicas nem potes de ouro (às vezes tem, mas só porque para muitas pessoinhas o ouro é só o que elas têm).

O problema das pessoinhas é que elas não se escondem, sambam sua pessoinhice na nossa cara, ficam a olhos vistos, mas escolhem ser tão insignificantes que olhar para elas é como olhar através de uma janela transparente. Por isso é tão difícil defini-las, por que elas possuem tantas formas e ao mesmo tempo nenhuma, desse jeito é praticamente impossível dizer quem são. Mas uma coisa é fato, decidida e intencionalmente pessoinhas vieram ao mundo só de passagem.

Pessoinhas são quadradas, superficiais, pouco complexas, não têm identidade nem rosto. Não possuem guilty pleasures, fetiches, opinião, cor ou cheiro. Não têm corpo, forma ou textura. Não brigam por músicas ou por filmes porque tudo é sempre “tanto faz”. Não brigam pelo último pedaço da pizza ou do bolo de chocolate. Não se questionam, não questionam os outros, não metem a mão na cara de quem ofende os seus, se omitem diante da injustiça, não gostam de bicho, de velho ou de criança. Não batem punheta nem siririca. Seu esperma não é doce, não é salgado nem tem gosto de nada, têm medo de batom vermelho, de nudez, de putaria, de tapa na bunda, de puxão de cabelo, da porra na cara, do fio-terra, da surra de pau mole, de cheiro de boceta, da foda louca, de sentar na cara de macho e dizer “chupa, filho da puta!” e de lambida no cu. Têm medo de preto, de viado e de mulher livre. Têm medo de saia curta, de tatuagem e de cabelo colorido. Tem medo de livros difíceis, de política, de poesia, de chorar quando tem vontade e vivem no binarismo porre do “isso é de homem, isso é de mulher”. Não faz o que gosta por que Deus castiga, se anulam, são escravos da etiqueta, da família tradicional, da moral e dos bons costumes. Têm medo do novo, do diferente e do queer. Acham que travesti é macho de saia e riem de piadas que ferem. São o novo rico, o espírito de porco, o pobre de espírito…Pessoinhas são tão inhas que até rimam com mesquinhas! São cegas, surdas e mudas seletivas e não têm nada para oferecer, e mesmo se tivessem não ofereceriam. Pessoinhas podem estar onde menos se espera, podem estar no trabalho, na academia, na faculdade. Podem ser seus pais, seu chefe…pode ser você.

Algumas teorias conspiratórias defendem que pessoinhas são criaturas enviadas pelo Capiroto para dar no seu saco. Outros defendem que se tratam de zumbis programados para andarem pela Terra sugando a vida de quem não está afim de ser pessoinha. E tem gente que acredita que é uma doença que tem cura, basta parar de frescura e resolver viver como caralhos der na sua telha, se recusar a ser pequeno, medíocre, pentelho, a serzinho. Chute o balde, venha para o lado mó legal da Força! Não há vergonha nenhum em cagar para as fórmulas. Desliga essa gigantesca máquina de xerox em que você se enfiou e pare de reproduzir discursos! Crie sua própria pintura e viva na arte que você construir com ela. E daí, se ficar uma merda? Pelo menos é a sua merda e não a merda que o mundo tem enfiado na sua goela como um foie gras humano desde o dia que você nasceu!

Nesse bonde que é o mundo você pode da tchauzinho na janela e passar reto ou descer, sentar a bica na porta do prefeito e roubar a chave da cidade, a escolha é sua! Se você se descobrir uma pessoinha, a melhor forma de se curar é olhar para tudo o que você fez e faz e pensar “Será que RuPaul me diria Shantay You Stay ou Sashay Away?”. Se for a segunda opção, meu bem, tá na hora de mudar o visual da alma, mudar os móveis e as pessoas de lugar, curtir o tempo que te resta e apostar todas as suas fichas no lip sync da Cher. Você pode até não ficar, mas bicha, a senhora foi destruidora!

Sashay Away! :*

Ilustração de Hewerton Cavera

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About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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