12169027_949284238465382_888304871_o

É madrugada e aqui estou eu, a passos entediados no último lugar do mundo, o lugar onde não mais se pisa. O lugar onde prateleiras lotadas de histórias filmadas foram substituídas pela obsolescência e rastros de pó. Pudera eu, como nos velhos tempos, caminhar por estes labirintos cinematográficos como curiosa transeunte dos primeiros anos do curso de cinema. Tão crua, tão ingênua…

Hoje, no último ano e no ápice do ostracismo de ideias que foram desgastadas pelo tempo e pela preguiça de uma rotina estéril, cultuo nesta madrugada a queda de um império. Estou sentada no chão da moribunda seção de filmes de arte que hoje guarda insípidas caixas vazias de DVDs, olho para o outro canto e vejo dois jovens inseguros e consumidos pela atração, então dois desconhecidos, observando a foto de capa de um filme cubano cuja exibição posterior os levaria ao clímax do primeiro beijo.

Transporto-me através de linhas imaginárias temporais aos acalorados dias de um maio qualquer e nos vejo deitados em uma cama, até então estranha, cujos olhares se comunicavam por constrangedora quietude que nos ensurdecia com seus gritos de desejo. No alto de sua torre na qual fui majestosamente convidada a frequentar, tornei-a minha, nossa. Um ninho protegido no alto, cujo carinho dividíamos a orgasmos sufocados, conchinhas e risos infantis.

Após cumprir com minha parte (colocando agora as linhas temporais em seu devido lugar), ouço ao fundo meus colegas na mesma correria que eu participava momentos antes enquanto descanso em meio às ruínas de uma locadora fadada a desaparecer, a silenciar-se impotente diante do avanço contínuo do tempo. Aqui, em meio a estas estantes, antes lotadas, passamos sete dias em Havana e Nadine Labaki quis saber aonde iríamos…Fomos para casa. Fomos para casa cumprir com nossas obrigações de seres errantes que cavalgavam juntos pelas linhas frágeis da História.

Este é meu último dia aqui, na última locadora do mundo, um pedaço de história hoje doente, manca e que desfalece aos poucos silenciosamente, consumida pela inevitabilidade da morte. Silenciosa como nós, que morremos em agonia (ou propositalmente nos matamos) dentro um do outro. Nós e a locadora nos tornamos edifícios corroídos que se decompõem em uma pós-vida bucólica fadada ao silêncio. Uma locadora tão perto de onde você está agora e ao mesmo tempo tão distante. Essa ausência me apavora e morro de medo de caminhar por estas linhas nunca antes escritas infectadas por minha melancolia senil.

 Sentada aqui neste chão de corredor vazio de locadora vazia com o peito pulsante sufocado pelo conflito. Socorro, Nadine, e agora aonde vamos??

  • Ilustração de  Hewerton Kavera

Comentários

Comentários

About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

Related Posts