Um dos itens em pauta na reunião daquele bimestre era a troca de cortinas nas salas de aula, no caso, de azuis para vermelhas.

A discussão, que deveria ser simples e rápida, acabou se estendendo por toda a tarde, de forma quase acalorada.

O professor de história pediu a palavra. Lembrou que o vermelho historicamente teve uma conotação esquerdista e isso poderia causar problemas à escola, visto que o governo de então era de direita.

O professor de sociologia protestou dizendo que o vermelho, embora tenha uma conotação esquerdista, deveria ser colocado, pois essa mudança contribuiria para a concepção democrática da escola, a mudança, do azul direitista para o vermelho esquerdista, demonstrava o fundo revolucionário da mudança.

A professora de artes discordou, e disse que o vermelho, por ser uma cor quente, não deveria estar em sala, pois poderia conter influências psicológicas de agitação, o que atrapalharia as aulas. O matemático achou que as formas retangulares das novas cortinas não estariam justapostas corretamente e que o importante era a forma e não as cores.

Consultado, o professor de filosofia disse que o que se discutia era besteira, pois a cor era uma concepção epistemológica baseada nos sentidos e que, talvez, isso nem exista, tendo como base a experiência empírica da cor vermelha, uma vez que os sentidos nos enganam.

A professora de línguas discursou sobre a origem etimológica da palavra vermelho e acabou mostrando como se fala esta cor em outros idiomas. A professora de gramática corrigiu todos os erros de discurso dos professores o que deixou o clima ainda mais quente. O professor de física esboçou um calculo sobre a reflexão da luz com o vermelho em sala e concluiu que seria melhor deixar o azul, do que discordou a professora de biologia, dizendo que o vermelho demonstrava a vida, pois dependemos dos glóbulos vermelhos para viver.

Consultado, o professor de filosofia disse que o que se discutia era besteira, pois a cor era uma concepção epistemológica baseada nos sentidos e que, talvez, isso nem exista, tendo como base a experiência empírica da cor vermelha, uma vez que os sentidos nos enganam.

A professora de educação física disse que pouco se importava, pois suas aulas não dependiam de sala. O professor de geografia disse que, apesar da utilidade das cortinas em sala, comprá-las significa contribuir para o sistema fabril contemporâneo, a produção em larga escala de tecidos deve ser analisada desde a colheita do algodão e se ter em mente as condições dos trabalhadores que se sacrificam para que tal escolha esteja em pauta. O professor de química não opinou, pois isso nada tinha a ver com sua área de trabalho.

A pedagoga, para tentar resolver a questão, propôs uma análise dos encaminhamentos metodológicos de troca de cortinas e, não conseguindo chegar a uma conclusão, resolveu fazer uma ata.

No dia seguinte a funcionária da escola, lendo a ata da reunião produzida pela pedagoga, não conseguiu entender se trocava ou não as cortinas azuis pelas vermelhas. Viu que estava na hora do seu café, tinha tanta coisa para fazer que tirou as cortinas e não colocou nada, tendo depois que assinar uma advertência por não seguir as resoluções da reunião de professores.

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Rafael Pires de Mello

Rafael Pires de Mello é formado em filosofia pela UFPR, gosta de inutensílios como cinema,literatura,música e é claro o maior de todos, filosofia. Tem a tendência de chorar com música romântica quando bebe demais.

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