Coluna Pão e pedras: amenidades e poesia

No texto anterior, refletimos sobre a forma como o Heavy Metal expressa a crise da indústria inglesa na década de 1970. Em uma sociedade globalizada, onde nenhum fato, seja onde for, ocorre de maneira isolada, cabe-nos entender os rebatimentos desta crise em outros locais do planeta. Logo, tal como Capitu que após a suposta traição a Bentinho dá um salto rumo à Europa, faremos aqui o caminho contrário. Saltemos da Europa para o Brasil, e de salto em salto construamos nossa até então confusa argumentação.

Aqui o contexto já é outro. A modernização forçada e o levante de movimentos sociais na cidade e no campo impõem à maior parte da América Latina ditaduras militares altamente autoritárias, articuladas e conduzidas diretamente pelos donos do poder norte-americanos. A expropriação de terras de comunidades camponesas e indígenas em todo o país, em conjunto com a modernização da indústria nas grandes cidades provoca o deslocamento de populações inteiras rumo às grandes cidades. Eis que se inicia a era da música sertaneja.

Com modas de viola, por muitas vezes acompanhadas de acordeom, estas músicas retratam a saudade de um campo idealizado, romantizado. Era a saudade de um rural que nunca existiu, um passado utópico e ufanista, próximo do que eram os romances medievalistas da Europa. Segue a letra/composição de Saudades da minha Terra interpretada por Belmonte e Amaraí:

 De que me adianta viver na cidade

Se a felicidade não me acompanhar

Adeus, paulistinha do meu coração

Lá pro meu sertão, eu quero voltar

Ver a madrugada, quando a passarada

Fazendo alvorada, começa a cantar

Com satisfação, arreio o burrão

Cortando estradão, saio a galopar

E vou escutando o gato berrando

Sabiá cantando no jequitibá

Sim, o sertanejo estava bem distante do que era a ala supostamente crítica da MPB brasileira, representada por Chico Buarque, Caetano Veloso e o movimento da Tropicália, mas expressa o intenso mau mal-estar do homem que, destituído de suas terras no “sertão”, sente-se deslocado na cidade e passa a habitar os subúrbios mais recônditos destas, preenchendo os quadros das fábricas ou da construção civil das crescentes capitais do país. Aqui também, por muitas vezes o “capeta” está associado ao urbano, à cidade, ao capitalista; Deus e os Santos aparecem como a salvação, o mito de que algo externo lhe tire tire-o daquela realidade. Como explica Francisco Oliveira, em seu livro “Crítica à Razão Dualista – O Ornitorrinco”.

“O processo de crescimento das cidades brasileiras – para falar apenas do nosso universo – não pode ser entendido senão dentro de um marco teórico onde as necessidades da acumulação impõem um crescimento dos serviços horizontalizado, cuja forma aparente é o caos das cidades. Aqui, uma vez mais é preciso não confundir ‘anarquia’ com caos; o ‘anárquico’ do crescimento urbano não é ‘caótico’ em relação às necessidades da acumulação: mesmo uma certa fração da acumulação urbana, durante o longo período de liquidação da economia pré-anos 1930, revela formas do que se poderia chamar, audazmente, de ‘acumulação primitiva’. Uma não significante porcentagem das residências das classes trabalhadoras foi construída pelos próprios proprietários, utilizando dias de folga, fins de semana e formas de cooperação como o ‘mutirão’. Ora, a habitação, bem resultante desta operação, se produz por trabalho não pago, isto é super-trabalho. (…)A industrialização, em sendo tardia, se dá num momento em que a acumulação é potencializada pelo fato de se dispor, no nível do sistema mundial como um todo, de uma imensa reserva de ‘trabalho morto’ que, sob a forma de tecnologia, é transferida aos países que iniciaram o processo de industrialização recentemente”. 

Do Heavy Metal ao Sertanejo, da transferência da crise dos países centrais para os periféricos, do processo de modernização do capitalismo surgem as grandes favelas do Brasil. A transferência da crise gerada pelo trabalho morto da indústria vem na intenção de evitar, ou pelo menos adiar, o colapso do capitalismo mundial. Todos os sujeitos-sujeitados neste processo perdem sua importância ante ao o fetiche da circulação de mercadorias. Isto está bem expresso na música Mágoas de Boiadeiro, interpretada por Lourenço e Lourival:

Cada jamanta que eu vejo carregada

Transportando uma boiada, me aperta o coração

E quando eu vejo minha tralha pendurada

De tristeza, dou risada para não chorar de paixão

O meu cavalo relinchando pasto a fora

Que por certo também chora na mais triste solidão

Meu par de esporas, meu chapéu de aba larga

Uma bruaca de carga, o meu lenço e o facão

 O velho basto, o sinete e o apeiro

O meu laço e o cargueiro, o ginete e o gibão

Ainda resta a guaiaca sem dinheiro

Deste pobre boiadeiro que perdeu a profissão

Mas se no século XX as guerras foram um momento necessário para queimar o capital excedente industrial, no século XXI isso já não é o suficiente. São necessários gastos extravagantes em reformas urbanas, revitalizações, construção de estádios e infraestruturas, destruir cidades inteiras e reconstruí-las as reconstruir logo em seguida, de acordo com os modelos desenhados por urbanistas burgueses. O trabalho morto suga toda nossa vida, transforma o trabalhador hora em um zumbi, a perambular pela cidade em busca de abrigo e emprego, hora em homens-máquina, cada vez mais explorados. O tempo de trabalho já extravasa as horas do cartão de ponto, toma todo nosso dia, das horas de lazer ao descanso.

 

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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