Eu não me lembro do nosso primeiro encontro, não lembro se trocamos beijos, se me abraçou forte, se ficamos tímidas ou se sorri para você. Tudo o que sei é que no meu primeiro encontro com o mundo, você estava lá. Me olhando com aqueles olhões de coruja na expectativa de que eu, a cegueta desacostumada com a luz no fim túnel, ou melhor, no fim do útero, lhe respondesse com a mesma intensidade. Eu não te enxergava, vó! E se enxergava, não me peça para lembrar…. Senti suas mãos quentes que me pegaram com a experiência de quem já havia tido quatro daqueles. Quatro joelhos feiosos como eu, entre eles meu pai.

Ninguém é bonito quando nasce e a senhora sabia disso, tanto sabia que veio logo o bullying: “Parece um sapinho! Oi, sapinha!”. E foi assim que me chamou durante meus primeiros anos, mas eu me vinguei, viu? Fui a membra co-fundadora da trupe das netas endiabradas da primeira geração, me vinguei de cada apertão na bochecha, cada vez que a senhora me chamou de “sapinha”. Eu e minha trupe a fizemos arrancar os cabelos e, os que permaneceram, foram se tornando brancos com o passar do tempo. Quem fala da casa da mãe Joana é porque nunca ouviu falar da casa da vó Cida, depósito da criançada marota de ânimo febril, filhos dos filhos, filhas das filhas. Famintas, histéricas e brigonas, era tanta menina emaranhada pelos cabelos que não se sabia mais quem era quem. E dá-lhe havaiana! E dá-lhe castigo! E dá-lhe chororô!

E na sala, todo mundo de cabeça baixa chorando baixinho, assistindo zoando na TV na Sessão da Tarde, a mulher das havaianas aparecia com chá gelado e bolo fresquinho, mas os pedaços tinham que ser milimetricamente cortados em tamanhos iguais, ah, se fosse maior que o da outra…E lá se iniciava outro capítulo da novela nos cabelos emaranhados e havaianas voadoras teleguiadas de alta precisão. Eu juro que ainda não entendo como depois de toda essa bagunça a senhora abria a porta do quarto e ria ao ver aquele acampamento improvisado de molecas deitadas em colchões feitos com edredons empilhados! Me pergunto se era amor ou se era porque a senhora sabia que estávamos fingindo, afinal, as quatro abraçadas sem se matarem deixaram no ar um silêncio que era de se suspeitar. E aí, Bibi entregava, sempre Bibi! Essa não se aguentava e explodia em riso. Cinco minutos, Bibi, não dava pra segurar cinco minutos?? Não entrega as parceiras! “Ah, eu sabia! Vão dormir, suas coisa!”. E assim dormíamos sob a condição de vacas amarelas e acordávamos com o cheiro do seu café misturado ao óleo quente do mugunzá somado ao apito da panela de pressão cozinhando feijão para o almoço, aquele feijão…Feijão com bacon e hortelã, alguém já viu uma coisa dessa? Hortelã?! E pensar que a senhora hoje levou contigo aquele feijão…Ah, Dona Cida! Justo agora?

A vida é uma piada sem graça, sabia? Estudei anos a fio para entrar na faculdade e anos a fio para sair dela. Me enchi de programas intelectualóides engordadores de currículo e ignorei seus saudosos “Quando você vem filha?”, “Assim que der, vó, tá tão corrido aqui…” Corri assim por tantos anos atrás de coisas que achei que a deixariam orgulhosa e não percebi que minha presença valia mais que 15 doutorados. A festa de formatura era para a senhora, vó, queria que visse sua primeira netinha formada, faltava tão pouquinho, poxa vida, tinha que ser justo agora? Que inconveniência de sua parte, que falta de educação! Eu te falei, eu te avisei: “Está proibida de ir embora, ouviu? PRO-I-BI-DA!”, custava obedecer?

Perdoa, vó! Perdoa esses sete anos de ausência, perdoa! Eu não entendi as coisas direito, achei que era importante, mas no final foi só egoísmo, perdoa! Esse negócio de abrir os olhos pela primeira vez e ver a senhora e etc, me acostumou muito mal. Acostumei-me à sua onipresença na minha vida e me esqueci de que não era eterna, perdoa!

No nosso último encontro o decoro pede black tie e voltamos ao ponto zero, mas hoje sou eu que te visito, sou eu que te enxergo e a senhora não mais me vê, mas eu ainda te sinto, como senti no primeiro dia.

Eu nunca soube o que é o mundo sem a senhora e não estou afim de saber agora, se proibi está proibido! Nunca vou deixá-la ir embora, sempre irá caminhar pelos meus sonhos e pode vir puxar a perna, ligo não. Você fez de mim parte do que eu sou e vai viver pra sempre na saudade de todo mundo que deixa para trás. Nunca te deixarei morrer, Dona Cida!

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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