Era costume dos escravos que viviam nos Estados Unidos vocalizar sua dor por meio de canções entoadas em coro. Os work songs eram comuns nas lavouras nos séculos XVIII e XIX. No entanto, as canções que representavam as dores da escravidão, da humilhação, do chicote, da separação das famílias e da morte, provavelmente já eram entoadas nos porões fétidos dos navios negreiros que cruzavam o Atlântico desde que os primeiros negros pisaram em solo Americano.

Essa dor vocalizada servia de união e representação entre os escravos e seus descendentes. A atriz inglesa Fannie Anne Kemble, que se casou com um rico plantador da Geórgia, nos dá uma ideia do que era a música dos escravos negros no diário que escreveu durante sua estadia em uma fazenda da Geórgia no começo do século XX: “As canções dos negros são extraordinariamente selvagens e difíceis de relatar. A maneira pela qual o coro explode entre cada frase da melodia cantada por uma voz solista é muito curiosa e eficaz”. Porém, apesar da maioria dos cânticos ter relação com o sofrimento dos negros, haviam também canções felizes que tornavam a sina dos escravos mais suportável: “Os negros das plantações cantam trabalhando.  Eu afirmo que há mais alegria de viver e felicidade sem nuvens entre os escravos do Sul do que em qualquer outra população laboriosa do globo”, conta a atriz.

No entanto esses cânticos, chamados de Blues pela ex- escrava Charlotte Forten (e isso é tema para outro artigo desta coluna), só ganharam popularidade em rádios e gravadoras por causa de um sujeito chamado W C Handy que, depois de viajar por diversas cidade do Tenesse e compor St. Louis Blues e Memphis Blues, canções que tiveram importância significativa para a popularização do estilo, recebeu a alcunha de “Pai do Blues”.

Mais afinal quem foi o pai do Blues?

WC Handy nasceu em 16 de novembro de 1873, em Florença, Alabama. Filho e neto de escravos já nasceu livre e não trabalhou em lavouras como seus antepassados. Entretanto carregava no sangue as lembranças e a dor que seus familiares viveram no cativeiro.

De família pobre, Handy mostrou o seu amor pela música quando ainda era criança. Com 15 anos de idade se juntou a uma produção teatral da época que tinha em sua trilha sonora canções afro americanas, algo com o que sempre se identificou. Mais tarde estudou música em Huntsville, Alabama, onde se formou em 1892. O instrumento escolhido por ele não foi um violão ou uma gaita de boca ( tão comuns ao Blues) mas uma pequena e barulhenta corneta.

WC Handy tocou em vários estados americanos.

WC Handy tocou em vários estados americanos.

Ainda em 1892 formou uma banda chamada Lauzette Quartet, com a intenção de se apresentar na Feira Mundial de Chicago no final daquele ano, mas quando a feira foi adiada para 1893, a banda foi forçada a se dividir. Handy terminou em St. Louis onde, vivendo sozinho, experimentou a pobreza, a fome e a falta de moradia, elementos que o credenciam em muito para ocupar o cargo de “Pai do Blues”.

As canções dos negros são extraordinariamente selvagens e difíceis de relatar. A maneira pela qual o coro explode entre cada frase da melodia cantada por uma voz solista é muito curiosa e eficaz

No entanto, continuou tocando sua corneta em shows. Meses depois decidiu ir para Kentucky, onde conseguiu emprego como músico.

Seu primeiro reconhecimento musical só veio em 1896, quando foi convidado a se juntar aos Minstrels de WA. Tocou sua corneta alegra, entoando seu estilo bonachão, com o grupo durante vários anos viajando pelo por diversas cidades do país. Cansado da vida na estrada, em 1900 estabeleceu-se em Huntsville, no Alabama e lá trabalhou como professor de música até 1902, quando decidiu pegar a estrada novamente.

Seus primeiros Blues

Depois de uma passagem por Clarksdale, Mississippi, onde liderou a banda Black Knights of Pyhtias, foi para Memphis e lá teve seu primeiro contato com o Blues nos clubes da Beale Street (local de onde se concentravam muitos bares de música negra no começo do século XX). Porém, há uma versão mais romântica sobre o primeiro contato de WC Handy com o Blues: Conta-se que ele ouviu este tipo de música pela primeira vez em 1903, quando viajava clandestinamente em um vagão de trem e observava um homem que tocava violão com um canivete. Porém não há fontes que confirmem essa história.

Beale Street era repleta de bares que tocavam Blues

Beale Street era repleta de bares que tocavam Blues

 Em 1909 Handy escreveu uma canção camada Mr. Crump, que era o jingle de campanha do candidato a prefeito Edward H. Mais tarde a música foi reformulada e se tornou Memphis Blues, uma canção instrumental que pouco tem das dores do Blues, mas que se tornou símbolo de divulgação desse estilo musical.

Em 1914 lançou St. Louis Blues. A canção se tornou um enorme sucesso e Handy ganhou muito dinheiro com ela. Tocada em muitos bares do sul dos Estados Unidos a St. Louis Blues ganhou ainda mais notoriedade quando WC. Handy se mudou para Nova York em 1918. A indústria fonográfica começava a abrir os ouvidos e as portas para a música negra. Até então, nunca um negro havia conseguido fazer sucesso comercial com uma canção e esse era o início de uma promissora época para a música de raiz africana.

Por meio do sucesso feito pelas canções de Handy, na década de 1920 surgia para o cenário das rádios um dos precursores do Blues: Charley Patton. Posteriormente, na mesma época, surgiram nomes como de Son House, Willie Brown, Leroy Carr, Bo Carter, Silvester Weaver, Blind Willie Johnson, Tommy Johnson entre outros. A princípio, a maioria das canções interpretadas eram cantos tradicionais como Catfish Blues e John The Revelator, músicas que tiveram vários intérpretes e versões variadas no decorrer da história. Porém, foi na década de 30 que surgiu aquele que é talvez o nome mais influente e idolatrado do blues: Robert Johnson.

Daí por diante, todo mundo sabe o resultado. O Blues se solidificou e deu origem, na década de 1950, a um dos maiores gêneros musicais da história: O Rock n’ Roll.

Comentários

Comentários

About The Author

Dom é aficionado por música, mas especificamente pelo Rock n’ Roll e suas várias vertentes. Aprendeu crítica musical nas bodegas do Largo da Ordem como o Bills Bar e nas conversas na fila do Madrugueiro que partia ás 5 h da manhã do Terminal Guadalupe.

Related Posts