Na mesa posta há pouco um mamão, um chuchu e uma berinjela levam palitos espetados com salgadinhos amarelos. Ao lado deles uma melancia, um pão caseiro, um abacaxi, um melão, banana, frango frito e um prato cheio de pastéis de ovo completam a pândega. Tudo disposto de maneira a ressaltar as cores em um banquete de encher os olhos. Em outra mesa improvisada um pequeno bolo espera para ser cortado. No lado esquerdo está uma batida sabor creme e no direito um champanhe que leva as cores e o símbolo do Internacional de Porto Alegre. Não existem colorados na festa que acaba de começar, muito menos gaúchos, a disposição das cores vermelhas e brancas é apenas mais um elemento do jogo visual cultivado pelo anfitrião.

Um salve em creole revela a chegada de mais um convidado. A festa comemora os 13 anos da haitiana Naphatalie Buvoraze que mora com os pais e dois primos em uma casa no Jardim Amélia, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Um reggae em francês, uma música em ritmo de Kompa, outra ao estilo Bachata e um sertanejo universitário tipicamente brasileiro. Os rapazes começam a dançar sem timidez, hora acompanhados por um copo de vinho tinto, hora por uma lata de Antárctica Sub Zero. Alguns de boné, outros com colares no pescoço e todos com um I Phone em mãos. Enquanto as mulheres acabam de se vestir e adornar os cabelos na casa que fica nos fundos do quintal, o pai da aniversariante, Jean Buvoraze, assa carne na churrasqueira, que assim como a garagem onde acontecerá os festejos, foi cedida pela senhoria da casa onde a família vive.

As cores na mesa agradam, além do paladar, também os olhos.

As cores na mesa agradam, além do paladar, também os olhos.

Perto das 20 h cerca de 30 haitianos falam, riem, dançam, se abraçam e confraternizam com os brasileiros que acompanham a festa. Alex Fíleos é um dos mais animados. Há dois anos no Brasil ele trabalha na construção civil, divide aluguel com seu primo Geraldo Herwil e sonha em se casar com uma brasileira. “As brasileiras são muito bonitas, quero muito se casar com uma”, diz. Mesmo encantado pelas brasileiras, fato que fica claro quando dança durante alguns minutos olhando para uma delas, ele também não dispensa investidas sobre as haitianas solteiras da festa. Aliás, falar sobre mulheres é algo que parece lhe agradar muito. “No Haiti, quando vamos a uma balada, nós homens precisamos pagar um prato de comida para as mulheres, um prato de carne com banana, por exemplo, para que elas dancem com a gente. Se não pagar elas ficam bravas. Até para as casadas pagamos, seus maridos não se incomodam”, revela.

 

As haitianas levaram horas preparando roupas e cabelos para a festa.

As haitianas levaram horas preparando roupas e cabelos para a festa.

 

Corrente migratória

Alex faz parte dos 53 mil haitianos que migraram para o Brasil depois dos terremotos que atingiram o país em 2010. Segundo a Pastoral do Migrante da Região Sul, Curitiba e Região já receberam mais de três mil, muitos deles estão na Região Metropolitana em municípios como Pinhais. E eles não param de chegar. Fíleos conta que há uma espécie de corrente de ajuda mútua. “Quando um de nós chega ao Brasil se estabelece, junta dinheiro e ajuda um parente ou um amigo que mora no Haiti a também vir para cá. Assim que o novo haitiano chega ele recebe ajuda, consegue trabalho e fica com a obrigação de ajudar outro a vir. E assim segue a corrente”.

Trazer familiares que ainda vivem no país devastado pela natureza é o sonho da maioria dos haitianos na festa. Inclusive o de Jean, que deseja trazer a irmã de Naphatalie que tem 15 anos e vive em Porto Príncipe. As dificuldades pelas quais a filha tem passado faz com que a esposa de Jean tenha dificuldades em comer, dormir e se concentrar no trabalho.

Vida que segue

Um dos elementos marcantes de uma vida nova é a chegada de uma nova vida. Assim, passando por muitos colos, principalmente dos brasileiros que acompanham a festa, duas pequenas brasileiras filhas de haitianos representam um novo ciclo. Uma com cinco e outra com dois meses. Elas são o símbolo do que buscam os imigrantes que sonham com uma recomeço no nosso país.

Os novos filhos são uma representação do recomeço para muitas famílias.

Os novos filhos são uma representação do recomeço para muitas famílias.

Além disso, na festa há duas grávidas. Denize é uma delas. Na companhia do esposo Samuel, ambos chegados de Porto Príncipe há um ano, aguarda o nascimento do bebê e sonha com a vinda dos dois filhos que ainda moram na América Central. “Queremos trazer nossos filhos que ainda vivem lá e, na companhia do novo bebê, viver em paz aqui no Brasil”, diz.

Um caldeirão de línguas

É notável a dificuldade que muitos haitianos na festa mostram ao falar português. Alguns sequer o falam. Mas é possível perceber conversas em creole (idioma nativo do Haiti), francês e até inglês. Wilbert Duwberger fala bem, mas ainda tem um pouco de dificuldades em compreender nosso idioma. Porém, quando a entrevista passa para o espanhol e para o inglês ele se empolga. Franzindo gesticula, mexe o braço, a cabeça e mostra um folego impressionante. No Brasil há cinco meses, ele dá aulas de inglês. Além do idioma mais conhecido do mundo ele também domina o espanhol e o francês. Esperto aproveita para fazer seu merchan. “Dou aulas particulares de qualquer um desses idiomas. Quem tiver interesse pode me contatar pelo telefone (41) 9644-0314”.

Fé sem fronteiras

Enfim chega o momento de cantar os parabéns para a aniversariante e quem rouba a cena é Dieuseul Delrueux. Com um bigode ralo, camisa amarela, jaqueta preta, ele, que aparenta ser o mais velho entre os haitianos da festa, vive no Brasil há dois anos. Postado no lado direito da mesa faz um discurso em creole e começa a cantar uma canção em francês. Logo é acompanhado por todos. Difícil perceber do que se trata a letra, mas a impressão é que há uma representação de pátria, de família e de saudade que fica evidente por meio de cada olho fechado. Em seguida Dieuseul, que assim como muitos haitianos é evangélico, faz uma oração abraçado à aniversariante. É algo forte. Entoada com a face voltada para o céu e com palavras em tom vibrante.

Haitianos jovens eram maioria na festa

Haitianos jovens eram maioria na festa

Canção em creole 

Momento de oração

Por fim, o “parabéns para você” é cantado de modo peculiar, metade em português, metade em francês.

Então começam a ser servidos pratos com arroz, feijão branco, beterraba, cebola e tomate cortados em rodela, frango frito e um pastel apimentado. Tudo frio. Os brasileiros são os primeiros a serem servidos. “Le blancs! ”, orienta Jean sobre quem deve receber comida primeiro. Parece estranho, mas a verdade é que todos os haitianos da festa são considerados de casa, da família e assim os brasileiros é que seriam os convidados de fora e, como manda a tradição, se servem antes. Em minutos os pratos sobre a mesa se esvaziam.

Logo alguém aumenta o volume do som e aos gritos os corpos se remexem. Braços, cinturas e pernas parecem desprezar qualquer limitação imposta por músculos, ossos e tendões. Um alarido contagiante. Algo que dura até às 23 h e que só tem fim quando a dona da casa, depois de ser questionada diversas vezes por Jean se a altura do som incomodava, pede que os festejos se encerrem. A debandada é rápida, mas não menos barulhenta do que foi a festa. Tudo é guardado em questão de minutos e a dispersão completa não leva meia hora. Abraços, risos e o fim de uma festa que não comemorou apenas os 13 anos de uma adolescente, mas que celebrou o recomeço de uma nova vida para dezenas de haitianos.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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