Coluna Pão e pedras: amenidades e poesia

A música é, até então, um tema extremamente marginal e pouco tratado quando se fala em Geografia. Este texto, assim como outros que serão publicados em minha coluna buscam, tratar do movimento da indústria na conformação das metrópoles contemporâneas assim como do seu estranhamento expresso nas formas musicais de cada época em análise. Primeiramente trataremos do contexto da indústria inglesa nas décadas de 1960 e 1970, onde a material é substituída pelo capital financeiro nos países do assim chamado capitalismo central. O desemprego e caos urbano gerados para muitas pessoas é, neste momento, expresso nos primeiros grupos de Heavy Metal surgidos na Inglaterra, onde tanto para quem estava desempregado quanto para quem continuava a trabalhar criou-se uma intensa paranoia (Paranoid), transformando os homens, cada vez mais, em apêndices de máquina.

Nesta mesma época a música sertaneja desponta no Brasil, com as modas de viola, os rasqueados, cateretês e um intenso saudosismo à vida no campo. O desenvolvimentismo e a industrialização do Brasil fazem migrar grandes levas de trabalhadores dos sertões para as grandes cidades, para habitar, em muitos casos, as enormes favelas que surgem nas periferias de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Por fim, conformadas a cidade e a metrópole brasileiras contemporâneas, a degradação da condição da classe trabalhadora permanece aumentando. As hiperperiferias tornam-se o habitat de milhões de mulheres e homens. Eis que surge o RAP (Rhythm And Poetry) que, inspirado em grupos norte-americanos deste estilo, passam a retratar e criticar a condição de vida nas favelas e na sociedade brasileira em geral. O primeiro artigo dessa coluna irá explorar este primeiro momento aqui exposto, e é o que segue.

Reflexões sobre a música, a indústria e a metrópole: Parte 1 – o Heavy Metal.

 Nossa viagem começa em 1968, na Inglaterra. Os Beatles estavam no auge de suas carreiras, e passam a cada vez mais, através de suas músicas e aparições na Televisão questionar o modus operandi da sociedade então vigente. Era declarada a guerra do Vietnã pelos Estados Unidos, escandalizando parte da população; recebendo apoio de outros tantos. O movimento Hippie estava cada vez mais difundido entre a juventude, pregando a paz, o amor, a emancipação sexual, o modo de vida comunitário e uma forte negação ao nacionalismo e à guerra. Os Panteras Negras enfrentavam as autoridades policiais e políticas – muitas vezes por meio de conflitos armados – nos Estados Unidos reivindicando os direitos das populações negras daquele país.

Eis que em Birmighan, cidade industrial da região metropolitana de Londres, surge aquela que é considerada a primeira banda de Heavy Metal do planeta: o Black Sabbath. O som pesado e repetitivo, lembrando o bater do motor de máquinas, não é mera coincidência, trata-se de uma banda formada por operários. O guitarrista, Tony Iommi, metalúrgico, havia perdido um dedo em uma prensa da fábrica na qual trabalhava. A Origem do Heavy Metal tem tudo a ver com o contexto da indústria inglesa das décadas de 60 e 70.

A indústria inglesa, altamente desenvolvida na época, apresenta meios de produção avançados. A crise que havia levado à segunda grande guerra obrigou os países do capitalismo central a transferir parte de suas indústrias para países periféricos, tais como Brasil, México, Índia, Argentina, entre outros, intensificando a divisão internacional do trabalho. O índice de desemprego é crescente na Inglaterra, e o trabalhador fabril é tanto mais dispensável quanto mais explorado. A aproximação deste homem à máquina era evidente e estava expressa nas letras de tais músicas. Eis um trecho da letra Iron Man, em tradução livre da banda Black Sabbath:

Homem de ferro

Será que ele enlouqueceu?

Será que vê ou é cego?

Será que pode caminhar?

Ou cairá ao se mover?

Terá pensamentos em sua cabeça?

Bem, apenas larguem-no ali

Por que deveríamos nos importar?

Ele foi transformado em ferro

No grande campo magnético

Ao ter viajado pelo tempo

Pelo futuro da humanidade

 

https://www.youtube.com/watch?v=mIl-kndAduY

 É evidente a aproximação do homem à máquina, não só nesta como em várias outras canções da época. Semelhante empreitada foi realizada por Fritz Lang no cinema, alguns anos antes, no filme Metropolis, de 1927. O operário, quando não era ele próprio “transformado” em máquina, era sumariamente substituído por ela. Tal fato é expresso por Marx, em fins do século XIX, no seguinte excerto: “Qualquer nova invenção que permita produzir numa hora aquilo que até então era produzido em duas horas deprecia todos os produtos homogêneos que se encontram no mercado. A concorrência força o produtor a vender o produto de duas horas tão barato como o produto de uma hora. A concorrência realiza a lei segundo a qual o valor relativo de um produto é determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzi-lo. O tempo de trabalho que serve de medida ao valor venal torna-se assim em lei de uma depreciação contínua do trabalho. Diremos mais. Haverá depreciação não apenas para as mercadorias levadas para o mercado, mas também para os instrumentos de produção, e para toda a oficina

A indústria, em seu desenvolvimento desigual e combinado, tende à desvalorização tanto dos produtos, com a queda tendencial da taxa de lucro obtida por cada mercadoria individualmente; quanto a desvalorização dos próprios meios de produção considerados “ultrapassados”. Ou seja, os investimentos em meios de produção não conseguem, em uma sociedade capitalista, ser plenamente realizados. Isto significa eu, para manter-se em concorrência com todos os outros capitalistas, cada um, individualmente, deve dispensar máquinas e insumos considerados ultrapassados, mesmo que ainda em estado de uso, para acelerar e baratear o processo de produção. Hoje isto se torna visível com a velocidade como a tecnologia – celulares e computadores, por exemplo – se tornam obsoletos, nos forçando a trocar por um modelo novo não por deixar de ser funcional, mas por ser considerado mais lento, ou menos belo que o último modelo.

Neste processo, milhares trabalhadores (capital variável) são dispensados de seus postos de trabalho no setor produtivo, engordando ou o setor terciário (não produtivo) da economia ou o exército crescente de desempregados. Temos então uma crise de superacumulação – ou superprodução – onde cada vez mais capital se acumula nas mãos de cada vez menos pessoas, tornando a exploração do trabalho das demais intensa e mal remunerada.

O capital excedente proveniente deste processo acaba tendo de ser “queimado” para evitar o colapso da economia mundial capitalista. No século XX foram necessárias duas guerras mundiais, entre várias intervenções globais, para evitá-lo. As explícitas citações a demônios, monstros, e fantasmas, incrementadas com guitarras pesadas que lembravam os sons infernais dos filmes de terror e a bateria lembrando o som do motor das máquinas e a voz próxima a um murmurar, presentes no Heavy Metal inglês desta época, explicitam as formas conscientes-inconscientes de como este processo revelava-se para parte da população da época:

https://www.youtube.com/watch?v=pf8CuLIOCwc

Generais reunidos em seus grupos

Como bruxas em suas massas negras

Mentes diabólicas tramando a destruição

Feiticeiros que constroem a morte

Nos campos os corpos queimam

Enquanto a máquina de guerra funciona

Morte e ódio à humanidade

Envenenando suas mentes devidamente lavadas

Podemos ver, então, o quanto a música de uma época pode dizer sobre os processos histórico-sociais-geográficos que ocorreram em determinada época. Neste caso, indústria e música são sim produções de um determinado ambiente e contexto.

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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