O sol ardia em Curitiba. As últimas barracas da feirinha do Largo eram desmontadas enquanto a trupe argentina espalhava seus instrumentos pela calçada da Avenida Jaime Reis. A Fantástica Orquestra de Sinais se preparava tranquilamente para a apresentação de logo mais em frente ao Fidel Bar. Lá dentro, no subsolo, a Galeria La Casamata guardava textos, pinturas, fotos e gravuras que em breve seriam devorados pelos olhares do público que começava a se aglomerar em frente ao bar. O relógio marcava um pouco mais de duas horas da ensolarada tarde de domingo (13/09) e inaugurava a exposição Sangue Sulamericano do artista Igor Moura, um projeto que começou cinco anos antes de forma acidental… ou nem tanto.

Depois de trabalhar por oito anos em uma empresa de informática, como designer gráfico, Igor fez um “acerto” e com a grana resolveu dar vida a um desejo que vinha cultivando há certo tempo: Viajar pela América Latina sem data para voltar.

Pode-se dizer que o Couchsurfing (uma espécie de troca de sofás, em que a pessoa oferece sua casa para alguém de fora morar por um tempo) foi o embrião da viagem de Igor.  “Antes da viagem comecei a hospedar muitos estrangeiros que estavam nessa onda de viajar por um, dois anos por um continente”, explica. Neste período Igor recebeu muitas dicas de seus hospedes mochileiros, que lhe ajudaram durante a viagem.

A estrutura familiar também foi fundamental para Igor concretizar sua sonhada viagem. “Eu descobri uma coisa: se você tem uma família de classe média como é a minha e não está brigado com ela, o mínimo que você vai ter é casa e comida, e isso deveria ser o suficiente para você fazer o que quisesse da tua vida”. Com o conhecimento, a segurança e a grana em mãos, Igor recebeu o último empurrão para seguir seu rumo: O peso da idade. Prestes a completar 30 anos, ele disse a si mesmo: “é agora ou nunca, vou arriscar”.

Sangue Sulamericano retrata a América Latina em fotos, textos, gravuras e pinturas| Foto: Divulgação

Sangue Sulamericano retrata a América Latina em fotos, textos, gravuras e pinturas| Foto: Divulgação

 

 Machu Picchu fica pra depois

Igor viajou com a premissa de viver com muito pouco. Ficando nos hotéis mais baratos, comendo nos restaurantes mais baratos e sempre ficando alguns dias em cada cidade visitada. “Minha pira era viajar sem celular, sem internet, sem computador. Ficar offline e buscar o caminho”. Essa premissa lhe colocou em algumas situações delicadas. “Fiquei cinco dias sem tomar banho porque não tinha chuveiro e a água do banheiro era até um certo horário”, lembra.

Ele não queria se obrigar a visitar os pontos turísticos mais conhecidos, destoando do perfil da maioria dos turistas, que batem uma selfie com uma paisagem digna de postal nas costas como se isso fosse uma conquista. “Eu não queria fazer aquela coisa de mochileiro que fica economizando o ano inteiro pra viajar um mês. Pra ir para Machu Picchu e ficar se vangloriando que foi num lugar super místico e não sei o quê, blá,blá,blá”, desdenha Igor. Em um dos textos da exposição ele diz: Machu Picchu talvez em uma outra (e espero) melhor oportunidade.

O nascimento do artista

A trip mochileira de Igor durou 10 meses. Nesse tempo ele conheceu Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador entre outras terras da nossa América Latina. Conheceu também a si mesmo, deixando pelo caminho algumas incertezas que havia colocado em suas malas quando partiu do Brasil. “Eu precisava descobrir o que eu precisava pra viver? O quanto eu precisava pra viver?”, se perguntava.

Em Bogotá Igor conheceu um americano, ou como uma amiga sua fala, um estadosunidense, artista plástico que lhe ajudou no caminho dessa descoberta: “Igor, você quer viver de arte? Produza”, sentenciou o gringo. E foi isso que ele fez. “Queria descobrir o que queria fazer da minha vida e descobri que eu realmente tinha que assumir esse meu lado artista. Mas de artista no lance de criar. Sempre criando alguma coisa com aquilo que tem. Não aquela coisa de ‘eu preciso ter um equipamento tal’. Queria criar com o que tinha na mão”.

Mesmo sem a ideia clara de que voltaria da viagem com uma exposição, ou sequer com algum tipo de produção, Igor seguiu sua inquietude e mesclou a curtição da viagem com alguns trabalhos. Em sua despedida ele recebeu um de um casal de amigos um scratch book. “Leve e use para o que você quiser, sei que você gosta de escrever, de desenhar”, disseram. “Fazia muito tempo que eu não desenhava mesmo. Usava muito o computador, fazia no máximo uma arte gráfica. Aí voltei a desenhar”, confessa Igor.  “Depois de um tempo aquele scrath book virou um projeto. “Vou fazer pelo menos um desenho de cada cidade que eu for”. Os trabalhos deste scratch book podem ser vistos na exposição Sangue Sulamericano. Para fazê-los, fica nítido que o artista buscou referências na memória e nas sensações que viveu.

Mesmo saindo do Brasil com o intuito de ficar offline, Igor postou algumas coisas em seu blog Pace is the Essence durante a viagem. Alguns destes textos foram inclusos na exposição pela curadora Carol Torres. Um destes textos me chamou a atenção e me transportou para os confins de nuestra America. Tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui:

“Há um caranguejo no banheiro!!” Diz o homem assustado. Do lado de fora, chuva e relâmpagos constantes. Limões voadores atingem o teto. O homem está sozinho e se pergunta: “De onde saiu esse caranguejo gigante?”. Sem se dar conta ele estava diante do famoso caranguejo colombiano, de cor acinzentada, manchas brancas espalhadas pelo corpo e hábitos domésticos. Ainda afobado, fechou a porta do banheiro, esperando que a criatura retornasse pelo mesmo lugar que entrou. “Provavelmente a privada”, indagou o homem, ainda meio ressabiado. (Igor Moura / Sangue Sulamericano)

No inicio da viagem Igor também produziu um diário fictício do que estava vivendo “mas chegou um momento que falei: eu preciso viver, e não ficar só trabalhando”. Foi então que decidiu só escrever de vez em quando e tirar fotos “porque isso aí é muito massa”, revela entre risos.

Igor Moura sempre quis expor seu trabalho na Galeria La Casamata | Foto: Fidel Bar

Igor Moura sempre quis expor seu trabalho na Galeria La Casamata | Foto: Fidel Bar

O retorno

Ao ouvir Igor Moura contar sua história, foi inevitável a comparação com o estadosunidense Chris McCandless que, recém formado na universidade e filho de pais abastados, larga tudo e sai numa jornada pelos Estados Unidos. Esta viagem deu origem ao livro Into the Wild, de Jon Krakauer, e também ao filme de mesmo nome, dirigido por Sean Penn. Igor já planejava sua viagem antes mesmo de conhecer a história de Chris, ou “Alexander Supertramp”, e afirma que o mais perto que chegou do personagem foi na balança. “Depois de 10 meses eu perdi 10 quilos. Então eu ia fazendo mais furos no meu cinto igual mostram no filme”, brinca Igor.

Quando voltou à Curitiba, a primeira coisa que fez foi pintar. “Eu nunca tinha pintado em tela. Aí eu comprei tinta e fui pintando as paredes de casa. Depois que acabaram as paredes eu pensei: Agora vou pintar tela”. Os quadros que Igor apresenta na exposição foram pintados a partir das fotos que fez durante a viagem.

Neste período Igor aplicou em casa o que usara durante os 10 meses de estrada. Buscou viver com o mínimo, “eu vou cozinhar minha própria comida, não vou ter celular, não vou ter internet, aí eu posso me concentrar nas pinturas”, decidiu. Foram três meses de intensa produção. “Pra você criar, quanto menos distração, quanto menos intervalos você tiver, melhor”.

No entanto, certo tempo depois de seu retorno, sua mãe adoeceu e Igor se viu obrigado a deixar o projeto de lado por cerca de dois anos. Com a melhora de sua mãe e o retorno aos trabalhos, Igor buscou antigos amigos e conseguiu fazer a primeira exposição de Sangue Sulamericano. Em 2014 o museu Curitibano Guido Viaro recebeu 17 pinturas do artista, das quais sete estão em exposição na Galeria La Casamata este ano.

Arte em tudo

A porta do Fidel Bar mal abriu totalmente e os primeiros clientes já imploravam por algo gelado para molhar suas gargantas. Lá dentro, além do saboroso cardápio do Fidel Bar, o público pode comer doces e salgados veganos preparados para o evento. Unir elementos que aproximem o espectador, e a si mesmo, das experiências que deram origem à sua obra é uma característica de Igor. Para ele esta experiência sensorial “é uma forma de trazer essa viagem pra cá e também uma forma de compartilhar isso com pessoas que não tiveram a mesma oportunidade”.

Igor é frequentador antigo do Fidel e sempre quis expor no bar comandado por Carlos Torres, que é um grande entusiasta e ajuda a movimentar a cultura na cidade. “Faz tempo que eu queria expor aqui, tem a galeria, [a exposição] tem tudo a ver com o bar”. O artista tem um caráter humanista e sua produção é inspirada nas pessoas e na relação entre elas. Expor “num bar” e de graça é mais que um prazer pessoal, é algo que norteia seu trabalho.

“A arte tem que estar em todos os lugares, tem que estar na rua, ela tem que estar no bar, tem que estar no elevador, no banheiro, na privada. Quanto mais lugar a arte estiver, melhor”, Igor Moura.

Algum tempo depois da abertura do bar e da exposição – me parece que cerca de 20 minutos argentinos – A Fantástica Orquestra de Sinais, um coletivo de músicos argentinos e brasileiros que se encontraram em Curitiba (Igor também tem participação nesta história), já tinha passado o som e estava pronta para sua apresentação. Não é exagero algum falar que a calçada ficou pequena para vê-los tocar, pois só os integrantes já ocupavam metade dela. Não acredito que Igor poderia ter encontrado sonoridade melhor para acompanhar seus quadros. O sangue latino pulsava e inspirava espectadores e ouvintes que secaram o Fidel Bar. Isso mesmo, a cerveja e o chope acabaram, e apenas as bebidas mais calientes foram deixadas para traz.

O que permanece também na Avenida Jaime Reis nº 320 são os quadros, as gravuras, as fotos e os textos do Sangue Sulamericano de Igor Moura, bem abrigados (e à venda) na Galeria La Casamata até o dia 4 de outubro.

 

Confira o teaser da exposição produzido pela Meta 101

https://www.facebook.com/igor.moura.1426/videos/987813761240238/

 

Curta um pouco do som d’ A Fantástica Orquestra de Sinais

Serviço

Sangue Sulamericano

Por Igor Moura, com curadoria de Carol Torres

Entrada Gratuita

Até 4 de outubro

Galeria La Casamata / Fidel Bar

Avenida Jaime Reis, 320 – Centro – Curitiba/PR

Quarta a Sábado das 18h às 1h e Domingo das 14h às 20h

Evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1232330256793638/

 

Blog Pace is the essence

https://paceistheessence.wordpress.com/

Site Meta 101

http://meta101.net/

 

Facebook La Casamata

https://www.facebook.com/La-Casamata-1479189452339895

 

A Fantástica Orquestra de Sinais (sound cloud)

https://soundcloud.com/afantastiscaorquestradesinais

 

Site Couchsurfing

https://www.couchsurfing.com/

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Everton Mossato

É jornalista, cofundador do Parágrafo 2, “emprestado” ao funcionalismo público. Descabaçou como repórter em jornais de bairro de Curitiba. Já teve uns blogs e editou o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Aprecia o ritmo de produção intermitente e acredita que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

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