Gregor Samsa, herói da novela ‘A metamorfose’ de Kafka, nunca foi barata. O autor o coloca como um inseto e, pela descrição asquerosa, poucos são os que não o comparam com o artrópode medonho.

A crítica afiada de Roberto Schwarz, em A Sereia e o desconfiado, coloca Gregor em posição muito interessante. Segundo Schwarz, o personagem de Kafka segue o esquema bem comum na literatura, a metamorfose. Ocorre, porém, que nosso amado inseto não se transforma novamente em príncipe com o beijo da princesa. Ninguém beija Gregor, ninguém o ama e a preocupação dos outros se passa somente dentro de sua imaginação. A maior dor de nosso herói é não conseguir cumprir com suas obrigações, desta forma, Kafka genialmente transita no âmbito da linguagem e, nestes caminhos, revela que a grande culpa de Grégor não é em ser um inseto, mas sim, pobre. O que é pior: um pobre que, por sua condição de inseto, não conseguirá pagar as contas da casa.

Adoniran Barbosa, em seus sambas eternos, cantava o crescimento urbano da capital paulista. Suas letras são uma verdadeira viagem pelo trem do progresso, porém, sem bilhete de passagem. Adoniran fez samba da perspectiva de quem não foi convidado para participar da festa do progresso, são sambas de barata, sambas de milhares de Gregores Samsa espalhados pelo imenso território nacional, samba de gente pobre. A linguagem simples não deixa dúvida do público alvo, porém, não se iluda: os tons irônicos mostram uma crítica digna de um Kafka. Crítica de gente que viu o progresso passar na Avenida São João e atropelar todos aqueles que não tiveram como acompanhar a dinâmica industrial e deixando pelo chão todas as Iracemas que de lembrança tinham somente o velho par de sapatos.

Tanto Adoniran Barbosa quanto Kafka mostram a ironia social muito bem construída nos moldes do progresso, que consiste em mostrar que o pobre que não consegue acompanhar a nova lógica do mercado, permanecendo pobre, é culpado por sua própria exclusão social. Como se o fato de ser barata não fizesse parte do progresso. O que seria dessa ideia de progresso se a grande maioria não fosse pobre? Sem as baratas a estrutura não se mantém.

A noção de que o pobre é culpado pela sua condição é alardeada desde as conversas vazias de ponto de ônibus até nos grandes best sellers vendidos em massa. 50 Tons de cinza, por exemplo, é uma compilação desse tipo de visão. Um homem ‘bem resolvido’ (entenda-se resolvido como sinônimo de homem com dinheiro) tem suas fantasias sexuais aplaudidas pelos leitores. Fantasias dignas de tirar o fôlego de quem é acostumado à coleção Julia, Sabrina e Bianca, já para os que já superaram as aventuras iniciais da adolescência, não passa de mais do mesmo.

E barata também tem fetiche? Provavelmente sim, é claro que quando são expostas até o termo utilizado é outro. Rico tem fantasias, pobre tem tara. Interessante que os suspiros tirados pelo homem bem resolvido não seriam os mesmos se ele fosse um servente de pedreiro. Ser pobre significa ter escassos direitos, nem direito de ser amado e aplaudido por suas fantasias sexuais. Servente será sempre tarado, mesmo manuseando o chicote da mesma forma de homem bem resolvido.

 Sigamos então no nosso trem, não o do progresso, mas o que leva para nossos empregos subalternos sacolejando como num samba de Adoniram, cultivando nosso maior fetiche, o de um dia, quem sabe, sermos beijados pela doce boca da fortuna e deixarmos de ser baratas.

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Rafael Pires de Mello

Rafael Pires de Mello é formado em filosofia pela UFPR, gosta de inutensílios como cinema,literatura,música e é claro o maior de todos, filosofia. Tem a tendência de chorar com música romântica quando bebe demais.

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