Coluna Requadro 2 !

A primeira vez que ouvi falar do escritor Grant Morrison foi na HQ Liga da Justiça – Terra 2 (que deu origem à animação Crise nas duas Terras) e apesar de já conhecer os personagens desse arco, a versão maligna de uma Terra paralela da Liga, o Sindicato do Crime, achei a trama muito bem amarrada nessa nova abordagem. A próxima coisa que fui ver do Morrison foi sua mexida no universo mutante da Marvel. Morrison assumiu os X-Men e fez mudanças gritantes. Conhecendo a obra atual dele, na qual sempre busca trazer algo da era de ouro/prata para a atualidade não entendo até hoje sua manobra nos X-Men; mesmo deixando passar a roupagem de couro que pegava carona nos filmes ainda sobrava a descaracterização dos personagens. Na saga E de Extinção o bom moço Scott Summers, o Ciclope dispara seus feixes ópticos contra um mutante moribundo para tirar o sofrimento, característica antes do Wolverine. Essa era a graça, tínhamos várias personalidades dentro da equipe, mesmo que estereotipadas, havia o mocinho, a mocinha, o badass, o galã e etc, não percebi resgate de algo clássico, só intenção de “abalar as estruturas”. Aquele roteiro sempre indicando decadência e acompanhado do desenhista Frank Quitely não trazia muita empolgação, gosto da arte do Quitely, mas tínhamos a ação oitentista dos mutantes, que receberam uma alta dose de adrenalina nos anos noventa e logo em seguida um corte brusco com os semblantes desanimados nos traços do Quitely acabava desanimando.

New X-Men de Grant Morrison e Frank Quitely

New X-Men de Grant Morrison e Frank Quitely

Depois Grant Morrison foi para a DC e logo fomos surpreendidos pelo rumo das coisas lá. Surge Damian Wayne, filhote do Batman com seus 10 anos e instinto assassino, criado pela mãe, a vilã Tália Al Ghul e treinado pela liga dos assassinos. Lembro que xinguei muito na época, fiz o que hoje não recomendo fazer, xinguei sem averiguar os fatos, eu nem ao menos estava lendo os títulos da DC. Muita gente achou ruim, mas pensei melhor, teria sido o medo de envelhecer que causou isso? Medo que um personagem que você gosta ganhar um pontinho a mais de maturidade ao se deparar com um filho? Sempre gostei do Batman, mas acho uma mentira essa coisa de “herói solitário”, pois vejo ele com o maior contingente de aliados dos quadrinhos. A chegada de um filho traria uma família novamente para o Morcego, e a maioria dos fãs gosta do Batman altamente depressivo e resmungão. Muitos gostam do Batman pelo mesmo motivo que gostam do Dr. House, se projetam num personagem em que está pouco se lixando para as interações humanas, tem o aval para ser xucro… bom, funciona na TV e nos quadrinhos, mas na vida real você só seria um babaca.

Batman em seu primeiro encontro com seu filho Damian.

Batman em seu primeiro encontro com seu filho Damian.

Outro momento de muito xingamento foi o de quando anunciaram a morte do Batman na saga Crise Final, outra saga que não li na época. A complicadíssima trama levava à um desfecho inusitado, Batman quebra seu voto de não utilizar armas e dispara um projétil especial contra o vilão Darkseid, ao mesmo tempo que o vilão lhe atinge com suas rajadas ômega. Muita luta, muita piração e ao final temos o Superman segurando o cadáver incinerado do Homem-Morcego.

Tempos depois me aventurei a ler o que esse tal de Morrison estava fazendo com o Batman e me deparei com um bom material, ele havia resgatado elementos importantes das era de ouro e prata, manteve canônico acontecimentos regados a LSD dos anos 60/70 dando explicações “plausíveis” (dentro do contexto). E depois de ler a trama confusa que levava o Batman à morte e juntar todas as peças veio “O Retorno de Bruce Wayne”, quando o Batman volta da morte. Sim, realmente poucos personagens dos quadrinhos ficam realmente mortos, então o anúncio de uma morte não tem mais o peso que tinha como quando mataram o Superman nos anos 90.

Acabei gostando e fui atrás de outras obras desse autor e encontrei algo que tinha a maior cara de ser uma bomba. Flex Mentallo – o homem dos músculos mistério (que?).
Se o nome já era estranho, a imagem que se seguia do tal Flex era pior: um sujeito musculoso de peito peludo e sunga com estampa de oncinha. Numa rápida folheada nessa HQ podemos ver Flex fazendo poses de fisioculturista com cara de canastrão. Era tanta tosqueira junta que resolvi ler.

Parecia ser uma tosqueira da boa, tive que ler!

Parecia ser uma tosqueira da boa, tive que ler!

Flex Mentallo exprime bem as eras dos quadrinhos, ouro, prata, bronze, das trevas e moderna costurando um roteiro que apresenta níveis diferentes de realidade, quase (quaaaase) como no filme A Origem (Inception). Conforme eu lia percebia camadas de realidades diferentes que se tocavam sutilmente, que se influenciavam metafisicamente ou até fisicamente.

Na história, um decadente músico ingere uma grande quantidade de drogas (lícitas e ilícitas) para dar vida a sua vida frustrada e liga para uma central de apoio para conversar com alguém. Enquanto isso flashes de memórias se cruzam com um outro universo, o de Flex Mentallo, personagem caricato que o músico criou em sua adolescência em fanzines agora perdidos em alguma gaveta. A narrativa nos leva a uma jornada pelo caminho de criação de um autor de HQ, transformando assim Flex Mentallo numa metalinguagem para o gênero dos quadrinhos.

Sabe aquela coisa de quando você é criança e acredita em coisas tipo… um comercial de shampoo com umas vitaminas sendo representadas por bolinhas mágicas em CGI abrindo e fechando as escamas dos seus cabelos? O princípio da criação de Flex Mentallo parte dessa visão tosca e inocente. Morrison usou como base para a criação do personagem uma antiga propaganda de manual de exercícios do fisiculturista Charles Atlas que vinha na contracapa de antigas publicações, daquelas de recortar o selo e enviar pelo correio.

Propaganda daquilo que viria ser inspiração para a criação do personagem.

Propaganda daquilo que viria ser inspiração para a criação do personagem.

O letreiro “Heroi da Praia” que se projetava sobre a cabeça do jovem magro que agora estava musculoso era palpável aos olhos de uma criança, e não era diferente dentro da história de Flex Mentallo, pois ao flexionar os músculos o letreiro de “Herói da Praia” acendia sobre sua cabeça e seus músculos podiam então distorcer o espaço (louco, né?). Não é para fazer sentido, não é esse o foco dessa história, mas sim nos dar um mergulho no processo criativo de uma HQ e na relação do autor com suas criações. Em Flex Mentallo acabei gostando dos desenhos do Frank Quitely, não sei o motivo.

Por fim, queria dizer que não gosto de recomendar leitura, filmes etc pois acho isso algo muito pessoal, a expectativa aumenta e “gosto é gosto”, mas se quiser dar uma lida em algo diferente e numerar quantas camadas de realidade consegue encontrar, Flex Mentallo acaba sendo bem interessante. Não se baseiem em blogs, sites, tweets para avaliar se gostaram de algo, não sejam conhecedores da cultura pop apenas compartilhando e lendo títulos das manchetes sensacionalistas por aí. Já acompanhei incontáveis rebuliços revoltosos quando alguma decisão editorial lá na gringa é tomada, os “fãs” se revoltam, xingam e um ano depois, quando a publicação chega ao Brasil ninguém mais lembra da manifestação, pois não estão lendo de verdade. Fica a dica =)

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É estudante de filosofia, Designer gráfico e desenhista.

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