No século XIX, quando a corte portuguesa dava grandes bailes ostentando riqueza e distribuindo títulos de duques e duquesas em meio a bandas, frangos assados, perus, friambes, porcos recheados e muito vinho do Porto, havia no país uma efervescência artística impulsionada principalmente pela literatura romântica. Poetas, dramaturgos e pintores retratavam o estilo de vida da corte em uma espécie de enaltecimento dos acontecimentos que rondavam Dom João VI e os demais fugitivos de Lisboa. Entretanto, uma corrente cultural, representada por grupos antiescravagistas, tecia duras críticas a pomposa rotina da nobreza. Entre os críticos estava o pintor Manoel Araújo Porto Alegre. Nascido no Rio Grande do Sul, ele estudou durante alguns anos em Portugal e, ao regressar em 1837, começou a retratar de forma irônica a vida da Família Real ganhando assim o status de primeiro chargista brasileiro. A arte intitulada “A Campanha e o Sujo”, que circulou por 160 réis nas ruas do Rio de Janeiro sem assinatura do autor, é considerada a primeira charge das terras tupiniquins.

Primeira charge brasileiria

Primeira charge brasileira

Do desejo de satirizar os feitos dos poderosos e mesmo na tentativa de rir diante dos problemas do cotidiano, nasceram as charges. No Brasil o estilo foi coroado principalmente nas décadas de 1960 e 70, durante o endurecimento do Regime Militar, por nomes como Ziraldo, Jaguar, Millôr Fernandes, Lan, Chico Caruso, Laerte e Henfil.

Na Ditadura

Se a charge sempre desagradou muitos poderosos foi durante o Regime Militar que ela se tornou inimiga número 1 do estado. E os maiores inimigos certamente se encontravam no Pasquim. Fundado em 1969 por Jaguar, Sérgio Cabral, Tarso de Castro e Ziraldo, o semanário ficou conhecido por fazer forte oposição ao regime militar e se tornava mais politizado, com o passar dos anos. A tiragem, de 20 mil cópias semanais, chegou a 200 mil em meados da década de 1970, sempre apresentando textos, cartuns e charges políticas.

Ziraldo durante o Regime Militar

Ziraldo durante o Regime Militar

Colaboraram jornalistas, escritores, cartunistas e artistas de outras áreas, como Millôr Fernandes, Prósperi, Claudius, Fortuna, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sérgio Augusto, Ruy Castro, Fausto Wolf, Chico Buarque, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e outros. A redação chegou a sofrer censura prévia e vários integrantes foram presos durante a década de 1970.

Outra publicação perseguida nos anos de chumbo era o Rango. Criado em 1970, Rango é um desempregado barrigudo, sem dinheiro e que vive num depósito de lixo, numa crítica às desigualdades sociais do Brasil. Os quadrinhos do Rango, um anti-herói das tiras nacionais, simbolizaram a resistência à ditadura militar.

Na era dos cliques

Hoje, na era dos cliques, a quantidade de charges publicadas em blogs e páginas do Face Book é enorme. Porém, mesmo com a migração dessa arte para o meio digital (já que antes a maioria era publicada apenas em veículos de comunicação), as publicações não perderam a veia crítica e humorística e um passeio pela web pode revelar gratas surpresas.

Leonardo Amaral, Will Leite, Vitor Teixeira. A variedade de nomes e temas é grande, mas as sátiras continuam contundentes. Se há 40 anos os chargistas carregavam cadernos e folhas com traços e borrões, hoje a arte ganha vida por meio dos cliques do mouse em abas do Corel Draw, Photo Shop ou Adobe Flash. Felipe Rodrigues, Iguaçuense que hoje mora em Curitiba, resolveu trilhar os caminhos da arte há alguns meses. Apesar da pouca idade, 17 anos, mostra potencial e não dispensa a veia crítica e humorística dos mestres que impulsionaram as charges e os cartoons no Brasil. Debutou com uma crítica ao governo do Paraná durante a greve dos professores deste ano. “Minha primeira tira foi sobre a greve dos professores, que foi uma vaca em um diálogo direto com um frango”, conta sobre a primeira publicação do Blog Mimtirinhas, página que criou para divulgar seu trabalho. (http://www.mimtirinhas.com)

Feminismo: Um tema polêmico e recorrente no trabalho de Felipe

Feminismo: Um tema polêmico e recorrente no trabalho de Felipe

Além de política Felipe não dispensa temas “polêmicos” como feminismo, por exemplo. “Muita gente gosta de falar sobre política sem entender nada sobre o assunto e feminismo não é diferente. Minhas críticas ao feminismo não são diretamente a causa, pelo contrário eu apoio a causa feminista, mas sim ao comportamento extremo de algumas ativistas”, pondera. Além das polêmicas nota-se no trabalho de Felipe referências diretamente ligadas a jovens, como personagens de histórias em quadrinhos e de desenhos animados. Assim, dividindo o tempo entre o salão de beleza onde trabalha, as bicudas na quadra de futsal, os jogos de basquete, as aulas no ensino médio e as notas tiradas no violão ele publica charges com intuito de formar opinião, não a dos outros, mas as suas próprias. “Acho que quem faz cartoon com a ideia de mudar a opinião ou influenciar seus leitores, uma hora ou outra se sentira culpado, pois não somos donos da verdade e nossas ideias estão sempre em mudança. Então, a culpa é uma consequência de quem faz um cartoon político ou filosófico, refletir em algo é o objetivo principal se não houver isso será apenas um monte de rabiscos”, diz.

Aos 17 anos Felipe sonha em cursar design e viver de sua arte
Aos 17 anos Felipe sonha em cursar design e viver de sua arte

Seus inspiradores no mundo das charges são, além dos mitos como Laerte, novos nomes que arrebatam milhares de seguidores nas redes sócias como Will Leite (Wil Tirando), Chiquinha (da Folha de São Paulo) e principalmente Leonardo Amaral (do site Peixe Aquático). “O Leonardo Amaral inspirou muito o estilo debochado e um pouco do humor negro”, fala sobre seu estilo.

Pisando em ovos

Mas fazer sátiras e humor negro sobre temas polêmicos não desagradam apenas internautas que despejam toda sua insatisfação nos comentários do Face Book.  A família do artista também pode não gostar e isso é um grande problema quando se tem 17 anos. Por isso Felipe não mantém um perfil com seus dados “verdadeiros” nas redes sociais, mas usa um pseudônimo para ajudar a divulgar suas charges, além da página de seu site (https://www.facebook.com/mimtirinhas2?fref=ts). “A ideia de criar o personagem surgiu quando resolvi fazer tirinhas. Eu queria fazer tiras mais adultas e polemicas, fiquei com medo de que meus amigos ou familiares fossem contra minhas ideias”, confessa.

Agora o jovem chargista assume um novo desafio. Vai publicar uma charge semanal aqui no Parágrafo 2. Como não somos conservadores como algumas famílias, apesar de muitos de nós ter idade para isso, Felipe terá liberdade para expressar sua arte sem papas na língua, ou melhor no lápis, ou melhor ainda, no Adobe Flash.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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