Há muito tempo venho me questionando sobre o feminismo e como ele se manifesta. Primeiramente: sim, sou uma feminista. Sou mulher, vivo todos os dias sob a opressão de uma cultura pautada em valores patriarcais, vejo a distinção de poder entre homens e mulheres. Cresci ouvindo que “mulher tem que se valorizar”, ou coisas como: “e quando você casar, como vai cuidar da casa?”, “essa não é mulher pra casar” e outras tantas frases que, para piorar a situação, foram sempre proferidas por mulheres.

Durante minha infância, ganhei vassourinhas, panelinhas, até um mini tanque de lavar roupas eu tinha. Brinquedos que me entediavam, mas eram os únicos com os quais eu podia brincar, já que os outros “não eram coisa de menina!”. Tudo isso, numa tentativa inútil de fazer de mim uma boa dona de casa.

Sou uma mulher com curso superior, ciente de que esses padrões todos não são determinantes. Identifico-me facilmente com movimentos feministas e com a libertação das mulheres. Entendo a mensagem por detrás do nome “Marcha das Vadias”, compreendo o que o gesto de mostrar os seios durante as manifestações significa. Mas, no entanto, não vejo esse movimento libertando, de fato, todas as mulheres.

Permitam-me explicar: as mulheres que são, todos os dias, vítimas diretas do machismo, que não sabem como nem porque se defender, mulheres que têm, em sua formação, uma cultura de submissão, de aceitação, não fazem parte do movimento. Para elas, um movimento no qual as mulheres se intitulam vadias não as representa, seus valores são outros. Logo, se as mulheres não se sentem representadas por um movimento feminista, é sinal de que estamos seguindo um caminho errado. O movimento é lindo, inspirador, mas não vem alcançando a todas as mulheres, além disso, muitas das que se identificam com ele, ainda não captaram o espírito do feminismo.

Ao que parece, grande parte das pessoas que se dizem feministas é formada por jovens universitárias, passando por uma fase de descobrimento, com discursos muito bonitos, mas com poucas atitudes que os coloquem em prática. Digo isso, pois, reconheci algumas figuras que, durante a marcha, expunham seus seios, clamavam por liberdade, lembrei-me daqueles rostos, poucas semanas antes, passei por eles no campus da reitoria, fazia frio, mas eu usava um vestido, uma das mocinhas disse “tem gente eu tem fogo no rabo mesmo”. Ora, e a tal liberdade? Por que usar vestido num dia frio me expõe ao julgamento?

Quando penso em feminismo, penso em mulheres que apoiam, respeitam e aceitam umas às outras. Quando digo que sou feminista, é porque quero lutar por Dona Maria, aquela que apanha do marido, que chega em casa embriagado. Por tantas Donas Anas, que revendem Avon e Natura sem nenhum direito trabalhista. Quero me reconhecer na outra mulher.

A tal “sororidade” postada com hashtag no Facebook, fica só no Facebook. Não se está sendo feminista quando se julga a mulher que é submissa, as pessoas não têm a mesma formação, não é possível ajudá-las a desconstruir isso através do ataque. Não se desconstrói anos de cultura machista trocando a vogal temática que designa gênero, feminino ou masculino, por xis ou arroba.  É preciso mais do que isso, é preciso atitude.

Quando penso em feminismo, não entendo como o ato de julgar e crucificar todos os homens que cometem atitudes machistas. Quero, pelo menos tentar, fazê-los entender a gravidade de seus atos, afinal, eles também são fruto dessa cultura. Não se conserta um erro com outro erro.  Não sustento um ódio por homens, ao contrário, gosto muito deles.  Gosto de homens que se identificam com a causa feminista, que não simplesmente pintam a boca de batom durante as manifestações, mas que depois separam as mulheres entre “mulher pra casar e mulher pra pegar”. Gosto de homens que, mesmo que tenham sido criados em um meio onde todos dizem que ele é superior, desconstroem, dia após dia, mais uma barreira.

Essa afronta aos valores que, por tantos anos, as mulheres vêm sustentando – por falta de acesso à informação, por alienação midiática e religiosa, seja o que for – está apenas as afastando. Não se pode apontar o dedo para essas mulheres, chama-las de cegas, ignorantes e submissas. Ou se luta por todas e com todas, ou não há luta. Ou, talvez eu esteja errada, talvez o movimento seja apenas para mulheres universitárias.

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é formada em Letras pela PUC-PR, professora de Literatura, Língua Portuguesa e Espanhol. Dizem por aí que não é mulher para casar.

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