E a castração motivacional dos iniciantes

Coluna Requadro 2

E lá está você, jovem e com algum tempo livre para se dedicar a desenhos animados, animês, mangás, HQs, livro séries ou vídeo-games. Em dado momento descobre um micro universo interno partindo de estereótipos. Heróis e vilões começam a ganhar forma, noções maniqueístas vão ganhando um tom mais aprofundado e essa dança de yin e yang quase se torna homogênea. Você gerou um universo, mesmo que recheado de clichês (admita, é saudável) mas agora vem o parto, dar luz a essas ideias.

Muitos preferem manter suas ideias para si e com isso nunca conheceremos algumas ideias geniais de pessoas que cruzaram nossa vida. O processo de por pra fora uma ideia é doloroso, ela precisa passar pelo crivo do mundo externo e certamente receberá alguma crítica, ainda mais no cenário atual em que o internauta confunde banda larga com PhD e se sente o perito em todas as áreas: “isso aí você copiou de Star Trek”, “não tem um lance assim no Batman?”, “já usaram” ad infinitum, ou tem os que irão questionar milimétricamente a possibilidades físicas de sua história fantástica até que você perceba o quão idiota foi sua ideia. A verdade é que a chance de seu universo ser castrado ao ser colocado para fora é muito grande.

Após jogar muito Master System, curtir muito Cavaleiros do Zodiaco e X-Men senti que precisava por pra fora ideias amalgamadas dessa misturança de entretenimento. No primeiro formato recortei fotos de revistas de fofoca em pequeno quadrados, fiz algumas intervenções à caneta e corretivo, mandei xerocar e lá estava minha “tela de seleção de personagens”, grampeada com várias outras folhas nas quais eu explicava a história de cada personagem. Apresentar isso ao vizinho da casa ao lado, com o qual brincávamos de Comandos em Ação foi um tanto divertido.

Isso já faz mais de 20 anos e após muitas adições, subtrações, novas referências e mais estudo meu universo criado tem outra cara, e acredito que tenha ainda dois ou três personagens lá daquela época dos recortes de revista. Para explicar os poderes desses novos heróis tentei fugir da mutação e do acidente radioativo e montar um cenário em que a Terra seria habitada por seres dos (não riam) outros planetas do sistema solar. Hoje em dia eu posso fazer isso pois já não tenho medo dos críticos que irão encontrar falhas grotescas na constituição do meu universo.

Ok, eu tinha o universo, o básico de cada personagem mas não tinha um roteiro apresentável, nas minhas mãos tudo culminava ao  caos, não era de se estranhar que logo de cara os personagens se envolvessem em viagens no tempo ou orgias incestuosas metafísicas entre alienígenas, então recorri a um amigo que conheci no ensino médio que também se arriscava nessa coisa de criar universos, Paulo José Costa, para colocar meus personagens nos trilhos, essa aliança deu certo e eu passei a desenhar a história dele, os Armas Vivas,  enquanto ele traçava uma nova história para os meus Extragenes. Nascia aqui a Equipe Bugio (sim, Bugio, o macaco, é uma longa história).

Apesar de meu traço não muito anatômico e de parcos cenários aquilo tinha ficado legal e resolvemos mostrar para mais pessoas, surgiu então a ideia de imprimir a HQ, mas como fazer? Não tínhamos grana para imprimir duas cópias, quanto mais 300! Recorremos então ao Catarse e a coisa mudaria de figura.

 

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    A evolução da personagem Annie, no começo apresentada em seu “mecha”

 

Captação de verba

O Catarse (https://www.catarse.me/ ) é um site de captação de verba para projetos, financiamento coletivo que tem como proposta ajudar as pessoas a tirarem suas ideias da gaveta e colocar em prática. O site facilita as colaborações, é tudo bem prático e auto explicativo. Escrevemos então nosso projeto, fizemos orçamentos e estabelecemos a quantia de R$6.000,00 para arrecadarmos num período de 60 dias. Nesse período descobrimos uma outra vertente desse cenário a qual desconhecíamos, algo que se diferenciava um pouco da nossa amada Curitiba que acolhia de braços abertos novas produções de quadrinhos.

Mostramos nosso projeto para os alguns artistas das araucária e olhinhos se reviraram, e logo entendemos que era por conta dos do tema “super-heróis” e todas essas cores explodindo para fora das páginas como se fôssemos Michael Bay do lápis. Depois descobrimos que o mesmo desdém tinha-se com as produções locais de mangá. Que fique bem claro que eu valorizo muito as produções locais, e inclusive já comprei muita coisa daqui e não é regra geral esse desdém que relatei. Apesar desses percalços tem muito artista gente boa aqui!

Um ano depois, o que mudou?

Estamos lançando a edição 2 de Armas Vivas e Extragenes no Catarse (https://www.catarse.me/pt/armasvivasextragenes2), e um ano depois notamos algo nessa plataforma que antes nem conhecíamos; gente grande começou a usar também. Isso de certa forma é bom, o colaborador pode agora escolher de antecipadamente a HQ que ele quer ajudar e garantir numa espécie de pré-venda, enquanto o autor garante a verba para publicar a mesma (e destinar parte da verba para a confecção dos brindes). E por falar em brindes esse ano conseguimos uma parceria com a GAUCHE BIER CERVEJAS ESPECIAIS que nos fará uma cerveja de frutas vermelhas como um dos nossos brindes (curiosidade: a cerveja é a Mais-Valia – vermelha pela própria natureza, essa bebida já havia dado as caras nas páginas de Armas Vivas & Extragenes #01 e agora pode ser provada pelos leitores).

EnfimSou Idovino Cassol Jr da Equipe Bugio, criador dos Extragenes e já estamos rumo à impressão da nossa segunda edição. Vocês que estão começando agora não se detenham por esses obstáculos que certamente cruzarão seu caminho, forcem um pouco mais, nem que seja para irritar essa elite. Compartilhem com o mundo seus universos. É gratificante ouvir outras pessoas comentando sobre suas histórias. Nesse tempo nós angariamos alguns leitores, e até fãs, como a jovem Dâmares Barreiros de Aracruz que sempre nos escreve perguntando detalhes da trama ou o estudante de filosofia Pedro Gonçalves que já nos enviou vídeos com perguntas e pedidos.
Somos muito gratos a esses leitores.

O Paraná é grande, cabe gibi de todo tipo no meu ponto de vista.

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      Abertura da primeira edição de Extragenes se passando em Pinhais

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O brucutu Swat de Armas Vivas em um cartaz para o dia da Consciência Negra desenhado por Paulo José Costa

Conheça mais sobre os Armas Vivas e sobre os Extragenes aqui: https://www.catarse.me/pt/armasvivasextragenes2

https://www.youtube.com/watch?v=RAWJIOzofjM

Produção local recomendada:
ALÉM DOS OLHOS GRANDES
https://www.facebook.com/paginaaog

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É estudante de filosofia, Designer gráfico e desenhista.

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